A Copa do Mundo de 2026 terá mais um dia decisivo nesta segunda-feira, mas desta vez a preocupação não está apenas dentro de campo. Os confrontos entre Noruega e Senegal, às 21h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, e França e Iraque, às 18h, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, entraram em alerta por causa da previsão de tempestades nos Estados Unidos. Em Nova Jersey, onde os noruegueses tentam encaminhar a classificação no Grupo I, o temor é de chuvas fortes acompanhadas de descargas elétricas e possíveis alagamentos na região do estádio. Já na Filadélfia, a abertura dos portões para o jogo da atual campeã chegou a sofrer atraso antes de ser confirmada, enquanto a Fan Fest da cidade foi encerrada pelo restante do dia como medida preventiva.
Poucas horas antes do início de Noruega x Senegal, torcedores presentes no entorno do MetLife Stadium receberam em seus celulares um alerta de segurança pública emitido pelas autoridades locais. Em espanhol, a mensagem orientava que as pessoas deixassem áreas abertas e buscassem abrigo devido ao mau tempo previsto. O comunicado também pedia que o público evitasse permanecer próximo às saídas durante eventual deslocamento de pessoas e informava que equipes do evento estavam preparadas para orientar os torcedores.
Em meio ao cenário de instabilidade, um protocolo pouco familiar para parte do público volta ao centro das atenções: as rígidas regras de segurança adotadas nos EUA para eventos esportivos em condições climáticas severas. Pelas regras de segurança do país, qualquer evento em estádio é interrompido imediatamente caso seja detectada uma descarga elétrica em um raio de cerca de 13 quilômetros do local. A retomada só pode acontecer após 30 minutos sem registro de novos raios.
Na prática, isso significa que o cronômetro reinicia toda vez que uma nova descarga é identificada. Ou seja: um único raio pode atrasar uma partida por meia hora, mas sucessivos registros podem transformar a interrupção em horas de espera.
O protocolo já impactou jogos recentes ligados ao calendário internacional. No último fim de semana, o amistoso entre Arábia Saudita e Porto Rico ficou suspenso por cerca de duas horas devido ao mau tempo. Dias depois, Inglaterra e Porto Rico tiveram atraso de quase uma hora para iniciar a partida.
Para a professora Rachel Ifanger Albrecht, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), os jogos na região apresentam risco moderado de paralisação, considerando o padrão histórico de tempestades em Nova Jersey e na Filadélfia nesta época do ano.
Esse protocolo é realmente necessário?
O torcedor brasileiro teve contato mais direto com esse tipo de regra durante a Copa do Mundo de Clubes do ano passado. Na ocasião, seis das 56 partidas disputadas sofreram paralisações por risco de raios — entre elas Palmeiras x Al Ahly, justamente no MetLife Stadium, palco que também receberá partidas do Mundial.
As interrupções frequentemente geraram estranhamento entre quem acompanhava pela televisão. Em muitos casos, o céu sobre o estádio parecia limpo. Segundo Rachel, isso acontece porque o monitoramento não depende apenas da percepção visual.
— O protocolo é necessário porque a tempestade pode estar próxima e se deslocando em direção ao estádio. Existe inclusive a expressão em inglês out of the blue (“do nada”), que descreve justamente um raio que ocorre quando aparentemente não há perigo. Você pode olhar para o céu e enxergar azul, mas ainda existir risco real de uma descarga atingir a região.
Ela explica que uma tempestade localizada alguns quilômetros distante já é suficiente para representar ameaça. O professor Marcio reforça que a lógica da regra é preventiva.
— Quando há descarga atmosférica em um campo molhado, a condução elétrica pode atingir várias pessoas ao mesmo tempo. Não adianta interromper depois que o raio caiu, porque esse primeiro evento já pode provocar vítimas. O objetivo é agir antes.
O que acontece quando o protocolo é acionado?
Se um raio é detectado dentro da área de segurança, jogadores deixam imediatamente o gramado e retornam aos vestiários. Os torcedores também são orientados a abandonar áreas abertas e seguir para regiões protegidas dentro do estádio, evitando concentração nas saídas.
Para Rachel, retirar os atletas rapidamente é especialmente importante porque eles ocupam uma área extensa, aberta e com pouca proteção.
— Num campo de futebol, os jogadores acabam funcionando como pontos mais altos numa área descoberta. É uma medida pensada para evitar exposição desnecessária.
E no Brasil? Existe algo parecido?
Apesar das recomendações frequentes da Defesa Civil para que pessoas deixem áreas abertas durante tempestades, o Brasil não possui uma regra nacional padronizada para interrupção automática de eventos esportivos por risco de raios. Na prática, decisões costumam ficar sob responsabilidade da arbitragem, dos organizadores da competição e das autoridades locais.
O cenário também muda dentro da própria Copa. Como se trata de um protocolo específico dos Estados Unidos, ele não será aplicado automaticamente aos jogos realizados no México e no Canadá. Ainda assim, o tema segue no radar do torneio.
O México, que recebe parte dos jogos da competição, também monitora previsão de chuvas intensas para esta semana e emitiu alertas para a região da capital.
Dos 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, 78 serão disputados em solo americano. Três dos 11 estádios do país contam com teto retrátil — o que reduz o risco de paralisações climáticas: AT&T Stadium, no Texas, NRG Stadium, em Houston, e Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.



