Mãe de adolescente assaltada em Caxias relata desabafo da filha após roubo de celular: 'Eu consigo lembrar do olhar dele, do ódio que ele estava'

“Por favor, moço, por favor, por favor, pelo amor de Deus, eu só tenho esse telefone. Moço, por favor”. O apelo sofrido de uma vítima de assalto, flagrado em vídeo na manhã da última segunda-feira, se espalhou pelas redes sociais em poucas horas. O moço a quem a adolescente apelava era o assaltante, já identificado pela polícia com o auxílio de câmeras da Prefeitura de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde o crime aconteceu. Com a repercussão do caso, horas após ter o celular roubado, a jovem de 18 anos, que prefere não se identificar, ganhou de dois comerciantes dois celulares novos e um tablet.
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O crime aconteceu na Rua Itaboraí, no bairro Cavaleiros, em Duque de Caxias. Era para ser só mais uma ida tranquila ao colégio. A adolescente cursa o 2º ano do ensino médio num colégio em São João de Meriti, também na Baixada, voltado para a formação de professores. Para ir às aulas, a adolescente costuma pegar dois ônibus; com a demora da primeira condução, nesta segunda, ela preferiu ir andando até o embarque do segundo coletivo, uma caminhada de 15 minutos. Pelo horário, 10h30, ela achou que seria seguro ir a pé.
— O horário do ônibus varia muito e ela tem medo de perder a hora para a aula. Ficar à mercê desse ponto de ônibus aqui parada é o tempo da gente chegar no outro ônibus, pegar um ônibus mais vazio. Sabendo o horário do outro ônibus, a gente fazia isso com tranquilidade. Mas agora não tem mais como — conta a mãe da menina, que também prefere manter o anonimato.
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Vítima teve o pescoço apertado
Enquanto a jovem passava pela Rua Itaboraí, um homem desceu de um carro estacionado e a abordou, exigindo que ela entregasse o celular. A adolescente entrou em desespero e implorou para que o seu smartphone não fosse levado. Mesmo com os apelos, o criminoso agrediu a vítima: no vídeo que circula nas redes sociais, é possível ver que ele aperta o pescoço da adolescente com força.
— Ela foi socorrida pela pessoa que forneceu o vídeo e as pessoas do entorno avisaram à Força Municipal (de Caxias), que trouxe ela para casa. Quando ela chegou aqui em casa, já chegou com a polícia. Ela estava chorando muito, muito nervosa com o que aconteceu. Ela disse que estava tão nervosa que nem sentiu dor quando ele pegou no pescoço dela, nem o perigo que estava correndo — relata a mãe da jovem.
Ela diz que o homem estava armado com uma pistola e usou a arma para coagir sua filha, ameaçando golpeá-la com uma coronhada. O assaltante mandou a garota digitar a senha do telefone, mas ela se negou. O aparelho continha informações e aplicativo de banco. Além disso, um cartão de crédito estava na capa do celular. A mãe conseguiu rastrear o aparelho pela nuvem do smartphone e viu que o dispositivo estava no bairro carioca da Pavuna, na Zona Norte. A família conseguiu bloquear os acessos a tempo de evitar que fossem invadidas.
— Vi o vídeo uma vez e não consegui assistir mais. Hoje (terça-feira) vi uma reportagem sobre o caso e ela estava junto comigo e foi contando o que aconteceu enquanto as imagens apareciam: “Mãe, nesse momento ele estava me xingando, estava gritando com tanto ódio. Eu consigo lembrar do olhar dele, do ódio que ele estava. Ele podia ter me batido, me jogado dentro do carro, mas acho que os meus gritos não deixaram” — relatou a mãe da adolescente.
‘Todo dia tem assalto’: moradores do entorno reclamam de insegurança
A família é de Juiz de Fora, Minas Gerais, e vive há dez anos em Duque de Caxias. Esta foi a primeira vez que uma das duas sofreu um assalto, mas ambas já ouviram diversos relatos de violência na região. A mulher relatou que os episódios vão desde balas perdidas encontradas no seu quintal, que ela acredita terem vindo de favelas próximas, como o Complexo da Mangueirinha, até outros assaltos narrados por seus vizinhos.
— É frequente ter assalto aqui. A nossa rua tem várias saídas e instalaram cancelas porque tinha muito assalto. Por aqui tem muito policial, mas não adianta de nada. No início do ano, num domingo, um senhor comprou almoço numa padaria daqui e estava voltando quando um carro tentou assaltar quem estava em outro carro. Teve muito tiro e acabou acertando esse homem. É um horário em que a rua não está vazia. É bem movimentado e a gente acaba tendo uma sensação falsa de segurança, mas não tem hora certa. Esta semana, por exemplo, ela vai ter prova todos os dias e, depois do que aconteceu, eu vou (até a escola) e vou voltar com ela — diz a mãe, que é cabeleireira e tem horários flexíveis de trabalho, que permitem que ela acompanhe a jovem nos próximos dias.
Uma moradora da Rua Itaboraí, que também preferiu não se identificar, acompanhou de perto o ocorrido de segunda-feira e revelou que assaltos já fazem parte da rotina da vizinhança:
— Aqui estamos ao Deus dará. Todo dia tem assalto aqui. Moro há 15 anos nessa rua, o assalto foi em frente à minha porta. A minha família já foi assaltada nessa rua seis vezes. Só a minha filha foi assaltada duas vezes em menos de um ano.
O comércio local também sofre com a falta de segurança. Moradores denunciam que diversos estabelecimentos, como de vestuário e farmácias, já foram alvos de criminosos que circulam no bairro. Um dono de uma loja de autopeças que está há 20 anos nas proximidades da Rua Itaboraí confirma que a violência é frequente e que nem a presença de cabines policiais inibe as práticas.
Oportunidade de recomeço
Após o vídeo viralizar nas redes, donos de estabelecimentos de aparelhos eletrônicos acompanharam o caso e ofereceram novos aparelhos para a menina. Agora, ela tem dois novos celulares e um tablet, que será utilizado nos estudos.
Júnior Sampaio, que tem uma loja de tecnologia em São João de Meriti, procurou a família da jovem pelas redes sociais e foi até a 59ª DP (Duque de Caxias), onde eles prestavam depoimento sobre o assalto, para presentear a adolescente com um novo smartphone.
— Uma funcionária, minha postou esse vídeo no WhatsApp na parte da tarde e, automaticamente, quando eu vi no status dela e já fiquei comovido. A garota implorou para o rapaz não pegar o telefone dela e podia acontecer o pior. Acho que o telefone foi fruto de trabalho suado e que ela poderia não ter recursos para comprar outro, por isso decidi dar outro para ela — disse o empreendedor.
A menina ficou muito contente com o presente. A mãe ficou receosa de receber o aparelho, mas, depois de conversar sobre a oferta com autoridades na delegacia, ela se sentiu confiante para aceitar.
— Quando o pessoal começou a ligar, fiquei com medo porque eram pessoas que eu não conhecia. O Júnior Sampaio me mandou uma mensagem e eu respondi da mesma forma que tinha respondido a outras pessoas que falaram que queriam dar um celular para ela. Ele achou o meu endereço enquanto eu estava na delegacia e um parente meu avisou que ele foi lá em casa querendo dar o celular para ela. Disso, ele foi atrás da gente lá na delegacia. E depois foram outras duas pessoas lá que deram o tablet e o celular — relatou.



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