Numa igreja de Botafogo, na Zona Sul do Rio, estão depositadas as cinzas de uma vítima de um crime que chocou cidadãos portugueses residentes no Rio e em Portugal. Ex-secretária do falecido empresário português Lúcio Tomé Feteira, que já foi considerado dono de uma das maiores fortunas da Europa, e sua amante por 32 anos, a portuguesa Rosalina da Silva Cardoso Ribeiro já havia conquistado o direito de receber parte da herança do milionário em Portugal. No Brasil, ela disputava com uma filha de Feteira um espólio de R$ 80 milhões. Aos 74 anos, no entanto, foi morta com um tiro no peito e outro no rosto, em 7 de dezembro de 2009, em Saquarema, na Região dos Lagos.
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Lúcio Tomé Feteira morreu de causas naturais, aos 98 anos, em 2000. Já o crime que tirou a vida de Rosalina aconteceu cinco dias antes de uma viagem que ela havia programado, mas que nunca chegou a fazer. A secretária pretendia retornar a Portugal e tinha passagem marcada para um voo no dia 12 de dezembro daquele ano . A última pessoa a estar com a vítima, horas antes de ela ser executada, foi o advogado e ex-deputado português Domingos Duarte Lima. Às 19h59 do dia 7 de dezembro, uma imagem captada por uma câmera de segurança mostra Rosalina em um elevador, descendo de um prédio onde morava, no Flamengo, na Zona Sul, para se encontrar com o advogado. É a última imagem dela com vida. Duas horas depois, ela foi morta em Saquarema, na Região dos Lagos.
Polícia aponta advogado e ex-deputado português como autor da morte de Rosalina Ribeiro
Principal suspeito do crime, Duarte Lima se tornou réu na Justiça brasileira. Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, o português cometeu o assassinato porque a vítima se recusava a assinar uma declaração afirmando que o advogado não havia recebido nenhuma quantia transferida por ela. Meses antes do crime, a Justiça portuguesa havia recebido um comunicado da União dos Bancos Suíços esclarecendo que parte do dinheiro do espólio de Tomé Feteira havia sido transferida pela secretária portuguesa, sem autorização dos demais herdeiros, para uma conta de Duarte Lima.
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A cremação dos restos mortais de Rosalina, autorizada pela Justiça brasileira, ocorreu três anos após o assassinato. Até então, seu corpo estava sepultado em uma gaveta do Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul. Segundo o português Armando Manuel Custódio de Carvalho, de 71 anos, técnico em telecomunicações e afilhado de Rosalina, ele não conseguiu transferir o corpo da madrinha para o mesmo local onde os pais dela estão sepultados, em Portugal. Por isso, acabou optando pela cremação e decidiu depositar as cinzas de Rosalina em uma igreja dedicada a uma santa de quem ela era devota.
— As cinzas estão na Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela frequentava essa igreja e era devota da santa. O desejo dela era, se tivesse tido uma morte natural, ser sepultada junto aos pais, em Portugal. Como isso não foi possível, achei por bem deixar as cinzas depositadas na igreja — disse Armando, acrescentando que sua madrinha era uma pessoa afável e não tinha inimigos.
“Quem matou Rosalina?”: podcast sobre assassinato de portuguesa em Saquarema
Divulgação
No próximo dia 29, O GLOBO lança o podcast Quem matou Rosalina?, uma parceria com o jornal Público e a Coimbra Coolectiva. Idealizadora do podcast, a jornalista brasileira Vilma Reis, da Coimbra Coolectiva questiona a morosidade judicial que fez com que os portugueses deixassem o caso de lado. Ela espera que a produção e o julgamento do caso retomem o interesse em acompanhar o desfecho de mais um crime contra uma mulher, que aponta um suspeito influente, conectado tanto aos gabinetes do Parlamento de Portugal quanto ao corredores dos milionários daquele país.
Os comissários Aurílio Nascimento e Rogério Lima foram os responsáveis pela investigação da morte da portuguesa Rosalina da Silva Cardoso Ribeiro
Domingos Peixoto/Agência O Globo
Quase 17 anos após o assassinato, o advogado e ex-deputado português Domingos Duarte Lima, apontado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, mais precisamente pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), como autor do crime, será julgado a partir de 5 de novembro por um tribunal em Portugal. Por decisão da Justiça brasileira, onde Duarte Lima chegou a ter a prisão decretada, o processo foi remetido ao país europeu em 2016.
Entre os dias 8 e 15 de agosto de 2010, o jornal Extra, da Editora Globo, publicou com exclusividade uma série de reportagens intitulada Herança Maldita, que revelou o crime e os detalhes da investigação que apontava Duarte Lima como responsável pela morte de Rosalina. Uma das entrevistadas na série, em 2010, foi a engenheira portuguesa Olímpia Tomé Feteira, filha extraconjugal do milionário Lúcio Tomé Feteira, que faleceu anos depois.
