“…Porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.9).
Uma leve brisa gelada acaricia meu rosto recém-acordado em mais uma manhã. Mais um dia urbano, em meio à cidade tumultuada, indiferente ao frio, acostumada com sol e praia.
A vida espremida nas carruagens a diesel, a fumaça que impede ainda mais que nossos olhares famintos por gente se cruzem, voltando a nos lembrar que somos humanos e não muralhas. O grito entrecruzado da cidade, alimentada pela tagarelice dos bares, restaurantes, faculdades, hotéis e centenas de empresas, revela a face apavorante da coisificação da alma e perda da esperança de que vale a pena resistir.
Resistir! Esse é o verbo que, quando conjugado, poderá estancar esse processo e voltar a despertar a cidade do sonambulismo.
Resistir! É gritar, alto e tantas vezes quanto necessário, para todos ouvirem, que somos humanos e que não podemos normalizar a distância que nos impede de saciar nossa humanidade.
Resistir! São as notas musicais com as quais a poesia harmoniosamente se entrelaça, fazendo as bocas ressoarem canções que inevitavelmente convidam a alma a sorrir e a revelar um brilho mais intenso do que o sol que dá tons dourados a tudo o que é vivo.
Oportunidade é cordel sobre o qual cirandam os devaneios que exalam das almas cansadas, mas embebidas de superação. Almas que insistentemente sonham com o futuro e enxergam a celebração da vida como uma grande mesa onde todos podem se assentar: iguais, diferentes, famintos, simplesmente trazendo o que têm de mais precioso — a sua esperança.
Portanto, meu caro faminto, homem ou mulher, sonhemos o sonho das oportunidades. Sonhemos o sonho da mesa. Sonhemos o sonho da celebração.
A festa recomeça toda vez que chega alguém como você.
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