Nanda Marques tem conseguido despertar no público um sentimento de revolta com a patricinha Bruna de “Quem ama cuida”. A personagem começa a trama fingindo estar grávida do herói, Pedro (Chay Suede), e depois decide afastá-lo da protagonista, Adriana (Leticia Colin). Num papo com a Canal, a artista, de 31 anos, comemora ter ouvido na academia que Bruninha é “safada, mentirosa e manipulada pela mãe narcisista (Carmita, interpretada por Deborah Evelyn)”.
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— Não posso dizer que estou recebendo amor, porque a personagem não está mandando amor — diz ela, adiantando o que o público poderá acompanhar na nova fase da novela: — Vão poder vê-la em outro ambiente e em outras relações. Podem esperar uma mulher mais intensa, para o bem e para o mal. Ela vai estar menos à mercê da mãe.
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A paulistana, que trabalha no meio artístico desde a infância, faz agora sua primeira novela das nove podendo se ver no ar e recebendo respostas do público ainda enquanto grava. O outro folhetim no horário nobre do qual ela participou, “Um lugar ao sol” (2021), foi feito todo de uma vez, para só então estrear, por conta dos protocolos da pandemia do coronavírus. A história de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, portanto, chega para Nanda como uma experiência inédita de obra aberta.
— Agora, tem a possibilidade de mudança, de receber opiniões de fora… Está sendo gostoso, um sonho realizado. Sou bem crítica comigo. Quando assisto a uma cena, sou boa em avaliar onde preciso melhorar, quais são minhas manias — garante.
Na entrevista, a atriz mostra que é bem diferente de sua personagem. Ela fala sobre sua origem humilde, maternidade, o namoro de cinco meses com o ator José Loreto (que ela conheceu nos bastidores do filme “Chorão: só os loucos sabem”) e mais. Confira a seguir!
Nanda Marques
Cassia Tabatini | assistência de fotografia: Marcelo Andrade e Renato Machado
Você vem da periferia de São Paulo. Que memórias tem da infância?
Nasci em Itaquera, fomos para São Mateus, onde crescemos ao lado de uma favela, e depois fomos para Guaianases, outra parte periférica de São Paulo. Meus pais vieram do sertão do Ceará com 18 anos e foram morar nas extremidades, onde o aluguel é mais barato. A maioria dos pais dos meus amigos da escola era nordestina. Tive uma infância muito gostosa, com acolhimento. Todo mundo se ajudava, se indicava em trabalhos… Eu sinto que famílias nordestinas são mais amorosas, empáticas. Mas posso estar puxando sardinha para o lado da minha. São pessoas de coração quente.
Seus pais trabalhavam com o quê?
Minha mãe trabalhava com tecelagem. Meu pai era garçom de um boteco e também trabalhava de noite num clube de forró. Foi lá que eles se conheceram. Quando eu era pequena, tínhamos uma realidade mais complicada. Mas nos meus 8 anos, mais ou menos, eles começaram a ser microempresários, abriram uma primeira pizzaria na periferia. Depois de uns anos, conforme o negócio foi dando certo, proporcionaram para mim e meus irmãos (são dois) a realização do sonho da casa própria e tiveram um carrinho.
Nanda Marques
Cassia Tabatini | assistência de fotografia: Marcelo Andrade e Renato Machado
Você sempre sonhou ser atriz?
Eu fui uma criança muito lúdica. Minha mãe se preocupava um pouco comigo porque eu era tímida, brincava e falava sozinha, encenava na frente do espelho. Ela via que tinha algo diferente em mim e não sabia o que era. Uma prima fazia teatro e precisava fazer um book. Achava eu e minha irmã bonitas e pediu para que fizéssemos com ela, porque teria desconto se fôssemos nós três. Deixamos meu book na agência e passei logo a fazer testes para comerciais de TV. Comecei a trabalhar cedo com isso. Até que um dia me sugeriram fazer teatro, mas eu não tinha acesso lá onde eu cresci, não havia um incentivo à cultura na época. Era uma realidade distante. Me indicaram um curso, minha mãe ficou me esperando… Quando saí, falei com os olhos brilhando: “Quero vir aqui todos os dias”. Com 11, 12 anos, iniciei no teatro e não parei mais.
Na novela, Bruna quer trabalhar pela primeira vez na joalheria Arthur Brandão. Você chegou a trabalhar com outras coisas além da atuação?
A internet diz que eu fui modelo, mas é mentira. Trabalhei com algumas coisas diferentes. Eu me vestia de princesa em festas infantis, por exemplo. Eu era a Bela (de “A Bela e a Fera”) e a Ana (de “Frozen”). Também trabalhei em stands de eventos de beleza e de calçados.
Nanda Marques
Cassia Tabatini | assistência de fotografia: Marcelo Andrade e Renato Machado
Como é sua relação com o dinheiro?
Meus pais sempre juntaram dinheiro para conquistar os planos deles. Cresci vendo isso. Então, como eu fazia comercial desde criança, minha mãe abriu uma poupança para mim. Quando eu e meus irmãos ganhamos cartões de crédito, eu fazia questão de debitar da minha conta o valor que eu gastava. Queria pagar, mostrar que era igual a eles. Minha mãe até brinca dizendo: “Fernanda teve carro, viagem, e a gente nunca deu nada”. Eu não queria dar trabalho, queria me bastar.
