Cuidado com o vetor | Portal da Alego


O Dia Mundial da Doença de Chagas é celebrado anualmente em 14 de abril, marcando um feito único para o mundo: a descoberta da enfermidade pelo médico sanitarista brasileiro Carlos Chagas. Em 1909, o brasileiro descreveu o ciclo completo da doença – parasita, vetor e hospedeiro – ao identificar o Trypanosoma cruzi no sangue da paciente Berenice Soares de Moura, na cidade mineira de Lassance.

Entretanto, somente no ano do centenário da descoberta, em 2019, a data foi oficialmente estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo celebrada em todos os países pela primeira vez em 2020. Anualmente, a campanha tem o intuito de conscientizar sobre essa doença, muitas vezes negligenciada, que afeta principalmente países da América Latina.

Historicamente, a doença de Chagas teve prevalência na América Latina, colocando o Brasil no grupo dos países mais afetados. Entretanto, nos últimos tempos, o número de infectados foi consideravelmente reduzido, permitindo que o país recebesse, inclusive, em 2006, a certificação internacional da interrupção da transmissão vetorial da doença pela principal espécie do inseto, o Triatoma infestans.

Isso ocorreu porque, desde a década de 1950, o Brasil implementou programas de controle vetorial que conseguiram reduzir significativamente a prevalência da doença. Atualmente, 72% dos casos existentes no país ocorrem por transmissão oral, 9% por transmissão vetorial e 18% têm forma de transmissão não identificada.

Segundo dados, a contaminação oral ocorre principalmente pelo consumo de caldo de cana, açaí e outros alimentos consumidos in natura, sem processo de cozimento. Nesses alimentos, o barbeiro deposita suas fezes sem que ninguém veja ou é simplesmente esmagado sem que ninguém perceba.

Em todo o país, a principal forma de controle da transmissão por vetores é feita com produtos químicos aplicados diretamente nas moradias e anexos, para combate aos insetos. Outra forma de controle, socialmente mais adequada, são os programas de melhoria de moradias rurais em que os insetos vetores não consigam colonizar. Essas medidas associadas, controle de insetos e melhorias habitacionais, são apontadas como as mais eficazes desde a década de 1980.

Em Goiás, por iniciativa do deputado José Machado (PSDB), a Governadoria sancionou a Lei Estadual nº 23.031 (originalmente projeto de lei nº 1812/23), que cria o Dia da Conscientização e Enfrentamento à Doença de Chagas, a ser comemorado anualmente em 14 de abril. A data também foi incluída no Calendário Cívico, Cultural e Turístico do Estado.

Na justificativa do texto, o parlamentar ressaltou que a importância do projeto transcende as barreiras partidárias e políticas. “Ele é um convite à ação, um apelo à solidariedade e à responsabilidade que temos para com nossos concidadãos. Afinal, a doença de Chagas é uma realidade que afeta milhares de famílias goianas e brasileiras, causando sofrimento humano e impactos significativos em nossas comunidades”, afirmou o deputado e médico.

O legislador destacou que o Dia da Conscientização e Enfrentamento à Doença de Chagas é um chamado à ação coletiva que deve unir esforços em prol da promoção da saúde, estimulando o compromisso com medidas preventivas, diagnósticos precoces e tratamentos adequados. Segundo ele, mais do que uma lei, será um ato de solidariedade, um gesto de cuidado com o próximo.

Cardiologista

Para tratar do assunto, a Agência de Notícias da Assembleia Legislativa de Goiás ouviu o médico cardiologista Darlan Carneiro. Com longa carreira construída na área da saúde, o especialista destaca que a doença tem sido cada vez menos recorrente, e atualmente não há relato de novos casos em seu consultório.

Conforme o especialista, a doença de Chagas foi uma enfermidade mais prevalente no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980, época marcada pela transmissão vetorial clássica (picada do “barbeiro”) em áreas rurais, com milhões de pessoas infectadas. Porém, o controle intenso a partir dos anos 1990, especialmente com inseticidas e triagem de sangue, reduziu drasticamente o contágio.

