1,59 m de altura, venezuelano e atacante… as credenciais de Yeferson Soteldo, de 29 anos, não davam sinais de um jogador que chegaria à elite do futebol brasileiro. Mas ele sonhou alto e, depois de sentir a pressão de vestir a camisa 10 de Pelé no Santos, chegou ao Fluminense a preço de ouro (cerca de R$ 30 milhões). Ao mesmo tempo, as críticas e lesões vieram na mesma proporção do investimento feito.
Em entrevista ao EXTRA, Soteldo revela seu porto seguro nos momentos difíceis: a esposa colombiana Isabel García, com quem está junto desde 2022 e tem a filha Isabela, de 2 anos. Ela cuida de praticamente toda a vida extracampo do atleta e organiza a rotina, desde as botas de compressão e o banho de gelo com sauna até a seleção de alimentos orgânicos e peixes frescos, preparados por um chefe da família de segunda a sábado.
Você fez uma tatuagem do CR7 em 2024. O quanto ele te inspira dentro e fora do campo?
Começou na época do Manchester United, em 2008 ou 2009. Desde então, eu acompanhava os jogos dele e comecei a admirar cada vez mais. Quando foi para o Real Madrid, fiquei ainda mais fã. No começo, eu não me cuidava da forma que ele faz, porque era jovem e achava que não precisava. Agora, cuido mais da alimentação e, depois do treino, sei que o trabalho não acaba ali. Em casa, faço recuperação, uso botas, luz vermelha, gelo, calor…
Você vive uma fase boa… qual é a importância da sequência como titular para recuperar a confiança?
De verdade, eu não falaria que estou vivendo uma fase boa. Acho que estou jogando mais. Eu sei das minhas características, do que eu sou e do que já demonstrei aqui no Brasil. Eu precisava de mais oportunidades. É muito difícil mostrar em cinco ou dez minutos o que realmente vim fazer aqui no Fluminense, que é jogar, né? E eu não tive todas as chances que achei que teria quando cheguei.
Por que você teve poucas oportunidades com o Zubeldía? Como era sua relação com ele?
Não tinha uma relação ruim com ele. Ele é uma pessoa boa e um bom treinador. Tinha a forma de pensar dele, e eu respeitava. Trabalhei até demais para poder jogar, mas a decisão era dele. Lógico que eu queria jogar mais, afinal, todo jogador quer, mas não tenho problema com isso.
O que já nota de diferente no trabalho do Marcão em relação ao do Zubeldía?
São dois trabalhos um pouco diferentes. O Marcão também tem coisas muito boas. Agora, nessa semana mais longa, ele vai conseguir trabalhar melhor, porque pegou três jogos seguidos e não teve tempo para treinar bem o time. Ele passou muita confiança para os jogadores e sempre conversou com quem estava fora (do time titular). É uma pessoa incrível, e agora vamos conseguir ver mais o trabalho dele nesse período maior de preparação.
Por que o desempenho melhorou logo após a troca no comando técnico?
A gente estava precisando disso. O ambiente não estava bom e precisava mudar, principalmente pelas derrotas. É um bom time e não precisava passar por isso. Com mais confiança no elenco, a gente respondeu bem e, agora, todo mundo está feliz. O Marcão merecia essa chance de ficar até o final do ano e foi especial classificar com ele na Libertadores.
Procede que os jogadores pediram a efetivação do Marcão?
Eu não sei, na verdade. Não gosto de mexer nessas coisas, não olho para isso.
O vice com o Santos aumenta sua vontade de conquistar a Libertadores pelo Fluminense?
Eu tenho essa lembrança… fiquei muito triste daquela vez e vim para cá pensando nisso. Quero ganhar, porque tive essa oportunidade muito perto. Acho que esse é o time ideal para ganhar, e o grupo que temos aqui é maravilhoso.
Gostaria de enfrentar o Flamengo na final?
Seria especial, lindo também, mas primeiro a gente tem que pensar no Platense-ARG, que é o mais importante. Depois, vamos passo a passo até chegar à final.
Você teve um gol anulado contra o Remo e segue sem marcar no ano. Como lida com esse jejum?
É difícil não viver de gol, mas agora estou jogando e tenho que aproveitar para acabar com esse jejum. O mais importante para mim é que o time está bem, melhorou e deu a volta por cima. Também está faltando sorte, mas isso faz parte. Não me incomoda, agora estou pensando no próximo jogo e em ajudar o time a ganhar.
Você já passou por muitas críticas e lesões. Como encarou toda a pressão?
Foi difícil no começo. Eu não pedi para chegar aqui machucado, foi no último jogo com a seleção (venezuelana) que me machuquei. Voltei, passei por outras lesões e comecei a pensar que algo estava acontecendo de errado. Foi quando mudei minha alimentação e muitas coisas na minha rotina. Comecei a me cuidar muito mais fora (do campo), porque, às vezes, a gente pensa que o treino acaba no CT, mas não. Em casa, tem que seguir para melhorar.
