Data convida à descoberta de novos mundos por meio das páginas e valoriza a literatura brasileira e goiana. Tecnologia permite fruir a leitura além dos livros físicos.


Mundos inteiros cabem entre duas capas. Em algumas páginas, é possível atravessar oceanos, conhecer outros tempos, descobrir sentimentos e enxergar a vida por perspectivas que antes pareciam distantes. Um livro pode ser uma janela para o desconhecido, um refúgio nos dias difíceis ou o começo de uma transformação. É essa capacidade de nos transportar sem que precisemos sair do lugar que torna a leitura uma experiência tão especial.

A escritora goiana Cora Coralina, uma das vozes mais importantes da literatura brasileira, deixou uma frase que inspira essa relação com os livros: “Tenha sempre um livro ao alcance do seu tempo”. Celebrado em 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro é uma oportunidade para reencontrar esse prazer, descobrir novos autores e reconhecer o papel da leitura na formação de pessoas e na construção da sociedade.

No Brasil, porém, o convite à leitura convive com um desafio. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Fundação Itaú e com aplicação do instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégicao (Ipec), mostra que menos da metade da população brasileira mantém contato com livros dentro do período considerado pelo levantamento. São aproximadamente 93,4 milhões de leitores, enquanto 53% dos brasileiros não leram sequer parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista.

O resultado reforça a necessidade de criar oportunidades para que mais pessoas descubram o prazer de ler, seja por meio da literatura, da poesia, dos romances, das histórias em quadrinhos ou de obras que ajudam a compreender o mundo.

Goiás entre histórias e leitores

Em Goiás, falar de livros é também falar de identidade, memória e pertencimento. A literatura goiana reúne vozes que transformaram paisagens, costumes e experiências regionais em histórias capazes de ultrapassar fronteiras. Entre elas está a já citada Cora Coralina, nascida na cidade de Goiás, cuja obra projetou o cotidiano e a sensibilidade do povo goiano para leitores de todo o país.

A relação dos goianos com a leitura, entretanto, apresenta desafios. O levantamento de 2024 aponta que o estado registrou 52% de leitores naquele ano. O indicador oferece uma visão ampla do hábito de leitura em Goiás, enquanto os dados da capital revelam uma realidade particular.

Em Goiânia, de acordo com informações divulgadas pelo Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Goiás (Sibi/UFG), 40% da população com 5 anos ou mais afirmou ter lido pelo menos um livro, impresso ou digital, nos três meses anteriores à entrevista. O índice coloca a capital na última posição entre as 27 capitais brasileiras, conforme o levantamento citado pela instituição.

Os números ajudam a dimensionar o desafio de aproximar a população dos livros, mas a leitura não se resume a estatísticas. Por trás de cada leitor existe uma descoberta: a criança que se encanta com a primeira história, o jovem que encontra nos personagens respostas para sentimentos que ainda não sabe explicar ou o adulto que retoma o hábito e descobre que nunca é tarde para começar uma nova leitura.

Para o jornalista Pedro Aguiar, de 27 anos, a leitura tem a capacidade de apresentar diferentes perspectivas sobre o mundo. Ele destaca que a ficção, especialmente os romances de fantasia e as distopias, permite imaginar sociedades alternativas que, muitas vezes, ajudam a refletir sobre a própria realidade. Já os livros históricos oferecem a oportunidade de revisitar acontecimentos do passado com uma compreensão mais abrangente dos fatos e de seus contextos.

Apesar desse potencial, Aguiar avalia que o Brasil ainda precisa ampliar o acesso à literatura e fortalecer o interesse pela leitura. Para ele, a diminuição da procura por livros não pode ser atribuída exclusivamente ao avanço das redes sociais, embora reconheça que o consumo constante de conteúdos digitais concorre com o tempo dedicado à leitura.

“Um livro demanda tempo e disciplina, e é muito fácil rolar a tela infinitamente por horas e horas”, observa.

