Tomate, cebola, leite e carnes: Alta de itens básicos aumenta percepção de inflação

Ao menos 72% dos consumidores perceberam uma alta no preço dos alimentos no último mês. É o que mostra a pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (dia 15). Depois de meses sob controle, esses itens voltaram a subir diante dos impactos da guerra no Oriente Médio, e chegaram ao maior nível do terceiro mandato do presidente Lula.
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Dentre as 2.004 pessoas que responderam à pesquisa, apenas 18% acham que os preços não variaram e 8% perceberam que caíram. Os 2% restantes não souberam ou não responderam.
A percepção dos entrevistados reflete um cenário em que a alimentação no domicílio subiu 1,94% nos resultados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, divulgado na última sexta. Esse percentual é bastante superior ao 0,23% de fevereiro e o maior desde abril de 2022 (2,59%).
Vale ressaltar que nem no fim de 2024 os números eram tão elevados. Na época, a inflação estava tão pressionada que o presidente veio publicamente cobrar medidas para reduzir o preço de alimentos.
Segundo economistas, o fechamento do Estreito de Ormuz levou a altas significativas no petróleo, resultando em um encarecimento de combustíveis, que se reverberou pela inflação.
A alta no diesel ajudou a pressionar o preço dos alimentos, já que o combustível é utilizado para transportá-los pelo país, e seu aumento eleva os custos de produção, que acabam sendo repassados ao consumidor final.
O feirante Victor Vinícius, de 27 anos, já sente o peso do frete nas suas contas. Ele diz que está pagando R$98 em uma caixa de maçã que antes era R$80, enquanto no mercado o kg está quase R$20. A fruta registrou queda no IPCA, mas, nas bancas, o preço continua subindo.
— Aqui a gente vende por quantidade, mas quando você coloca tudo na ponta do lápis, vê que não tem muita diferença, está tudo caro da mesma forma. Os fornecedores falam que o motivo é o pagamento dos funcionários da roça e o combustível do trasporte, mas isso reflete aqui, para a gente e para o consumidor — relata ele.
Altas que pesam no bolso
Entre as principais altas de março estão o tomate, a cebola, a batata-inglesa, o leite longa vida e as carnes. Esses produtos estão muito presentes na rotina dos brasileiros, de forma que quando seus preços sobem, a percepção de inflação tende a causar um incômodo maior na população.
O cenário já é percebido nas feiras livres do país e está levando consumidores a repensarem a quantidade e até a substituírem alimentos. É o caso de Thaisa Braga, de 37 anos, e Diego Rodrigues, de 40 anos, que fazem as compras semanais todas às quartas-feiras, em uma feira de Copacabana.
— Antes, nossa compra dava cerca de R$70,00 e hoje não conseguimos mais fazer por menos de R$100,00, mesmo não comprando mais do comprávamos antes, os preços têm aumentado mesmo. A feira é o nosso maior investimento mensal, a gente passou até a comprar carne aqui, em vez de no mercado — compartilha Braga.
Thais Vasconcelos, de 31 anos, também percebe os preços subindo:
— Eu não estou buscando nenhum legume mais raro ou fora de época, é em legumes mais comuns mesmo, como batata, e vegetais como tomate e cebola, que você sente a diferença.
Por isso, alguns consumidores estão optando por escolhas mais cautelosas, como conta o casal André e Rebeca Cunha, de 36 e 33 anos, que foi fazer a compra da semana na feira da Rua Humaitá.
— Os alimentos são aquilo que a gente mais sente na ponta do lápis. A gente tem tentado variar onde vamos comprar as frutas e verduras, estamos preferindo vir à feira no final, quando já está quase acabando, porque os preços ficam mais viáveis para continuarmos comprando a quantidade que a gente consome. A gente procura alternativas mais baratas. Antes, a gente comprava no mercado, mas a feira, nesse horário, tem mais promoções — diz André.
Márcia Gabriele, de 30 anos, também passou a comprar frutas, legumes e verduras na feira por conta dos altos preços dos alimentos nos hortifrutis e supermercados.
— Lá é tudo vendido a kg e é impossível comprar. Aqui na feira, por ser em quantidade, a gente consegue comprar frutas e legumes para a nossa semana. Se a gente fosse fazer a feira no mercado, a gente não ia conseguir levar nem a metade do que a gente tá levando — explica Gabriele, que faz as compras semanais na feira do Estácio.
Impacto na popularidade
Esse cenário pode, portanto, estar tendo impacto na popularidade do presidente. A pesquisa também mostrou um aumento na desaprovação do terceiro mandato de Lula, que chegou a 52%.
O alívio, porém, pode demorar a chegar. Segundo especialistas, os próximos meses podem contar com a combinação de pressões derivadas da guerra e das condições climáticas nos alimentos.
— Vêm problemas pela frente na precificação dos alimentos, não só pela questão do frete, mas mais adiante, via fertilizantes. No segundo semestre, ainda tem a questão do El Niño. Então, há novas pressões de alimentos que estão aí na agenda — disse Fábio Romão, economista sênior da Logos Economia.
Ele explica que os conflitos no Oriente Médio também impactaram no preço de alguns fertilizantes utilizados na agricultura, sobretudo os nitrogenados, com interrupções na produção e exportação, o que reduz sua oferta global e pode resultar em altas nos preços de alguns alimentos, como milho e soja, que dependem do insumo.
Feirantes adotam estratégias
Nas bancas, os sacos já fechados com os legumes ganham mais espaço do que os itens soltos, para serem pesados. Na feira da Rua Estácio, é comum encontrar promoções de um saco de batatas por R$2 e três sacos por R$5. Andando mais, encontra-se também bandejas de frutas, como as maçãs, que estavam sendo vendidas em cinco unidades, por exemplo.
Para não influenciar nas vendas, Edson Brás, de 49 anos, relata que diminui a quantidade das maçãs na bandeja para conseguir manter o valor.
— Às vezes, quando a maçã está graúda, a gente só coloca algumas. Quanto mais caro fica a fruta, mais a gente vai diminuindo a quantidade, porque se a gente aumentar o valor, nem que seja um real, as pessoas deixam de comprar aqui. Tudo aumentou, a caixa da maçã, que já bateu R$50,00, hoje eu compro por R$90,00, e a caixa da banana, que era R$75,00, eu estou comprando por R$100,00 — relata Brás.



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