Flávio vai aos EUA tentar barrar tarifas, mas sem dar a Lula discurso de soberania


Senador participa de audiência nos Estados Unidos para se posicionar contra taxação de 25% sobre produtos brasileiros, temendo que Lula capitalize politicamente a medida

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participa, nesta segunda-feira (6), de uma audiência pública nos Estados Unidos para discutir a possível taxação de 25% sobre produtos brasileiros. A medida está sendo avaliada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) em investigação que acusa o Brasil de práticas comerciais “irrazoáveis”. Flávio foi inscrito como testemunha e deve se manifestar contra as tarifas, mas com uma preocupação central: evitar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transforme a taxação em uma vitória política interna baseada no discurso de soberania nacional.

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Na petição enviada ao USTR, Flávio argumenta que a aplicação das tarifas acabaria por beneficiar politicamente o atual governo brasileiro. Segundo ele, a taxação “recompensaria o atual governo brasileiro pela própria estratégia que ele tem adotado: protelar negociações sérias, provocar Washington a retaliar e, então, transformar essa retaliação em uma vitória política interna”. O posicionamento revela que o senador busca se opor à medida sem, no entanto, abrir espaço para que Lula se apresente como defensor dos interesses nacionais, como ocorreu em abril do ano passado, quando as primeiras tarifas foram impostas e o presidente petista ganhou popularidade ao adotar tom soberanista.

O blogueiro Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, também foi inscrito para falar na audiência e deve adotar linha semelhante. Em sua petição, Figueiredo sustenta que a taxação “puniria as vítimas da conduta que deu origem a esta investigação, ao mesmo tempo que fortaleceria seus autores”. Ambos os posicionamentos partem da avaliação de que uma retaliação comercial americana contra o Brasil tende a ser explorada politicamente por Lula, especialmente em um momento em que a popularidade do presidente vem se recuperando.

Flávio tenta se posicionar contra tarifas americanas sem permitir que Lula capitalize o tema da soberania nacional

A preocupação de Flávio e de seus aliados com o impacto político interno da medida reflete o aprendizado obtido com a primeira rodada de tarifas impostas por Donald Trump ao Brasil no ano passado. Naquela ocasião, parte do bolsonarismo comemorou publicamente a taxação, o que permitiu a Lula assumir o papel de defensor da economia nacional e ganhar espaço junto ao eleitorado. Desde então, a estratégia de Flávio tem sido evitar que o mesmo movimento se repita. Ao participar da audiência nos Estados Unidos, o senador busca marcar posição contrária à taxação, mas sem abrir flanco para que o governo federal transforme o episódio em bandeira de soberania.

O professor de Direito da FGV Jean Menezes Aguiar explica que audiências como essa servem para dar legitimidade ao processo decisório americano. Segundo ele, a coleta de informações durante a audiência permite que o órgão responsável pela decisão final argumente que ouviu diferentes setores da sociedade antes de deliberar. No caso brasileiro, a participação de Flávio e de Paulo Figueiredo representa uma tentativa de influenciar o debate sem, no entanto, ceder terreno político a Lula no Brasil.

A audiência desta segunda-feira ocorre em um momento de tensão nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. A investigação conduzida pelo USTR acusa o Brasil de práticas que vão desde ordens judiciais contra plataformas digitais até supostas falhas no combate à corrupção e ao desmatamento ilegal. A decisão final sobre a aplicação ou não das tarifas de 25% cabe ao presidente Donald Trump. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tenta se mover em um campo estreito: criticar a taxação sem permitir que o principal adversário político no Brasil se fortaleça com o tema.

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