Deputados veteranos que atravessaram décadas na Alerj enfrentam fim de ciclo e recomeços; saiba quem são

Durante décadas, a experiência acumulada nos corredores da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e junto aos eleitores nas ruas foi a credencial para sobreviver a sucessivas eleições. O pleito deste ano, marcado por forte apelo nas redes sociais, no entanto, impôs um novo modelo de campanha. Mesmo políticos que iniciaram suas trajetórias em palanques e distribuindo “santinhos” conseguiram se adaptar aos algoritmos e garantir mais quatro anos de mandato. Outros, mesmo depois de cinco, até dez legislaturas, vão se despedir do plenário. Esses veteranos lembram as turbulências que enfrentaram e projetam o futuro da Casa e da política.
Poucos acompanharam tanto o Legislativo fluminense quanto Carlos Minc (PSB). Deputado estadual, hoje aos 75 anos, ele entrou na Alerj durante a redemocratização em 1986, testemunhou a era dos grandes comícios e a queda de governadores, além de ter aprovado centenas de leis. Agora, se prepara para deixar a rotina de votações, debates acalorados e negociações em torno de projetos. Depois de dez mandatos, ele não conseguiu a reeleição.
Momento delicado
Minc diz que sai num dos períodos mais delicados da história da Casa. Para ele, a atual crise só encontra paralelo nos anos que sucederam à Lava Jato e após a divulgação da “lista de propina” do bicheiro Castor de Andrade, em 1994, na qual estavam policiais e políticos.
— A Assembleia já cassou vários deputados no passado. Um deles foi um chefe de Polícia Civil e outra foi uma deputada de Magé. Mas nunca houve, simultaneamente, tantas pessoas presas ou afastadas por suspeita de ligação com a milícia ou comandos. Há pouco tempo, cunhei uma frase, pela qual fui criticado por alguns, dizendo que era mais difícil despoluir a Alerj do que a Baía de Guanabara — contou.
Com a saída de Minc, André Corrêa (PSD), de 62 anos, se tornará o decano da Casa ao iniciar no ano que vem seu oitavo mandato. Ele foi reeleito com 65 mil votos. A relação de Corrêa com a Assembleia começou em 1998, quando assumiu uma vaga. Em 2018, ele se envolveu em um dos maiores escândalos da Casa ao ser preso na Operação Furna da Onça, por suspeita de receber propina num esquema de loteamento de cargos públicos, mas acabou absolvido por falta de provas. Para ele, um dos episódios mais marcantes foi a invasão da Alerj em 2016.
— Quando era secretário, eu lembro que precisei me desincompatibilizar do cargo para voltar à Alerj e ajudar a buscar uma solução. A Alerj foi invadida. Policiais armados subiram na mesa principal, onde fica a presidência. Foi quase uma “Queda da Bastilha”, e não estamos longe de viver isso de novo — diz o deputado, referindo-se ao protesto de servidores contra a votação de um pacote de ajuste fiscal.
Corrêa também conta como era fazer campanha eleitoral sem redes sociais há quase 30 anos, quando se elegeu pela primeira vez. Segundo ele, o mundo digital “deu voz para muita coisa boa, mas para muita coisa não tão boa”.
— Hoje há dois tipos de políticos. O raiz, como eu, é aquele que tem a sua base eleitoral construída em cima de algo concreto, que levou um investimento a um setor, conseguiu um projeto de habitação popular, uma maternidade, enfim, um político que resolve coisas que, de alguma forma, beneficiam as pessoas. E tem aquele que não tem nada disso, ou seja, que nunca fez nada por um município. Eu chamo de político de lacração, que se apega a pautas de costumes que viralizam na internet. Esses ganham até mais votos — comparou.
Especialista em números
Assim como Corrêa, Luiz Paulo (PSD) também será da cota de grisalhos da Alerj na próxima Legislatura. Aos 80 anos, o deputado foi reeleito com 43.720 votos e vai embarcar no seu sétimo mandato. Antes já tinha sido vice-governador e secretário estadual. Especialista em orçamento e respeitado pelos colegas de diferentes partidos, ele consegue se equilibrar mesmo numa Assembleia polarizada.
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— A política mudou radicalmente. Antes, fazíamos comícios domiciliares e panfletagem nas ruas; hoje, a presença nas redes sociais e na grande mídia é indispensável. Além disso, enfrentamos uma polarização extrema que dificulta a atuação no centro. Há vida inteligente além dos extremos — ensina Luiz Paulo.
Nem todos os veteranos romperam a bolha digital. Dionísio Lins (PP) vai deixar a Casa depois de cinco mandatos. Antes, já tinha sido vereador do Rio, com expressiva votação. Sempre atuou em defesa de taxistas e rodoviários. Entre seus projetos está o que proibiu o uso de cavalos e jumentos para tração de cargas na capital.
— Deixo o Parlamento com a sensação de dever cumprido — disse.
Fábio Silva (União) também fecha um longo ciclo na Assembleia. Está em seu sexto mandato. Tinha 26 anos quando se elegeu pela primeira vez:
— Lembro que era a primeira eleição de Flávio Bolsonaro. Ele era o mais jovem deputado eleito e eu o segundo mais jovem. Sou um parlamentar de direita, conservador, que sempre teve princípios. E isso não vem de agora; vem desde 2002, quando fui eleito deputado estadual pela primeira vez.



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