O trajeto de barca de cerca de uma hora da Praça XV, no centro do Rio de Janeiro, à Ilha de Paquetá, fazia parte do dia a dia do pequeno Lucas, um menino que atravessava a Baía de Guanabara para viver seu sonho de ser jogador de futebol. O objetivo foi alcançado, e hoje esse garoto leva o nome da ilha onde foi criado nas costas da camisa da seleção brasileira na Copa do Mundo.
Nesse segundo capítulo da série Meninos do Rio, o EXTRA foi conhecer as origens do meia do Flamengo. Após uma hora entre os balanços da barca, gaivotas e os grandes navios que tomam conta da vista na Baía de Guanabara, a Ilha de Paquetá se “apresenta” aos seus visitantes com diversos carrinhos de golfe — carros e motos são vetados no local — e decorações em verde e amarelo, no clima da Copa do Mundo. O mesmo trajeto que já foi feito muitas vezes por Lucas Paquetá, acompanhado de seu falecido avô, Altamiro, e o irmão mais velho, Matheus, para os treinos no rubro-negro.
Numa ilha de cerca de 4 mil habitantes, não é difícil encontrar pessoas que conheceram e fizeram parte da história de Lucas Paquetá. No carrinho conduzido por Beto Alves, guia turístico do local, a primeira parada foi à beira da praia com Kiko Gomes, que viu de perto o nascimento de um talento do futebol brasileiro.
— Eu conheço o Lucas desde que ele nasceu. O pai dele jogava comigo, foi meu companheiro de futebol, e o avô dele foi técnico da gente. E o Lucas era garoto, moleque né. Gostava de jogar bola na rua o dia inteiro. Aqui em Paquetá todo mundo foi criado assim, ainda mais naquela época — declarou o autônomo de 55 anos.
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Além de se divertir com a bola nos pés nas ruas de terra e na areia da praia da ilha, Lucas já se destacava no campo do Municipal Futebol Clube, a poucos metros de sua antiga casa, na Rua Adelaide Alambari, sob o comando do técnico Irakitan Velloso.
— O Lucas participava dos treinamentos desde quando tinha cerca de cinco anos, e você vê quando o menino já tem o talento. Ele se destaca desde garoto — contou o técnico.
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Já quando não tinha a bola nos pés, Lucas aproveitava para fazer alguns bicos de guia turístico no local. Ajudava os visitantes e explicava histórias de lugares como a Pedra da Moreninha e, em troca, ganhava um dinheirinho para comprar pipa e bola de gude — a pedra é tradicionalmente vista como cenário do romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, embora o nome da ilha não seja citado na obra.
Mas, entre os bicos e o futebol, Lucas não deixava de estudar. Quando trocava o campo pelos livros, recebia o apoio da professora Marli Coutinho, que revela não ter tido muito trabalho com o seu antigo aluno. Pelo contrário, ele era um grande amigo e ajudava muito sua falecida filha PcD (pessoa com deficiência).
— O Lucas veio para cá com quatro anos para ser alfabetizado e ficou até os 14. Ele era um menino tranquilo, inclusive tinha uma cicatriz no bico do peito porque uma criança com apelido de pitbull o mordeu. Mas era um menino muito bonzinho, muito inteligente, apesar de perder aula na escola porque tinha que ir para cidade para treinar. Ele sempre foi muito inteligente, muito dedicado — disse a professora.
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— Minha filha usava cadeira de rodas e era o Lucas quem a levava para cima e para baixo. Ela jogava a bola com ele na cadeira de rodas. Ele sempre foi apaixonado por uma bola, qualquer coisinha que tinha aqui na rua, acabava a aula, eles já começavam a brincar, e era sempre uma bola — completou.
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Após longas viagens de barca, Lucas deixou a ilha aos 11 anos e se mudou para a Zona Oeste do Rio para ficar mais próximo ao CT do Flamengo. Mesmo longe, ele carregou o nome da ilha com o apelido que surgiu na base do rubro-negro, quando o jovem jogador contou aos companheiros onde morava — seu nome verdadeiro é Lucas Tolentino Coelho de Lima.
De lá para cá, Paquetá (o atleta) estreou pelo profissional do Flamengo em 2016, chegou à Europa em 2019, retornou ao clube carioca no início deste ano e agora disputa sua segunda Copa do Mundo com a camisa da seleção brasileira.
— Isso é motivo de orgulho, vê-lo numa Copa. Não só para mim, mas para o clube Municipal e para Paquetá também. Ele carrega o nome, isso é valioso para a ilha. Um lugar de onde saiu um menino talentoso, vencedor. O Lucas é inspiração para os meninos aqui da escolinha do clube. A garotada tem o sonho de ser jogador e ele é um espelho — destacou o técnico Irakitan
— É uma emoção acompanhar a trajetória do Lucas e agora vê-lo na Copa do Mundo, uma criança que estudou comigo. Lembrar de ver esse garoto tão pequeninho aqui com a gente e pensar que um dia ele iria chegar na seleção brasileira — acrescentou a “tia” Marli.