Na avaliação do jornalista, o desafio está em fazer com que a leitura conquiste espaço na rotina das pessoas e seja percebida não apenas como uma exigência escolar ou acadêmica, mas como uma atividade prazerosa. Para isso, considera necessário investir em políticas públicas e em iniciativas que aproximem crianças e jovens dos livros desde cedo.

A experiência pessoal do jornalista ilustra como esse estímulo pode fazer diferença. Durante o nono ano do ensino fundamental, aos 13 anos, ele ainda enxergava a leitura principalmente como uma obrigação escolar. O interesse começou a mudar quando uma professora propôs uma atividade que permitiu aos estudantes escolherem os livros que gostariam de ler.

Com a autorização da direção da escola, a turma organizou um amigo secreto de livros. Pedro Aguiar recebeu um exemplar de “Jogos Vorazes”, da escritora norte-americana Suzanne Collins, e encontrou ali uma porta de entrada para o universo literário.

“Foi o primeiro livro que li inteiro por vontade própria”, conta.

A partir dessa experiência, o hábito deixou de ser uma tarefa imposta e se transformou em interesse pessoal. Atualmente, Aguiar diz ler, em média, de seis a oito livros por ano, alternando entre obras históricas, romances e biografias. Ele também brinca que está construindo a própria biblioteca.

O relato evidencia a importância de oferecer liberdade de escolha e oportunidades de descoberta. Quando o leitor encontra um tema que desperta sua curiosidade, a leitura pode deixar de ser uma obrigação e se tornar parte da vida cotidiana.

Valorizar a literatura goiana também significa manter vivas as histórias que ajudam a compreender quem somos. Conhecer autores locais, frequentar bibliotecas e compartilhar livros são maneiras de preservar a memória cultural do estado e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas vozes.

Bibliotecas de portas abertas

Para quem deseja começar ou retomar o hábito da leitura, as bibliotecas continuam sendo importantes pontos de encontro com o conhecimento. No Brasil, porém, ampliar o acesso a esses espaços permanece com entraves. Dados do Ministério da Cultura, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e divulgados pelo jornal Nexo, apontam que o país tinha 4.691 bibliotecas públicas e comunitárias em funcionamento no fim de 2025, sendo 3.748 públicas e 943 comunitárias.

O cenário evidencia a necessidade de fortalecimento desse instrumento. Em 2015, o Brasil contabilizava 6.057 bibliotecas públicas. Embora os números dos dois períodos não correspondam exatamente à mesma categoria, a reportagem registra uma redução de aproximadamente 23% dos equipamentos públicos em uma década.

A distribuição das bibliotecas também é desigual entre as regiões brasileiras. O Nordeste concentra 2.089 unidades, seguido pelo Sudeste, com 1.502, e pelo Sul, com 939. O Norte reúne 321 unidades, enquanto o Centro-Oeste contabiliza 274. Além disso, apenas 3.072 municípios brasileiros, o equivalente a 55,1% do total, possuem bibliotecas públicas ou comunitárias.

O estado de São Paulo lidera em quantidade, com 667 bibliotecas públicas e comunitárias. Na capital paulista, são 120 unidades. Os dados mostram que, além de ampliar o número de espaços disponíveis, é necessário enfrentar as desigualdades territoriais que limitam o acesso da população aos livros.

Diante desse cenário, o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), cuja aprovação foi anunciada em 23 de abril de 2026, estabelece a meta de ampliar em 50% o número de bibliotecas públicas e comunitárias até 2036, chegando a 7.036 unidades. A proposta também prevê a presença de pelo menos uma biblioteca em cada município, com prioridade para territórios socialmente vulneráveis.

O plano está estruturado em quatro eixos: democratização do acesso; fomento à leitura e formação de mediadores; valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico; e incentivo às cadeias criativa e produtiva do livro. Entre as medidas previstas está a oferta mínima de obras em braille e em formatos acessíveis, como audiolivros, para ampliar as possibilidades de acesso à leitura.

Em Goiás, a Universidade Federal (UFG) mantém uma rede de oito bibliotecas, com mais de 177 mil títulos em seu acervo. As unidades do Sistema de Bibliotecas da UFG estão distribuídas entre a região da Praça Universitária, o campus Samambaia, Aparecida de Goiânia e a cidade de Goiás. Os espaços recebem a comunidade universitária e também o público externo, oferecendo oportunidades para ler, estudar e pesquisar.

