As festas juninas estão entre as principais forças sazonais da economia brasileira. Segundo o Ministério do Turismo, em 2025, eventos de São João movimentaram cerca de R$ 7,4 bilhões — atrás apenas do Natal e do carnaval. Mas a manifestação cultural liderou na geração de empregos diretos e indiretos em turismo, alimentação e montagem de estruturas.
Tradicionais do Nordeste do país, essas festividades também vingaram por aqui, no Rio de Janeiro. (Veja agenda ao fim da reportagem.)
— Quando me casei, meu marido tinha um quiosque na Praia da Barra da Tijuca. Sou baiana e comecei a fazer comida nordestina lá. Mas o verão acabava, e a gente tinha que procurar sustento fora da orla. Um certo dia, há mais de 30 anos, chegou um convite para fazer uma festa junina no bairro, com carne de sol e aipim, e eu aceitei. Tudo o que tinha preparado para vender em um fim de semana, nós vendemos no sábado. Foi uma maravilha — conta Maria José de Souza, a Tia Mara, de 58 anos.
As finanças foram equilibradas assim por anos: verão na praia, inverno nos arraiás. Mas, há cerca de duas décadas, a divisão deixou de existir. O quiosque foi vendido, e a comida nordestina virou o negócio principal, no Coisas do Nordeste, que nos meses de junho e julho fatura mais alto.
— A empresa tem oito funcionários fixos atualmente, mas na época dos arraiás movimenta cerca de 60 pessoas de sexta-feira a domingo. Minhas irmãs vêm de Salvador para me ajudar e ganhar dinheiro. No ano passado, eu fiz 16 eventos em apenas três dias — lembra Tia Mara.
Maria José de Souza, a Tia Mara, de 58 anos
Arquivo pessoal
As receitas dela estão em eventos fechados de condomínios e empresas; agendas de shoppings centers, a exemplo do Arraiá do Shopping Boulevard; e festas de rua, como o circuito Juninas do Rio.
O projeto itinerante é tocado pelo produtor Arísio Nogueira dos Santos, CEO da empresa Carioca Circuito. Ele começou a organizar arraiás em bairros cariocas em 2017. Na ocasião, foram três festas. Para 2026, já estão previstas dez, que devem representar até 80% do faturamento anual do negócio.
Apesar das atenções dos cariocas estarem divididas neste ano, com a Copa do Mundo, e freando o consumo típico, ele acredita na retomada do público às Juninas do Rio quando o apito final soar no futebol. E muitos empreendedores devem se beneficiar do desejo reprimido.
— Cada evento tem cerca de 35 a 40 expositores de gastronomia, além de negócios de artesanato, decoração, bebidas e brincadeiras — aponta.
Ainda há tempo, portanto, para se inspirar na sazonalidade. Isto é, ocupando novos pontos de venda, criando produtos e kits juninos ou com promoções relacionadas ao tema — sugere Raquel Abrantes, gerente de Mercado do Sebrae Rio.
— Até pessoas que não empreendem ao longo do ano podem fazer renda extra nessa época com um bom bolo de aipim ou um cural diferenciado. Mesmo que comece agora, o importante é anotar num bloquinho de notas o que foi vendido e o que é possível melhorar, para no ano que vem se programar com mais antecedência — diz a especialista.
‘É um extra bom’
Leia depoimento de Vânia Oliveira, dona do Delícias da Vânia, de 53 anos:
Vânia Oliveira, dona do Delícias da Vânia, de 53 anos
Ana Clara Veloso
Eu trabalhei em cozinhas a vida toda e atualmente, empreendo assim. Levo estação para fazer tapioca, pastel e crepe em festas e às quintas-feiras estou no samba da Fundição Progresso. Nessa época de meio de ano, o negócio melhora bastante, e eu incremento ainda o cardápio com milho e baião de dois, por exemplo. As pessoas vão a arraiás já determinadas a comer. É diferente de um dia de show comum. Se num dia normal na Fundição Progresso eu vendo R$ 1 mil, no arraiá chega a R$ 5 mil. Além disso, se eu faço quatro eventos fixos em outros meses, em junho, julho e agosto chega a dez por mês. É um extra bom e importante para pagar as contas apertadas.
