Por que resguardo e interdições ao se fazer um ẹbọ?

A palavra ẹbọ (ebó) em yorùbá significa oferenda, que, na linguagem popular aqui no Brasil, passou a denominar também as magias, descarregos e limpezas espirituais.
O ẹbọ é uma orientação tirada no jogo de búzios, elo de comunicação dos sacerdotes com o sagrado.
Por ser uma orientação sagrada, além do que deve ser feito, ela vem também com recomendações que podem estar ligadas ao Odù e ao Orixá da pessoa que está passando pelo ẹbọ. Seja uma oferenda ou outro recurso de ajuda, como magia e outros procedimentos.
Essas recomendações podem incluir interdições, como determinados objetos, cores, alimentos ou comportamentos ligados ao Odù ou ao Orixá da pessoa. Elas devem ser respeitadas durante o período determinado, pois sua quebra pode comprometer o propósito do ẹbọ e trazer desequilíbrios e dificuldades para a pessoa.
Por exemplo, se for realizado um ẹbọ relacionado ao Odù Òsá para uma pessoa de Yánsàn e o jogo determinar que, durante determinado período, ela não use roupas vermelhas e não coma abóbora, essas recomendações precisam ser seguidas. O pano vermelho é um dos interditos relacionados ao Odù Òsá, enquanto a abóbora faz parte das kizilas, ou èèwọ̀, de Yánsàn.
Mas é importante entender que o resguardo não é um castigo e muito menos uma forma de privação sem sentido. Ele faz parte do próprio processo espiritual. Se o ẹbọ foi determinado para provocar uma mudança, abrir caminhos, afastar determinados obstáculos ou restabelecer um equilíbrio, é necessário que a pessoa também faça a sua parte.
O ẹbọ não deve ser visto como algo que o sacerdote faz e que termina no momento em que a oferenda é realizada. Existe uma continuidade. O que foi orientado no jogo precisa ser acompanhado por uma mudança de comportamento, pelo respeito aos resguardos e pela responsabilidade de quem recebeu aquela orientação.
É justamente aí que entram as interdições. Elas estabelecem limites temporários ou permanentes que fazem parte da relação da pessoa com o sagrado. O interdito não é simplesmente “não pode”. Ele representa uma conduta que precisa ser observada porque existe uma razão espiritual para aquela restrição.
No culto aos Orixás, cada pessoa possui uma relação particular com seu Odù, com seu Orixá e também com seus ancestrais, que são forças que sustentam sua existência. Por isso, aquilo que é recomendado para uma pessoa não necessariamente será recomendado para outra. Não existe uma receita única. A orientação deve vir do jogo e do conhecimento sacerdotal.
Por isso, é tão perigoso transformar os interditos em listas genéricas encontradas na internet. Uma pessoa pode ouvir que determinado alimento é uma kizila de determinado Orixá, enquanto, para outra, o jogo pode apresentar uma orientação diferente. Isso não contradiz os princípios litúrgicos do culto. Pelo contrário, demonstra que a orientação do sagrado considera a relação particular de cada pessoa com seu Odù, seu Orixá e aquilo que foi revelado pelo jogo de búzios.
O resguardo, portanto, é também um exercício de disciplina. É o momento em que a pessoa demonstra que compreendeu a orientação recebida e está disposta a participar do próprio processo de transformação.
Quando alguém recebe um ẹbọ e, ao mesmo tempo, recebe determinadas interdições, não está apenas cumprindo regras. Está estabelecendo um compromisso com o sagrado.
O respeito aos interditos mantém o equilíbrio entre o mundo material e o espiritual, por meio dessa conduta, desse acordo de não quebrar uma determinação sagrada.
O resguardo é uma das maiores lições do ẹbọ, pois nem tudo aquilo que precisamos para mudar está nas mãos do sacerdote. Há uma parte que cabe a cada um de nós. O sagrado orienta, o sacerdote conduz, mas a pessoa também precisa fazer a sua parte.
No fim, o resguardo ainda nos ensina que transformação exige compromisso. Não basta pedir caminhos abertos se continuamos insistindo nos mesmos comportamentos que nos colocaram diante dos obstáculos. O ẹbọ pode apontar uma direção, mas é preciso ter disciplina para caminhar por ela.
Porque, diante do sagrado, não é apenas aquilo que oferecemos que importa. Também importa aquilo que somos capazes de mudar, respeitar e preservar depois que o ẹbọ foi realizado.
Bíbọ̀wọ̀ fún ohun mímọ́ ni bíbọ̀wọ̀ fún ìgbàgbọ́. (Respeitar o sagrado é respeitar a fé.)
Axé para todos!



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

Semana Legislativa debate participação e cultura democrática desde a primeira infância

Semana Legislativa debate participação e cultura democrática...
- Advertisement -spot_img