Ela afirmou que Rosalina teria contado com a ajuda de Duarte Lima para desviar 8 milhões de euros de uma conta do espólio do milionário em um banco suíço. Desse total, pouco mais de 5 milhões de euros teriam sido transferidos para uma conta do advogado português, que cuidava dos interesses de Rosalina.
— Esses valores foram confirmados a pedido da polícia portuguesa, que fez uma carta rogatória dirigida à Suíça. Em setembro de 2009, a Suíça enviou a carta rogatória para Portugal, e houve a descoberta do saque e das transferências. Ela (Rosalina) foi para o Brasil, em 2009, porque sabia que seria chamada para dar explicações sobre o dinheiro — disse Olímpia, em entrevista concedida ao jornal Extra em agosto de 2010.
O caso, que deu origem a um processo de oito volumes e mais de 2 mil páginas, foi investigado pelos comissários Aurílio Nascimento e Rogério Lima. Este último está em tratamento médico e ainda se recupera de um acidente vascular cerebral. Na época, ambos eram lotados na DHC.
O Extra conversou com os dois policiais para obter mais detalhes da investigação. Entre as revelações, duas informações chamam a atenção. A primeira é que Duarte Lima circulou pela mesma região onde o corpo da secretária foi encontrado cerca de 24 horas antes do crime. A segunda é que há indícios de que a secretária tenha sido baleada à queima-roupa. Para a polícia fluminense, isso aconteceu quando a vítima estava dentro de um carro, na companhia do português.
Lúcio Tomé Feteira e Rosalina Ribeiro
Reprodução
Segundo informações que constam na investigação, Duarte Lima desembarcou no Brasil em 5 de dezembro de 2009, mais precisamente em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. No dia 6, dirigiu-se ao Rio de Janeiro em um carro alugado, mas, pouco depois de descer a Serra de Petrópolis, seguiu para a Região dos Lagos. Em seguida, passou com o veículo pela mesma região onde a secretária seria assassinada.
O levantamento dos locais por onde o suspeito passou foi feito a partir do rastreamento de multas recebidas pelo carro durante o trajeto entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro.
— Descobrimos que, um dia antes do homicídio, ele circulou com o carro alugado nas proximidades do local onde, cerca de 24 horas depois, o corpo da vítima foi encontrado. Era um local bem deserto na época — disse o comissário Nascimento.
Segundo o comissário Rogério Lima, um rasgo na alça do vestido usado pela vítima na noite em que foi executada indica que ela teria sido arrastada para fora do carro após ser baleada. Em seguida, o corpo foi abandonado em uma estrada de terra. Rosalina foi morta com tiros de revólver calibre 38.
— Tudo indica que o primeiro tiro atingiu a vítima no peito e o segundo, no rosto. Havia um rasgo na roupa, o que indica que ela provavelmente foi puxada para ser retirada de um carro — disse o comissário.
Para identificar o veículo usado por Duarte Lima, os comissários analisaram centenas de multas registradas na noite do crime no trajeto entre o Rio de Janeiro e o local onde o corpo de Rosalina foi encontrado, em Saquarema. A partir daí, um carro com placa de Belo Horizonte foi identificado. Após localizar a proprietária do automóvel, os policiais descobriram que o veículo havia sido entregue para prestação de serviços em uma locadora da capital mineira.
O estabelecimento confirmou ter alugado o carro ao português Duarte Lima. O veículo foi devolvido à locadora após a data do crime sem o tapete do banco do passageiro. Segundo a polícia, isso indica que o acessório não foi devolvido porque poderia estar sujo de sangue.
— O tapete sumiu. Para nós, ele foi descartado por estar sujo de sangue. A vítima teria sido executada dentro desse carro, no banco do passageiro. Os tiros que a atingiram foram disparados da esquerda para a direita — disse Aurílio Nascimento.
Duarte Lima não chegou a prestar depoimento. Em um documento enviado por fax na época, o português confirmou que esteve com Rosalina Ribeiro na noite de 7 de dezembro de 2009. Segundo o advogado, o encontro foi marcado por telefone pela própria secretária.
No documento, Duarte Lima disse ter buscado sua cliente no Flamengo. Na versão apresentada pelo ex-deputado português, ele a deixou em um bar nas proximidades de Maricá e Saquarema, perto de um hotel, na companhia de uma mulher loira.
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'Quem matou Rosalina': cinzas de vitima que disputava herança de R$ 80 milhões estão em igreja do Rio