A relação que você tem com a sua mãe se parece com a de Bruna e Carmita?
Não, é bem diferente! Eu e minha mãe vivemos uma relação muito mais saudável. Na adolescência, foi complicado. Eu tentava me desvincular, me individualizar. Com o tempo, virei adulta e a distância acabou. Minha mãe não invade meu espaço, me respeita. Temos muito afeto! Ela é do carinho, do abraço, do beijo. Nos falamos quase todos os dias, ela acende vela para o meu anjo da guarda…
Carmita (Deborah Evelyn) e Bruna (Nanda Marques) em ‘Quem ama cuida’
Manoella Mello/ Rede Globo/ Divulgação
A trama de Bruna começa com uma gravidez falsa. Viver isso na novela despertou reflexões na sua vida? Você tem vontade de ser mãe?
Sempre foi um assunto na minha vida, acho que na de todas as mulheres. A gente cresceu vendo os contos de fada, a reprodução do patriarcado, em que a mulher tem esse “roteiro” para a vida: casar e ter filhos. Quando eu conheci o feminismo, com meus 18, 20 anos, questionei isso pela primeira vez. Na época, cheguei a rejeitar completamente a ideia de maternidade. Com o tempo, essas ideias tão cheias de certeza se dissolveram. Agora, tenho um olhar mais carinhoso para isso, leve e ponderado. Para mim, continua sendo uma dúvida. Tem dias em que eu quero, em outros, não. Estou aberta… Se eu encontrar uma pessoa, se eu quiser maternar sozinha, adotar uma criança já mais velha… Não descarto possibilidade alguma.
Em entrevista recente, você elogia a relação do Loreto com a filha (Bella, de 8 anos, fruto do casamento do ator com a atriz Débora Nascimento). Presenciar isso mudou sua visão sobre construir uma família? Como é ser madrasta?
Mudou minha visão sobre a figura masculina. Eu estava contaminada com tudo que vemos acontecendo sobre pais ausentes, mulheres que precisam pedir o mínimo… Hoje eu vejo que é possível, que existem homens legais. São raros, infelizmente. É o caso do José. Ele é um pai muito presente, carinhoso, atencioso. Me deu esperança. Eu me divido entre a minha casa e a dele, então convivo com a Bella. Temos uma ótima relação, somos boas amigas.
José Loreto com a namorada, a atriz Nanda Marques
Cristina Granato/ divulgação
O que mais a surpreendeu na convivência com o Loreto longe dos holofotes?
Eu não sabia quase nada sobre ele, a não ser o que eu via em jornais de fofoca ou as pessoas comentando. Me surpreendeu ver o quão ele é amado. Quando eu o vi em contato com a filha, entendi que ele tem um coração gigante. Depois quando o vi com os amigos, o amor que todos têm por ele e o que ele faz por todos, sempre com a casa cheia, ajudando… Quando eu tive contato com isso, eu falei: “Esse cara é legal mesmo. Tá, vamos jantar, vai”.
Como mantém a rotina do casal com as gravações intensas?
Flui naturalmente, porque o José tem uma rotina muito saudável. Até por ser diabético, está sempre se cuidando com alimentação, esporte… Ele me incentiva a ter uma vida leve, equilibrada. Tenho ido mais à academia, prestado mais atenção ao que eu como. A gente treina, cozinha junto. Aos domingos, temos um momento de organizar a semana, estudar texto. Eu gosto de escrever, ele também, e agora está se inspirando nisso. Batemos texto também (Loreto logo entrará em “Quem ama cuida”), vamos ao teatro… A gente se dá bons exemplos.
Nanda Marques
Cassia Tabatini | assistência de fotografia: Marcelo Andrade e Renato Machado
Como você desacelera em meio à rotina corrida?
O exercício físico é o ponto chave da minha saúde mental. Quando não vou à academia, faço ioga em casa. Faço terapia uma vez por semana. E tenho minha rotina de escrever pela manhã um fluxo de pensamentos para fazer um detox mental.
Quais sonhos ainda quer realizar?
Tenho o sonho da casa própria e de viajar muito. Profissionalmente, espero chegar num lugar onde eu possa escolher meus trabalhos, ser produtora executiva de projetos no teatro e no cinema… Quero ter autonomia na arte!
Nanda Marques
Cassia Tabatini | assistência de fotografia: Marcelo Andrade e Renato Machado
Créditos
Fotos: Cassia Tabatini @cassiatabatini
Assistência de fotografia: Marcelo Andrade e Renato Machado @machador_
Direção e styling: Luis Fiod @luisfiod
Beleza: Helder Rodrigues @herodrigues
Produção de moda: Zeca Ziembik @zecaziembik
Produção executiva: André Bona @andregbona
Produção: Jean Sayeg @j.gervas e Zene Sachs @zenesachs
Agradecimentos: QHL Soluções Cinematográficas @qhl____ e Estúdio ACASO @aaacaso.ooo
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Bruna em ‘Quem ama cuida’, Nanda Marques lembra origem na periferia e reflete sobre maternidade: ‘É uma dúvida’