A presença desses espaços é especialmente importante para quem não tem o hábito de comprar livros ou não dispõe de uma coleção em casa. Uma biblioteca pode ser o primeiro contato de uma criança com determinado autor, o lugar onde um estudante encontra uma nova paixão ou o ponto de partida para uma pesquisa que desperta uma vocação.

Além do empréstimo de livros, esses equipamentos podem oferecer recursos que facilitam o acesso à informação. De acordo com a pesquisa TIC Cultura 2024, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 65% das bibliotecas pesquisadas disponibilizam Wi-Fi aos usuários, enquanto 41% oferecem computadores. Os dados mostram que esses espaços também podem contribuir para reduzir barreiras de acesso à informação e às tecnologias digitais.

Outra iniciativa de ampliação do acesso é a plataforma MEC Livros, lançada pelo Ministério da Educação em abril de 2026. Com 25 mil títulos disponíveis para empréstimo digital gratuito, a ferramenta reúne obras de autores clássicos e contemporâneos e oferece uma alternativa para quem deseja ler sem depender exclusivamente dos acervos físicos.

Para Pedro Aguiar, os recursos digitais podem contribuir para manter o interesse pela literatura. Embora considere preocupante o fechamento de livrarias, ele avalia que dispositivos de leitura eletrônica, como os leitores digitais, oferecem novas possibilidades para quem deseja continuar lendo.

“Os Kindles estão aqui e são uma realidade”, afirma Pedro Aguiar. Na avaliação do jornalista, a tecnologia não precisa ser vista como adversária da literatura. A leitura pode acontecer em diferentes formatos, desde que haja interesse e oportunidade de acesso. A ampliação dos acervos, a oferta de bibliotecas e o uso de ferramentas digitais podem, assim, atuar de forma complementar na formação de novos leitores.

Um livro de cada vez

A pesquisa nacional também mostra que o interesse pela leitura varia de acordo com a idade. Entre as crianças de 5 a 13 anos, 87% dizem gostar de ler. Entre as pessoas com mais de 50 anos, o porcentual é de 57%. Os dados reforçam a importância de estimular o contato com os livros desde a infância, sem deixar de criar oportunidades para que pessoas de todas as idades descubram ou recuperem esse prazer.

A experiência de Pedro Aguiar demonstra que o estímulo adequado pode transformar a relação de uma pessoa com a literatura. Em vez de exigir a leitura de uma obra específica, a iniciativa de sua professora permitiu que os estudantes descobrissem histórias de acordo com os próprios interesses. O resultado foi o início de um hábito que permanece na vida adulta.

A formação de leitores, portanto, envolve mais do que apresentar livros ou destacar os benefícios da leitura para o desenvolvimento da linguagem e do pensamento crítico. Também exige criar experiências capazes de despertar a curiosidade, respeitar as preferências individuais e mostrar que há diferentes caminhos para entrar no universo literário.

E há muitas portas de entrada. Para alguns, tudo começa com uma aventura; para outros, com um poema, uma biografia, um livro de mistério escrito por Agatha Christie ou uma história que alguém contou na infância. O gosto pode surgir aos poucos, sem obrigação de terminar uma obra de uma vez ou de escolher sempre os mesmos gêneros.

No Dia Nacional do Livro, a proposta é simples: reservar um momento para ler, visitar uma biblioteca, presentear alguém com uma obra ou conhecer um escritor que ainda não faz parte da estante. Em Goiás, onde a literatura tem representantes que marcaram a cultura brasileira, a data também é um convite a descobrir e valorizar as histórias produzidas em nosso próprio território.

Afinal, manter um livro por perto é conservar aberta a possibilidade de conhecer outros mundos e olhar para o nosso com novos olhos. E, como mostra a experiência do jornalista entrevistado, às vezes basta encontrar a história certa para que a leitura deixe de ser uma obrigação e se transforme em uma paixão para a vida inteira.



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