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Como proteger sua família das críticas e da exposição nas redes sociais?
Às vezes, fica difícil blindá-los. Eu sempre tento resolver meus problemas, mas, quando eles vão aumentando, chega um momento em que penso: “Nossa, será que estou tão mal assim?” Nessa hora, a família é importante para ajudar a passar por isso e acalmar um pouco, porque saio do treino, chego em casa e eles não sabem o que está acontecendo.
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O quanto a sua esposa te ajudou a superar esse momento?
Eu e minha esposa conversamos sobre tentar um novo caminho. Todas as ideias vêm dela, que é bem cuidadosa com isso. Tenho uma pessoa muito importante ao meu lado, que está sempre pensando em cada detalhe, da minha alimentação, da recuperação e de tudo que falta. Ela também viu psicólogos para mim, mas achei que não funcionou tanto. Preferi olhar mais para dentro. A mentoria da igreja (evangélica) também me ajudou bastante. Foi importante entender que tudo passa e, agora, posso desfrutar dessa nova fase.
Como a sua história de superação no Flu pode servir de exemplo para os seus companheiros?
Sempre buscamos nos apoiar. O Hulk chegou, começou a ser vaiado, e a gente conversava e falava que era tranquilo, que passa, que é normal. Você vem com o patamar alto, todo mundo espera muito. O jogador precisa se adaptar quando está chegando a um lugar novo. Mas o futebol brasileiro nunca vai entender ou esperar por isso. Os torcedores vão sempre querer resultados, e a gente tem que trabalhar para dar isso o mais rápido possível.
Como é ser parceiro e, ao mesmo tempo, concorrente do compatriota Savarino?
É uma disputa bem sadia. O Mário (Bittencourt, diretor-geral do clube) me falou para convencer o Savarino. Eu disse: “Vem para cá, você vai ser feliz, todo mundo vai te abraçar”. Quase caiu a negociação, mas deu certo, graças a Deus. A gente fala muito dessa competitividade, porque têm muitos jogadores bons na posição. Conheço o Savarino desde o sub-20 e, depois, pela seleção venezuelana. É uma relação de muitos anos. Minha esposa é amiga da esposa dele, e a gente sai para comer juntos.
Inclusive, gosta de sair para desestressar e conhecer novos lugares?
Eu sou pouco de sair. Gosto de ficar em casa porque também tenho um chef e não preciso sair para comer. Jogo meu videogame e fico tranquilo com minha esposa e minha filha. E isso não tem nada a ver com as críticas.
Como foi acompanhar de longe o sofrimento da Venezuela com os terremotos?
Foi muito difícil para mim e para minha esposa. São coisas que fogem do controle de qualquer pessoa, principalmente estando longe. Pedi ajuda ao elenco do Fluminense, e o (Jhon) Arias também reuniu um dinheiro para mandarmos para lá e comprar as coisas que faltavam. Me enviaram os vídeos, fiquei muito sentido, mas, como sou reservado, tentei não postar as doações. Foi um momento muito delicado e triste, mas a Venezuela, como sempre, vai se levantar dessa também.
O futebol não é o principal esporte da Venezuela. Valoriza a chegada ao futebol brasileiro?
Eu estou muito orgulhoso da minha carreira. Já fiz uma trajetória muito bonita no Brasil, em um futebol muito difícil e competitivo, onde é preciso estar sempre em alto nível. Quando cheguei ao Santos, com 19, 20 anos, peguei a camisa 10 do Pelé e fui muito criticado por isso. Eu era jovem e senti o peso dessa responsabilidade, mas, graças a Deus, deu tudo certo e consegui construir meu nome aqui.
Há muita zoação com você e Lucho Acosta por conta da baixa estatura. Afinal, qual é a sua altura?
Eu tenho 1,59 m, ele (Lucho) tem 1,60 m, um centímetro a mais, mas nem parece (risos). Eu sou tranquilo, não me incomodo com essas coisas. Acho que é parte da vida, você dá risada com essas coisas. No elenco, rola muita brincadeira. Sou o que mais brinca, então vou ficar bravo com os meus companheiros?
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Apesar de não te incomodar, a sua altura já chegou a ser um problema na sua carreira?
Eu sabia que tinha talento, mas o time da minha cidade tinha pouco dinheiro e dizia que eu era pequeno demais. Fiquei decepcionado e cheguei a dizer para minha mãe que não iria mais jogar, que ia estudar, trabalhar. Depois, aos 14, 15 anos, fiz um tratamento para crescer e ganhei três centímetros. Não foi tão forte quanto o do Messi, mas foi pesado. Mesmo assim, continuei ouvindo que era baixinho, no Chile e no Brasil. Hoje, ninguém pode mais falar isso como algo ruim.



