O cheiro e a 'torcida' da morte: testemunhas de execuções revelam detalhes perturbadores de aplicações da pena capital nos EUA

O caso das duas tentativas falhas de execução de Christa Pike em penitencino Tennessee (EUA), um caso sem precedente, trouxe à tona relatos de pessoas que acompanharam por vários anos a aplicação da pena de morte no país.
Um grupo restrito de testemunhas tem permissão para observar execuções. Elas ficam a poucos metros dos condenados, separadas por uma divisória geralmente de vidro.
Foi o caso de Michelle Lyons, que testemunhou centenas de homens e mulheres darem seus últimos suspiros no sistema penal do Texas. Primeiro, como repórter; depois, como porta-voz do Departamento de Justiça Criminal do Texas.
“Há um cheiro estranho na câmara de execução, um odor químico peculiar que se deve ao tipo de filtro usado no sistema de ar condicionado. Passei a associar aquele cheiro à morte e o sentia em toda parte. De repente, em lugares inesperados e sem aviso. Era perturbador”, desabafou ela.
Michelle Lyons
Reprodução
Michelle também tinha acesso aos condenados nas horas anteriores à execução, pois era a responsável pela documentação do procedimento.
“Ver alguém nas horas que antecedem sua morte é uma experiência realmente bizarra, e as emoções deles variavam muito. Alguns ficavam nervosos e calados ou com medo, enquanto outros deixavam a raiva tomar conta de si uma última vez”, declarou a americana.
Durante décadas, Bill Breeden visitou detentos em penitenciárias em Indiana. Em janeiro de 2021, ele presenciou a execução (sua primeira e última) de Corey Johnson, condenado por sete homicídios. O detento levou longos 15 minutos para deixar de respirar após a injeção letal.
Corey Johnson foi executado por injeção letal nos EUA
Reprodução
As últimas palavras de Corey foram: “Não se preocupem comigo. Estou bem, mas lembrem-se destes nomes…” Em seguida, ele identificou as suas sete vítimas. “Quero pedir perdão às famílias delas. Sei que vocês estão sofrendo muito”, finalizou.
O sofrimento deu lugar a uma explosão, segundo Bill. Familiares das vítimas de Corey “comemoraram a morte como se fosse uma partida de futebol”.
“Essa é a pior coisa que já vivenciei na minha vida. Corey teve fortes ânsias de vômito algumas vezes e disse que as suas mãos e a sua boca estavam pegando fogo”, relatou Bill, que é pastor. Ele desenvolveu claustrofobia e outros problemas psicológicos depois do episódio.
Reverendo Bill Breeden com um detento no corredor da morte nos EUA
Reprodução
“Não está no nosso DNA ficar de braços cruzados vendo um assassinato sem tentar impedi-lo. Isso é algo totalmente antinatural, uma loucura”, finalizou ele. A experiência foi tão angustiante que Bill, que se tornou ativista contra a pena de morte, nunca mais entrou numa câmara de execuções.
Para Michelle, a emoção predominante após cada execução era a culpa:
“Eu me sentia culpada com frequência por sentir compaixão ou torcer por clemência, pois sempre pensava que era fácil adotar essa postura quando não era um ente querido meu que havia sido assassinado. Quando deixei de assistir, em 2012, as lembranças começaram a voltar com força. Acho que eu vinha guardando tudo aquilo, mas o afastamento me trouxe clareza, e comecei a ver todos aqueles rostos. Não apenas os dos detentos na maca, mas os das mães, os rostos contorcidos de dor nas salas de observação, e os dos pais tentando manter a compostura ao dar depoimentos após presenciarem a execução do assassino de seus filhos.”



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