Baixada de contrastes: peça-chave no xadrez eleitoral, região tem de imóveis de alto padrão e indústrias de ponta a barracos e pobreza

Com restaurantes badalados, hotéis e apartamentos de classe média alta, a Rua Doutor Mário Guimarães chega a ser chamada de Times Square do município pelo advogado Rafael Pinheiro, presidente do Country Club de Nova Iguaçu. O endereço fica no Centro — localidade que ostenta a segunda maior renda média por chefe de família da Baixada Fluminense (R$ 5,5 mil mensais, superior aos R$ 3,3 mil do estado), conforme dados do Censo 2022 do IBGE. O próprio bairro, contudo, expõe um forte contraste social. A apenas dois quilômetros da Mário Guimarães, cruzando a linha férrea, fica a casa de vila doada ao pedreiro Marcondes Antônio Santos Toledo, que mora com a atual esposa, Glisiane, e seis de seus 14 filhos, com idades de 9 a 17 anos.
Big Brother dos ônibus: Prefeitura do Rio vai monitorar funcionamento do ar-condicionado dos ônibus em tempo real
Rio envelhece: estado tem 74 idosos para cada 100 crianças
— Dependendo dos trabalhos que pego, consigo tirar R$ 1.500, R$ 2 mil por mês. Quando muito, R$ 2.500. Aqui, quando chove, alaga tudo. E olha que suspendi a casa. É muito sofrimento — conta Marcondes.
Com 13 municípios, mais de 3,5 milhões de habitantes e concentrando cerca de 22% dos eleitores do estado, a Baixada é peça-chave no xadrez eleitoral do Rio. Nessa reta final da campanha, a região — segundo maior colégio eleitoral fluminense e território decisivo para qualquer disputa majoritária — virou o foco de candidatos como Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL), que intensificaram carreatas, agendas de rua e discursos por lá.
A Rua Doutor Mário Guimarães, no Centro de Nova Iguaçu: considerada a rua comercial e residencial mais importante no município
Marina Calderon
A essa Baixada de contrastes, Marcondes chegou há 40 anos, entremeados por períodos em Maceió (AL). Lá, vivem sete de seus filhos, de esposas diferentes. Com ele, moram os cinco que teve com Glisiane e um de outro casamento. A prole se completa com uma filha casada, que vive em Guapimirim. Parte do que tinha em casa ele acabou perdendo com a enchente do início do ano e o último vendaval.
— Os meus filhos são minha vida. Todos estudam, e alguns também são meus ajudantes — diz.
Imóveis de alto padrão
Embora ocupe a oitava posição em PIB per capita na Baixada Fluminense (R$ 26 mil) — índice bem inferior à média estadual, de R$ 73 mil —, Nova Iguaçu se destaca por seu parque industrial diversificado. Abriga grandes empresas, como Granfino e Café Pimpinela (alimentos), Embelleze e Niely (cosméticos) e Usimeca (mecânica), além do campus principal da Unig, que oferece o curso de Medicina.
No mercado imobiliário de alto padrão, há opções como o Le Jardin Residence Parc, condomínio de casas próximo ao Centro, que dispõe de piscinas, campo de futebol, espaço gourmet e portaria com acesso biométrico. Outra alternativa de destaque é o residencial Golden Gate Club Condominium, composto por duas torres de apartamentos no Centro.
Vista aérea do Condomínio Le Jardin, no bairro Conjunto Residencial Redenção, em Nova Iguaçu
Divulgação/Gustavo Gentil
— No Le Jardin, as casas de quatro quartos custam cerca de R$ 2 milhões (R$ 5.212/m²), embora possam superar os R$ 4 milhões. O aluguel está na faixa de R$ 7.478. Por sua vez, no Golden Gate, a cotação de compra é de R$ 1,3 milhão, com destaque para o valor do metro quadrado (R$ 7.292), enquanto a locação média é de R$ 4.896 — explica Gustavo Gentil Brandão, sócio-administrador da Boom Imobiliária.
Vista aérea das duas torres do Condomínio Golden Gate, no Centro de Nova Iguaçu
Divulgação/Gustavo Gentil
Entre os restaurantes de Nova Iguaçu, o Vikings completará 15 anos em março. A rede — que hoje conta com a casa na cidade e outra unidade no Shopping Nova América, reunia 12 filiais antes da pandemia — aposta em uma pegada pop e está decorada para o Halloween. O sócio Adriano Cosme Costa, nascido e criado no município, cita Joãozinho Trinta para dizer que a região vai “do lixo ao luxo”. E complementa:
— Ainda somos carentes de hospitais, por exemplo. Mas todo mundo se conhece: há conexões.
Quanto às áreas urbanizadas, elas representam 24% do território em Nova Iguaçu, segundo o Censo 2022. Enquanto isso, chegam a quase 100% em São João de Meriti, onde a renda média mensal de um chefe de família é de R$ 1.893,05.
Mesmo baixo, esse valor é distante da realidade do pedreiro Sérgio dos Santos, de 64 anos. Ele vive com a esposa Jamile, de 44, e a filha Sara, de 9, em um barraco de madeira insalubre à beira do Rio Sarapuí, em Coelho da Rocha, na divisa entre São João de Meriti e Belford Roxo. Dentro do imóvel, acumulam-se objetos velhos e quebrados que Sérgio recolhe para tentar revender.
O pedreiro Sérgio dos Santos, com a esposa Jamile e a filha Sara: família mora num barraco de madeira em São João de Meriti
Marina Calderon
— O meu sonho é dar uma casa melhor para minha filha. Fico com medo quando chove e venta. Minha casa alaga, e tem árvores que podem cair em cima. Aqui tem cobra, rato… Minha filha viu até um homem morto no rio. Tentei dizer que era um bicho, mas ela viu a barriga e não acreditou — conta Jamile.
Sara, que está no 4º ano do ensino fundamental e dorme com os pais num único colchão, também compartilha seus sonhos.
— Gosto de estudar. Quero ser médica veterinária — afirma, enquanto acaricia um dos mais de dez gatos no barraco.
A dura realidade de quem sobrevive com pouco na Baixada
São João de Meriti é a quarta cidade mais populosa da Baixada. À sua frente está Duque de Caxias, que ostenta o segundo maior PIB per capita da região (R$ 86 mil) — impulsionado pela Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) e bem acima da média estadual (R$ 73 mil). Apesar do forte desempenho econômico, Caxias ocupa apenas o 8º lugar entre os 13 municípios em renda média do chefe de família (R$ 2.010,51).

