‘É o único jogo em que fico com o coração dividido’


Hernane é um dos artilheiros que melhor representou a conexão entre Flamengo e Bahia. Baiano de Bom de Jesus da Lapa, o atacante marcou época no rubro-negro, onde surgiu como um furacão em 2013 — ano em que foi campeão da Copa do Brasil e ganhou o apelido de “Brocador”. Depois, fez história também no Esquadrão de Aço, onde levantou a taça da Copa do Nordeste de 2017. Hoje, aos 40 anos, disputa a Série D pelo Nacional-AM. Não esconde a torcida pelo Flamengo, mas revela que o confronto com o Bahia é o único que o deixa dividido.

Você teve temporadas marcantes por Flamengo e Bahia. Como fica o coração quando os dois se enfrentam?

Quando o Bahia está jogando, torço bastante para o Bahia. Mas o Flamengo… não teria como não virar torcedor, por tudo que vivi no clube. Até hoje o torcedor que me encontra diz: “Você é ídolo, aquela temporada sua foi mágica”. Meus números no Flamengo foram absurdamente bons (45 gols em 86 jogos). Creio que, se eu continuasse por mais um tempo, conseguiria manter, porque a fase foi muito boa. Então, esse jogo é o único em que fico com o coração dividido. O Bahia, por toda a história que também tive no clube. E o Flamengo, por tudo que conquistei. Se pudesse fazer uma camisa de Flamengo e Bahia juntos, eu vestiria (risos).

Como descreveria sua passagem pelo Flamengo?

O ano de 2013 no Flamengo garantiu todos os outros clubes que tive depois. Um ano muito bom no Flamengo garante os próximos dez de carreira. E eu não só passei, eu marquei com a camisa do Flamengo. Cheguei em 2012, muito tímido, sabendo que teria poucas chances. Fui muito bem recebido e esperei a minha oportunidade. Logo na estreia, já fiz gol (contra o Coritiba), jogando apenas 15 minutos. Papai Joel (Santana) chamou e falou: “Vai, garoto, sua chance está dada”.

Algum episódio marcante?

Quero falar do Léo Moura. No dia em que cheguei, ele me viu muito tímido depois do treino, ainda não acreditando em tudo que estava acontecendo e pensando alto… Aí ele encostou do meu lado e falou: “Se precisar de qualquer coisa, pode falar comigo. Estou aqui para te ajudar. Você está no Mais Querido, desfruta disso”. Foi algo que levei para a vida. Cada palavra do Léo Moura eu guardei. Hoje somos amigos.

Hernane pelo Bahia — Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/EC Bahia

O que significou vestir a camisa do Bahia anos depois?

Foi a segunda maior felicidade da minha vida. Acabou meu contrato no Sport, e eu estava no hospital, no dia em que minha filha nasceu (a caçula Alicia, nascida em dezembro de 2015 — ele também é pai de Júlia, de 11 anos). O telefone toca, e era o Ney Pandoro (ex-diretor de futebol do Bahia). Estava com um projeto novo, de subir o Bahia para a elite. Não pensei duas vezes. Me despertou uma alegria muito grande, porque eu tinha muita vontade de jogar no Bahia. É sonho de criança, jogar no maior do meu estado.

Destaca algum Flamengo x Bahia que você jogou?

Pelo Flamengo, enfrentei o Bahia três vezes. Fiz dois gols. E estando no Bahia, uma vez contra o Flamengo, em 2017. Estava voltando de lesão, tinha fraturado a tíbia. Voltei na reserva e entrei na partida. O jogo estava 1 x 0 para o Flamengo e eu sofri um pênalti, mas não bati. Passou muita coisa na cabeça: “Estou há quatro meses fora”, “se eu perder, podem imaginar outra coisa”… O Mendonza bateu e fez o gol. Mas é um jogo diferente, sabe? Toda vez que eu jogava contra o Bahia ou o Flamengo, era diferente.

Qual dos dois clubes foi mais marcante para você?

Flamengo, com certeza. Artilheiro do Brasil, com 36 gols na temporada 2013. Quase ganho a tríplice coroa de artilharia naquele ano, ganhei do Carioca, da Copa do Brasil e quase seria do Brasileiro, mas fui vice. Fiz muito mais gols no Flamengo do que vestindo a camisa do Bahia. E o meu ano de 2013 é mágico. Aquele título da Copa do Brasil foi para coroar. Virando para 2014, infelizmente, tive duas lesões consecutivas muito graves: fratura de três vértebras e torção no tornozelo. O ano não foi tão bom, mas, quando estive dentro de campo, em 2012 e 2013, foi maravilhoso.

Hernane Brocador está no Nacional do Amazonas — Foto: Mateus Moreira/FAF
Hernane Brocador está no Nacional do Amazonas — Foto: Mateus Moreira/FAF

O que te faz seguir jogando e o que ainda almeja no futebol?

O dia a dia com meus companheiros. Eles olham para o lado e me veem contribuindo, correndo bastante. Se eu não estiver mais ajudando dentro de campo, paro de jogar. Meu plano inicial era jogar até os 40 anos. Agora, pretendo ir até o fim da Série D. Se eu tivesse tido uma lesão um pouco mais grave, poderia ter parado antes, mas, graças a Deus, nos últimos anos, não tive lesão séria. Tomara que o telefone não toque mais, porque, realmente, quero parar (risos). Em 2027, quero iniciar outras situações. Já tirei a licença B de treinador da CBF. Este ano, é bem possível que tire a licença A, e vejo o que Deus está preparando para o futuro.

Você se vê como treinador ou dirigente no futuro?

Quero ser bem cauteloso nessa parte. Se for técnico, é iniciar na base. Se for dirigente, é analisar a situação. Não quero chegar cru. Vou tirar minha licença para estar pronto. Se cansar de ficar em casa e quiser fazer algo, já vou estar com as cartas na manga. Mas tenho um plano, sim, de estar no meio do futebol. Não sei se seria possível sair assim, até porque são 20 anos nos gramados. Seria um pouco difícil.

Como surgiu a paixão por cavalos e a ideia de ter um haras?

Veio na pandemia. Estava em Recife, no Sport, quatro meses sem poder treinar e jogar. Um amigo me chamou para ir a Gravatá (PE) andar de cavalo e passar o estresse. Falei: “Está doido, rapaz, nunca andei de cavalo”. Montava no jumento do meu avô, tinha 10 anos (risos). Criei coragem e fui. Na primeira montada, fui com muito medo, mas depois de 15 minutos, passou. Falei: “Vou comprar um cavalo porque é muito bom”. A pandemia foi ruim de um lado, mas despertou essa paixão em mim. É algo a que quero dar sequência, estar no meio da vaquejada. Já consigo correr, competir. Mas quero mais como hobby, para não ter mais as mesmas preocupações que tinha no futebol.



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