Caminhões são parados sobre o canteiro das praias de Botafogo e do Flamengo para os motoristas almoçarem e descansarem após as refeições. Perto dali, o tráfego chega a ser interrompido por veículos que estão na Praia de Botafogo e vão dobrar na Rua Farani. Ainda na Zona Sul, carros estacionam na faixa da esquerda da Rua Barata Ribeiro e da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Na Rua do Riachuelo, no Centro, várias irregularidades tornam a circulação caótica. Na Zona Norte, na Avenida Ubirajara, em Irajá, trailers ocupam uma faixa de rolamento. E, não importa a região, motos, autopropelidos e bicicletas elétricas trafegam na contramão e nas calçadas e avançam sinais.
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Esses são exemplos de um trânsito sem freio, que tem feito os engarrafamentos se agravarem e os acidentes crescerem na cidade — passaram de 12.342 de janeiro a maio de 2025 para 13.383 no mesmo período de 2026, segundo o Corpo de Bombeiros. O que não faltam são desafios para a futura Força Municipal de Trânsito, formada por guardas municipais, que a prefeitura promete criar. A implantação do grupamento até o fim deste ano consta do “Acordo de Resultados”, publicado em 29 de maio pelo Executivo.
Comandante da Guarda Municipal do Rio, inspetor geral Itaharassi Bomfim Junior, diz que estão sendo definidos o efetivo e se o grupamento usará armas como a Força Municipal — Divisão de Elite da GM que atua no patrulhamento ostensivo e comunitário.
— Ainda estamos na fase de planejamento e todas as informações serão divulgadas no edital que estamos preparando. Só posso adiantar que a Força Municipal de Trânsito será 100% composta por guardas municipais — afirma.
Trânsito ao deus-dará nas ruas do Rio
As funções que o novo grupamento assumirá já geram debates. Presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara do Rio, o vereador Pedro Duarte (PSD) considera importante a implantação de uma força voltada para o trânsito neste momento, em função especialmente da explosão do número de motos de entregas:
— Sei que a nova força ainda está sendo formatada, mas entendo que o seu foco principal deveria ser as motos, os autopropelidos e as bicicletas elétricas. Temos, hoje, uma quantidade absurda de motos de aplicativos. É uma nova dinâmica, e precisamos ter guardas que passem por um processo de seleção e sejam treinados para lidar com o aumento desses novos modelos, que têm impacto nos acidentes e no atendimento nas unidades de saúde.
Embora considere importante fiscalizar motos, o engenheiro de transportes Leandro da Rocha Vaz, professor da UERJ, defende que as atribuições do novo grupamento incluam controlar estacionamentos, ônibus que não param em pontos, veículos em geral que desrespeitam sinais e outras regras de trânsito e até pedestres que teimam em atravessar fora da faixa:
— É preciso fiscalização para que a situação melhore.
Já o engenheiro José Eugenio Leal, professor da PUC, não vê necessidade de criar uma força para o trânsito:
— O que precisa é botar os guardas para trabalhar no trânsito como faziam no passado. A Guarda poderia, em alguns casos, fazer convênios com a PM para dividir tarefas. Mas o fato é que, a partir da pandemia, os guardas praticamente deixaram de atuar no trânsito, que está caótico. As pessoas fazem o que querem.
Problemas de Norte a Sul
O GLOBO percorreu, na semana passada, vias do Centro e de bairros das zonas Sul e Norte. No caminho, encontrou um único guarda na Rua Riachuelo, no Centro, tentando diminuir os transtornos provocados pelo acesso ao estacionamento de um supermercado. Na rua, na tarde de terça-feira, havia carros estacionados irregularmente em fila dupla, em baias de ônibus e em vagas de idosos e deficientes.
— A fiscalização tem que ser constante. Não adianta fiscalizar e ir embora. Tem lugar delimitado na rua para aguardar vaga no estacionamento do supermercado. Só que os carros extrapolam essa fila. Há também os veículos de frete que param do lado direito e na Ladeira do Castro, esperando passageiros com compras. É engarrafamento o dia inteiro. A Riachuelo é uma rua estreita, com muito comércio. Falta organização e ter horário para carga e descarga — afirma a fisioterapeuta Gisele Magalhães, de 60 anos, que mora na Rua dos Inválidos.
Com quase 50 anos de Rua do Riachuelo, a professora aposentada Ângela da Silva Fernandes Gonzales, de 76 anos, também reclama do engarrafamento.
