O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) deferiu por 6 votos a 1, nesta terça-feira, o registro de candidatura do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), candidato a deputado estadual, e acolheu o recurso apresentado pela defesa contra o indeferimento. O julgamento ocorreu depois que a Procuradoria Regional Eleitoral mudou de posição no processo e passou a defender o indeferimento da candidatura por indícios de ligação de Canella com milícias na Baixada Fluminense. A estrutura cita envolvimento do candidato com Fábio Augusto de Oliveira Brasil, o Fabinho Varandão, e Luiz Eduardo Santos de Araújo, que já tiveram as candidaturas indeferidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em por envolvimento com milícias armadas.
“Há de fato um desconforto legítimo de deferir o registro de quem escolheu, de olhos abertos, essas cercas de aliados que a Justiça afastou das urnas. Este desconforto, no entanto, não é critério de julgamento. Ao meu sentir, os parâmetros fixados por essa Corte foram construídos precisamente para o momento em que a convicção moral pede mais que a prova pode oferecer”, disse o desembargador Fábio Porto, ao acompanhar o voto do relator, Paulo Cesar Salomão Filho, que votou a favor do deferimento.
Inicialmente, o Ministério Público Eleitoral havia se manifestado pelo deferimento, por entender que faltavam provas oficiais para barrar o registro. O TRE-RJ, no entanto, determinou novas diligências, com requisição de informações ao Supremo Tribunal Federal (STF), à Polícia Federal, às zonas eleitorais e a órgãos de inteligência.
Após as diligências, a Procuradoria apontou novos elementos que, segundo o órgão, indicariam uma ligação de Canella com milícias. Entre eles estavam as relações político-administrativas e eleitorais do candidato com Fábio Augusto de Oliveira Brasil, o Fabinho Varandão, e Luiz Eduardo Santos de Araújo. Os dois ocuparam secretarias de primeiro escalão na administração de Canella em Belford Roxo entre janeiro e setembro de 2025 e tiveram as candidaturas indeferidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2024 por envolvimento com milícias armadas. Segundo a PRE, mesmo após deixarem os cargos, ambos continuaram atuando na campanha de Canella em 2026.
A Procuradoria também considerou informações do inquérito 5.020/DF, que tramita no STF, e a apreensão, em julho, de um fuzil Colt calibre 5,56, de uso restrito e pertencente ao acervo da Polícia Militar, encontrado em um veículo blindado de Canella. O episódio resultou na prisão em flagrante do ex-prefeito por posse ilegal de arma de uso restrito.
Os ex-vereadores Eduardo Araújo e Fabinho Varandão, de Belford Roxo, ao lado do prefeito Márcio Canella
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Porto também afirmou que a Corte exige prova robusta para indeferir uma candidatura e que ainda que faltam provas para sustentar o indeferimento. Ressaltou, porém, que a ausência de provas não se resume a uma prova negativa e que isso não impede que novos elementos possam chegar.
Durante a sustentação oral, o advogado de Canella afirmou que o ex-prefeito já havia dito que sua principal meta à frente da prefeitura era o “combate intransigente” às milícias, às narcomilícias e aos “terroristas”. Para sustentar o argumento, citou ações de Canella em Belford Roxo contra facções criminosas, entre elas uma ocasião em que o então prefeito subiu em uma retroescavadeira durante a derrubada de barricadas. O advogado classificou como uma “narrativa estapafúrdia” a afirmação de que Canella teria envolvimento com milícia.
Voto contra cita Jorge Canella
O único voto contra o deferimento foi do desembargador Guilherme Calmon. Segundo Calmon, a defesa sustenta que cada fato, isoladamente, não seria suficiente para justificar a inelegibilidade. Para o desembargador, porém, a força das provas está na “convergência do mosaico probatório”, formado por quatro elementos: a nomeação e manutenção de chefes e milicianos com candidaturas indeferidas pelo TSE em secretarias municipais; a atuação eleitoral ostensiva dessas pessoas na campanha de Canella em 2026; a apreensão de um fuzil no veículo do candidato; e a apreensão de fuzis e outras armas na casa de Jorge Canella, apontado como seu principal aliado em uma dobradinha política.
Jorge Eduardo Barreto de Andrade Filho, o Jorge Canella, foi preso em flagrante após agentes encontrarem dois fuzis e uma submetralhadora em sua casa, na Zona Sudoeste do Rio. A ação faz parte da sétima fase da Operação Unha e Carne, que apura suspeitas de posse irregular de armas de fogo de uso restrito. Foram cumpridos três mandados de busca e apreensão na Barra da Tijuca, no Recreio dos Bandeirantes e na Câmara Municipal do Rio, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
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TRE-RJ mantém por maioria candidatura de Márcio Canella após suspeita de ligação com milícias de Belford Roxo