O topo do ranking de PIB per capita é de Itaguaí, alavancado pelas atividades portuárias. Mas a cidade guarda uma contradição: é lá que estão os cinco bairros onde a renda média do chefe de família é a menor da Baixada: Guandu (R$ 1.038,01), Belo Horizonte (R$ 1.112,61), Aljezur (R$ 1.158,24), Lagoa do Sapo (R$ 1.193,97) e Bananal (R$ 1.230,65). Todas são áreas de alta vulnerabilidade social e pouca infraestrutura.

Chão de cimento
Em outra área carente, no Jardim Marajoara, na Zona Rural de Japeri, o idoso César Augusto de Morais Antunes, conhecido como Cesinha, vive em uma casa humilde, de chão de cimento, herdada dos pais, no fim da Rua Xingu. O acesso à residência é feito por uma estrada de terra. Nos fundos do imóvel, passa um valão que transborda quando chove, aumentando as dificuldades enfrentadas pela família.
Doente, Cesinha mora com a esposa, Márcia, que também enfrenta uma doença neurológica, e o filho Leonardo. O rapaz, que igualmente tem problemas de saúde, não trabalha e se dedica a cuidar dos pais.
— O pouco dinheiro do auxílio que meus pais recebem é para comprar comida e remédio. O que plantamos é para ajudar na comida — diz Leonardo.
César Augusto de Morais Antunes, de 72 anos, mora numa casa precária na Zona Rural de Japeri
Marina Calderon
Outro contraponto à dura realidade de Japeri é a existência de uma escola pública de golfe — esporte associado a pessoas de maior poder aquisitivo. Criado em 2006 por 15 caddies (carregadores de tacos) do Gávea Golf & Country Club que moravam na região, o projeto aposta na modalidade como ferramenta de inclusão social.
— Atualmente, temos 140 alunos, de 7 a 18 anos, todos estudantes da rede pública. Cada um recebe uma cesta básica — explica Kátia Gomes, coordenadora do projeto.

Iniciativas como essa ajudam a amenizar as dificuldades enfrentadas pelos moradores, mas não resolvem questões estruturais que ainda marcam o cotidiano de Japeri — e de outros municípios da Baixada. Entre elas, o acesso ao saneamento básico, que permanece um desafio em boa parte da região.