— É preciso pôr ordem na rua. Temos dois supermercados próximos um do outro, hotel, academia, restaurantes, muitos prédios… O condomínio Cores da Lapa é uma cidade, com mais de 600 apartamentos. Você chama carro de aplicativo que leva meia hora para chegar — conta Ângela, que se mudou em 2009 para o Cores da Lapa.
Outra moradora antiga da Rua do Riachuelo, Vera Lúcia Cruz Muniz passou 68 dos seus 75 anos residindo na via. Ela soma às queixas de Ângela e Gisele a reclamação pela mudança de lugar de um ponto de ônibus que estava próximo ao número 111:
— Onde paravam ônibus regulares, agora estacionam ônibus de turismo. E é no meio da rua, porque não há baia.
Mais adiante, no Aterro, motoristas param na pista expressa para urinar. E, nas praias do Flamengo e de Botafogo, caminhões costumam estacionar no canteiro divisório para almoçar e descansar na boleia.
— Há dias que o canteiro fica lotado de caminhões de mudança, de frete, de seguradora, no trecho entre a Fundação Getulio Vargas e a Rua Marquês de Abrantes — lamenta a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiarádia.
Segundo Regina, o trânsito está ao deus-dará:
— Se você não tem guarda de trânsito, furam sinais, estacionam onde querem… Motos trafegam em cima da calçada, e motoristas perto de escolas bloqueiam ruas e não deixam ninguém passar.
O motorista de aplicativo José Carlos da Silva Neto reclama do fechamento da Praia de Botafogo por carros que querem entrar na Rua Farani:
— Não tem um guarda para organizar o trânsito nesse ponto crítico.
Outros locais onde urge a presença de um agente fixo, de acordo com o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horário Magalhães, são os cruzamentos da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com Rua Figueiredo Magalhães e das ruas Barata Ribeiro e Siqueira Campos.
— Mal se consegue ver agentes de trânsito nos principais cruzamentos do bairro. Dessa forma. o trânsito fica praticamente largado à própria sorte — ressalta.
No topo das queixas
Estacionamento irregular nas faixas da esquerda de vias principais de Copacabana é algo corriqueiro. Na terça-feira, por volta de 17h30, O GLOBO contou nove veículos parados no trecho da Barata Ribeiro entre Siqueira Campos e Figueiredo Magalhães. Na Nossa Senhora de Copacabana entre as ruas Paula Freitas e República do Peru, havia sete.
— Acaba sobrando só uma faixa para os carros trafegarem nessas vias, já que as duas da direita são de ônibus e táxis — constata José Carlos.
Não à toa, o estacionamento irregular é a principal queixa recebida através da central 1746: entre janeiro e 26 de maio (último balanço disponível no site da prefeitura) foram 79.947 pedidos de fiscalização. Na quarta-feira, O GLOBO perorreu trechos da Avenida Brasil e de bairros da Zona Norte, flagrando carros estacionados em calçadas e em ruas proibidas. Na Avenida Ubirajara, onde fica o Hospital Municipal Francisco da Silva Telles, em Irajá, até trailers de alimentação estão instalados sobre uma faixa da via.
GM armada prendeu 751
Armada, a Força Municipal, Divisão de Elite da Guarda Municipal, estreou em 15 de março, em dois perímetros com grande incidência de roubos e furtos: a Rodoviária do Rio, o Terminal Gentileza e a Estação Leopoldina, no Centro; e a área do Jardim de Alah, entre o Leblon e Ipanema, na Zona Sul.
Hoje, cerca de 600 homens atuam na Força Municipal. Na última etapa, em 7 de junho, o grupo iniciou o patrulhamento no entorno da Estação Méier-Cachambi. Este é o segundo ponto da Zona Norte a receber equipes da Divisão de Elite. Desde o fim de abril, a corporação atua também no trecho compreendido entre a Rua São Francisco Xavier e a Praça Afonso Pena, na Tijuca.
O grupamento patrulha ainda perímetros no Centro e em Campo Grande, Botafogo, Flamengo e Bangu. A próxima área a receber os guardas armados ainda não está definido.
Desde o início da atuação, os agentes realizaram mais de 5.731 abordagens, que resultaram em 751 prisões. Até a última sexta-feira, a Divisão de Elite tinha recuperado 131 aparelhos celulares, 128 motocicletas, 19 bicicletas e 15 cordões. E apreendido uma pistola, cinco réplicas de arma de fogo e 41 armas brancas.
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Diante dos problemas recorrentes em pistas e calçadas, prefeitura do Rio planeja criar Força Municipal de Trânsito