‘Poderia sustentar o ano’
Leia o depoimento de Franciane Vieira, dona da Ação & Diversão, de 46 anos:
Franciane Vieira, dona da Ação & Diversão
Arquivo pessoal
Minha empresa monta espaços kids e oferece animação para eventos abertos e fechados durante o ano inteiro, desde 2012. A festa junina agrega valor a esse negócio. Os brasileiros gostam muita da época, e a demanda é grande. Quase todos os produtores fazem eventos todas as semanas, além de as empresas chamarem. Para atendê-los, já cheguei a contratar 80 funcionários nesse período. O faturamento é hors concours. Consigo em dois meses o que poderia me sustentar o ano todo. Eu levo brincadeiras típicas, touro mecânico e brinquedos infláveis para o circuito Juninas do Rio, por exemplo, e já vendi 1.500 tíquetes para brincadeiras por dia.
‘É o menu mais marcante’
Leia o depoimento de Flávia Olmo, dona da Que Doce!, de 35 anos:
Flávia Olmo, dona da Que Doce!
Arquivo pessoal
A gente trabalha sazonalidade na doceria. No verão, tem doces mais refrescantes. No inverno, fondue. Mas o mais marcante é o menu junino. São oito produtos, como quindim, canjica de leite e bolo de milho. Essas comidas parecem que abraçam a gente e caem muito bem nesse clima. Tem gente que vem à casa somente por causa delas, pois não têm a disposição ou possibilidade de ir a uma festa. E tem clientes que vêm à casa todos os dias, mas nesta época encontram novidades no cardápio. Então é positivo para todos. Além disso, por ser uma região turística, os gringos veem doces completamente diferentes do que conhecem. E fazem muito sucesso.
‘Vende mais do que Natal’
Fabrine Pacheco, dona da Garb, de 45 anos
Arquivo pessoal
Vendemos roupas desde 1998, e a fabricação própria é desde 2005. Há três anos, eu quis fazer modelos juninos para meus filhos, que fossem além da blusa xadrez. Vesti a minha família com a mesma estampa, e isso gerou muita repercussão no evento. Todo mundo pedia para tirar fotos. Então, vi que esse era um caminho para a marca. Iniciamos uma coleção especial de roupas juninas e vendemos somente ela em junho e julho. Eram só camisa e saia, mas atualmente temos também calça e vestido. São 18 estampas. Esse período potencializa muito o negócio. Vendemos 50% mais do que em outros meses do ano. Mais do que no Natal.
Casas de show colocam arraiás na agenda
A trilha sonora é um dos componentes mais importantes de um arraiá. Por isso, quem oferece shows o ano inteiro também procura tirar uma casquinha da temporada. Casas como a Fundição Progresso e o Circo Voador, na Lapa, convidam grandes nomes da música brasileira para comandarem seus eventos e se esmeram em oferecer a experiência completa.
— A Fundição Progresso vira uma cidade pequena. É uma festa de quermesse, com mais de 20 barracas de comida. Essas barracas às vezes têm cinco pessoas trabalhando. E ainda alugamos touro mecânico, fazemos decoração, então são muitos negócios favorecidos a cada edição — conta o diretor da casa Uirá Fortuna.
No Circo Voador, as bandeirinhas no alto também não faltam, tampouco a quadrilha. As delícias são produção própria. E o caixa, no fim da noite, confirma como os arraiás são diferentes de tudo a que a casa se propõe a fazer no restante do ano.
— Talvez seja nossa única festa do ano em que a receita com comida seja realmente relevante. O show e a quadrilha, o friozinho: tudo isso dá fome — avalia a produtora Gaby Morenah.
Próximos eventos no Rio
27 e 28 de junho: Juninas do Rio na Quinta da Boa Vista. Entrada franca
4 de julho: Arraiá do Circo Voador com Geraldo Azevedo. Ingressos a partir de R$ 90
17 de julho: Arraiá da Fundição Progresso com Mariana Aydar e Forróçacana. Ingressos a partir de R$ 60
Source link