No último ranking do Instituto Trata Brasil, Caxias e Nova Iguaçu aparecem nas 89ª e 78ª posições, respectivamente. São João de Meriti ocupa a 87ª colocação. Já Belford Roxo, onde só 7,62% do esgoto é coletado, fica em situação ainda mais crítica (95ª).
A concessionária Águas do Rio, responsável pelo atendimento desses quatro município e de outros cinco da Baixada, afirma ter investido R$ 1,9 bilhão na região em quase cinco anos. Mais R$ 7 bilhões em investimentos estão previstos até 2033.
São muitos os desafios, mas novos negócios e serviços surgem
Em áreas da Baixada Fluminense, o gasto mensal com transportes chega a comprometer mais de 32% da renda média do trabalhador, como mostra a 5ª edição do Mapa da Desigualdade, que será lançada este mês pela Casa Fluminense. Cria de Mesquita e doutora em sociologia, Íris Rosa, coordenadora de Informação da entidade, explica que, apesar da quantidade de indústrias, muitas pessoas, sem formação necessária, precisam sair da região para trabalhar na capital.
— Trata-se de uma população com um perfil muito específico. Setenta por cento são pessoas pretas ou pardas e 53% são mulheres. Muitas delas são empregadas domésticas na capital — diz.
Íris Rosa cita ainda dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) que mostram que, enquanto a taxa de abandono escolar do Ensino Médio é de 4% no Estado do Rio e de 2,5% no Brasil, alcança 6,6% em Japeri, 5,4% em Belford Roxo e 5,2% em Nilópolis.
Quanto aos índices de violência, embora a Baixada tenha sido superada pela capital e pelo interior, a socióloga pondera:
— Muitos territórios da região estão sob domínio de grupos armados. Quando se olha para o dado quantitativo, ele por vezes não reflete a opressão sofrida.

‘A região tem potencial’
Também ao avaliar aspectos estruturais da Baixada, o diretor do Instituto Rio Metrópole (IRM), o arquiteto e urbanista Vicente Loureiro, lembra indicadores ruins, como os baixos resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o longo tempo de deslocamento casa-trabalho e a baixa cobertura de esgoto.
— Esses indicadores de políticas públicas mal resolvidas fazem com que as pessoas tenham demandas reprimidas muito acentuadas. Além disso, uma parte importante do território é sujeita a inundações regulares. Essas situações colocam a região como um local onde mora muita gente, mas ainda com problemas estruturais e sem qualidade de vida adequada às necessidades básicas — destaca.
Por outro lado, Loureiro afirma que a região tem potencial. Como reúne muita gente, diz, acaba tendo um volume expressivo de negócios, atividades comerciais e serviços em Nova Iguaçu e Caxias e, em menor escala, em Queimados, Nilópolis, São João de Meriti e Belford Roxo.
— Temos assistido ao surgimento de universidades, hospitais, clínicas, serviços de educação e saúde mais qualificados e de maior alcance, que vão modificando hábitos importantes. Nos calçadões de Nova Iguaçu e Caxias, não encontramos loja fechada. Houve uma recuperação rápida das atividades comerciais, se comparada ao centro do Rio, por exemplo — acrescenta.
Conheça o cotidiano de alguns moradores
O advogado Rafael Pinheiro, presidente do Country Club de Nova Iguaçu: nascido e criado no município
Marina Calderon
Country Club tem 700 sócios titulares
Nascido e criado no município, o advogado Rafael Pinheiro, de 42 anos, preside o Nova Iguaçu Country Club. O espaço é frequentado por famílias tradicionais e de políticos. Conta com 700 sócios titulares (o número de frequentadores sobe para cerca de três mil, se incluir os dependentes), entre eles o prefeito e o presidente da Câmara de Vereadores da cidade.
— Antes da pandemia (de Covid-19), algumas famílias tradicionais saíram de Nova Iguaçu, sobretudo para a Barra. Agora, estão voltando a morar no nosso município, e o clube vive um momento de ascensão — destaca Pinheiro.
Funcionários para atender estrangeiros
O analista de sistemas e geógrafo Adriano Cosme Costa, de 55 anos, é sócio do restaurante Vikings, em Nova Iguaçu. Ele contratou funcionários que falam inglês e espanhol para atender engenheiros estrangeiros que trabalham em grandes empresas da Via Dutra e se hospedam na cidade.
O analista de sistemas e geógrafo Adriano Cosme Costa, sócio do restaurante Vikings, no Centro de Nova Iguaçu
Marina Calderon
Doença e carência na área rural
Com 72 anos, César Augusto de Morais Antunes mora numa casa herdada dos pais, na Zona Rural de Japeri, com a esposa Márcia, que está doente, e um filho. Um valão atrás do imóvel transbordou este ano e destruiu parte do que a família tinha. César teve um AVC em janeiro.
A luta para manter a família
Parte da família do pedreiro Marcondes Antônio Santos Toledo, que mora em Nova Iguaçu e tem 14 filhos
Marina Calderon
O pedreiro Marcondes Toledo, de 56 anos, ganha entre R$ 1.500 e R$ 2.500 e vive com a esposa Glisiane e seis de seus 14 filhos numa casa de vila que ganhou, no trecho mais carente do centro de Nova Iguaçu. O telhado do imóvel desmoronou durante o vendaval em julho.



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

Felipe percebe que gosta de Mau Mau e os dois dão o primeiro beijo

Parte dessa virada começou nas redes...

Mulher descobre agulha no abdômen após sete anos de ‘dores insuportáveis’

Jana Petriganova DeGregoris — que, ironicamente,...
- Advertisement -spot_img