O cardiologista alerta que, nos dias atuais, as pessoas mais sujeitas a contrair a doença são aquelas que consomem açaí, caldo de cana ou sucos de frutas (como bacaba) processados de forma artesanal sem seguir as normas de higiene e pasteurização. Se o fruto não for lavado corretamente ou se o local de moagem estiver aberto para a mata, o barbeiro pode ser moído junto, liberando o parasita diretamente no alimento.

Ele lembra que a doença de Chagas também pode ser transmitida através de transplante de órgãos de doadores contaminados, de sangue contaminado ou hemoderivados e, ainda, para o bebê durante a gravidez (muito raro) ou no parto. Por isso, é tão importante o rígido controle entre os doadores e o acompanhamento do pré-natal para identificar e monitorar a criança logo ao nascer.

“O mais importante é sempre a prevenção e o diagnóstico precoce, mas realmente são raros os casos em que se descobre a doença na fase inicial, porque o paciente normalmente fica assintomático ou tem sintomas muito sutis. Mesmo na fase aguda, o paciente pode não apresentar sintomas ou ter febre, mal-estar e inchaço (como o Sinal de Romaña, um inchaço característico em um dos olhos) e, quando diagnosticado nessa fase, a chance de cura com medicamentos é alta”, observa Carneiro.

O cardiologista explica que, na fase crônica, o paciente pode demorar 10, 20 ou 30 anos para manifestar a enfermidade. Apesar de o parasita se alojar nos órgãos, somente cerca de 30% dos infectados desenvolvem problemas, que se manifestam de duas formas graves. Na primeira forma, compromete o sistema cardíaco devido ao aumento do tamanho e à diminuição da função do coração, com arritmias e bloqueios na transmissão elétrica. Na segunda forma, compromete o sistema digestivo provocando dilatação do esôfago ou do cólon (intestino grosso), dificultando a deglutição e a evacuação.

Cura possível

Apesar de ser considerada uma doença grave, o estudioso lembra que é possível falar em cura, mas pondera que ela depende diretamente de quando o tratamento é iniciado, pois, segundo ele, quanto mais cedo o parasita (Trypanosoma cruzi) for combatido, maiores as chances de eliminá-lo totalmente do organismo. Ele adverte que, na fase crônica (anos após a infecção), a chance de cura é muito baixa e controversa. Ainda assim, reitera que somente cerca de 30% dos infectados desenvolvem problemas graves com diminuição da qualidade e expectativa de vida.

Darlan Carneiro, com larga vivência na cardiologia, explica didaticamente que existem dois grupos de tratamento da doença de Chagas: um que foca em matar o parasita (descoberto na fase inicial) e outro que gerencia os sintomas causados pelas lesões nos órgãos, restando medicar para melhorar a qualidade de vida do paciente (descoberto assim que os sintomas surgem). De acordo com o médico, no Brasil, o protocolo para matar o parasita (na fase aguda da doença) é padronizado pelo Ministério da Saúde e realizado via Sistema Único de Saúde (SUS), sendo altamente eficaz para destruir o protozoário nesta etapa.

Por fim, o estudioso fala que a situação da doença de Chagas no Brasil é um cenário de contrastes, onde já foi possível consolidar vitórias históricas gigantescas, mas doravante enfrentamos novos desafios até que se conquiste a erradicação total. Ele lembra que o maior avanço foi o controle do Triatoma infestans, a espécie de barbeiro que vivia exclusivamente dentro das casas, reduzindo aquela imagem clássica da doença ligada apenas às casas de pau-a-pique no interior do país.

A prevenção moderna é um conjunto de estratégias que vão muito além de combater o inseto. As transmissões por transfusão de sangue e órgãos contaminados também foram praticamente zeradas devido ao rigoroso controle nos hemocentros. O foco agora é manter a vigilância médica e sanitária em alerta para que novos casos sejam reduzidos ao máximo até que se possa pensar na extinção completa.



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

- Advertisement -spot_img