‘O que mais gera conteúdo é crítica, xingamento e ódio’


Expulso nas oitavas de final da Libertadores contra o Independiente Rivadavia-ARG, Agustín Canobbio tinha tudo para ser vilão de uma possível eliminação, mas o Fluminense avançou nos pênaltis. Chateado com o próprio vacilo, o uruguaio se surpreendeu com o discurso de ódio nas redes sociais e condenou o efeito manada. Nas quartas de final, por outro lado, virou herói contra o Platense-ARG, com uma de suas principais armas: a intensidade. Roubou uma bola na defesa e concluiu com gol um contra-ataque letal. O sonho de conquistar a glória eterna justamente em Montevidéu, sua cidade natal, segue vivo. Em conversa com o GLOBO, o uruguaio de 27 anos falou sobre a montanha-russa que é ser jogador de futebol.

Os treinadores elogiam sua entrega em campo. Como vê?

O mais importante é ganhar. Dentro disso, também está fazer gols, recuperar e criar. Às vezes, penso se deveria estar mais fresco para finalizar, mas, se não ajudo atrás, também me cobrariam. É um equilíbrio, porque cada jogo é diferente. No último, foi muito intenso, e eu estava lúcido na hora do gol. Em outro, o campo está pesado, e a perna pesa.

O quanto você se cobra para finalizar melhor?

Estou melhorando e venho fazendo gols. Cada pessoa tem seu conceito sobre futebol ou sobre mim, e eu respeito. Só que alguns, por não terem essa experiência, passam uma visão equivocada para quem pode nem ter assistido à partida. Pegam um lance e falam: “Ah, errou tudo”. Pô, eu não errei tudo, não sou qualquer um. Por isso, é preciso ter cuidado com o que se fala.

Na sua visão, há muitas críticas injustas. Como lida?

É um motor que utilizo para seguir no dia a dia e virar a página. Mas tem que ter cuidado, porque não se sabe o que a pessoa está passando. O torcedor tem direito de falar o que quiser, mas, sem conhecer o que o jogador vive, não acho certo falar da pessoa. Falar do jogador, tudo bem. Agora, dizer que sou burro, sem me conhecer, não acho certo. E hoje, o que mais gera conteúdo? A crítica, o xingamento, o ódio.

Canobbio, do Fluminense, no CT Carlos Castilho — Foto: Alexandre Cassiano

Como Paulo Angioni, diretor de futebol, que morreu semana passada, te ajudou?

Foi ele quem me recebeu. Tivemos muitas conversas. Ele transmitia uma paz no dia a dia. Vivemos dias muito intensos, uma montanha-russa de emoções, e ele chegava para acalmar, sempre chamando na sala de reunião. É alguém que vai ficar marcado para todos. Foi o primeiro a acreditar na gente quando tudo parecia mais difícil.

Em menos de dois anos, como se identificou tanto com o Flu?

É uma coisa que não se busca, é natural. Dentro do campo, se você representa o torcedor, é isso que ele quer. Quando eu era criança, era torcedor do Peñarol e queria me sentir representado. Hoje, tento fazer o mesmo. O Fluminense é uma família, e uma das coisas que mais valorizo é a união. Também é um sonho estar ao lado de ídolos. Venho trabalhando e sonhando para ficar marcado na história do clube.

Esse desejo pesou para ficar após Krasnodar-RUS e River Plate-ARG sondarem?

Foi difícil porque sei que a carreira de jogador é curta. Coloquei o coração e minha vida como atleta na mesa. Estou na melhor idade de um jogador, dos 27 aos 33, 34 anos, e não queria deixar esse momento passar por grana. Acho que tenho uma história muito bonita para construir aqui. Seja boa ou ruim, lá na frente eu vou saber, mas acho que tomei a melhor decisão.

Sua 2ª Copa te valorizou no mercado. Como foi disputar?

Na primeira (2022), entrei por uns 15 minutos no último jogo e fiquei com sangue no olho. Tinha que voltar e cumprir meu sonho de jogar 90 minutos e fazer gol, e assim foi. Fui expulso contra a Espanha, e não foi como a gente esperava, mas foi uma experiência inexplicável.

Canobbio, do Fluminense, tem tatuagem da data do seu primeiro gol em uma Copa do Mundo — Foto: Alexandre Cassiano
Canobbio, do Fluminense, tem tatuagem da data do seu primeiro gol em uma Copa do Mundo — Foto: Alexandre Cassiano

Por que o clima entre elenco e Marcelo Bielsa desandou?

Cada treinador tem uma relação diferente com cada jogador. O Bielsa tinha o jeito dele e, na época, a gente se confrontou pela convivência. Vazou muita informação e fui um dos culpados por passar o que tinha acontecido. Discussões são normais, mas não devem sair do grupo, que é como uma família. Quando não conseguimos a vitória, tudo aumenta, principalmente porque o conteúdo negativo é melhor para a imprensa. Depois, a gente se reuniu e ficou tudo mais tranquilo.

E o que esperar do novo comando de Diego Forlán?

Essa sensação de pertencimento e de fazer uma família, que o maestro (Óscar) Tabárez deixou, é importante ter de volta. Já tinha trabalhado com Diego no Peñarol, mas meu contrato acabou e ele optou por não renovar. Em uma ligação recente, a gente riu um pouco, e ele explicou que não me convocaria porque eu estava suspenso em dois dos três jogos (expulsão contra a Espanha na Copa).

O futebol uruguaio te ajudou a fazer o trabalho pesado?

No Brasil, todo mundo vê o X1 e o drible como uma qualidade técnica dos pontas. Só que existem diferentes formas de passar pelo defensor, como com uma tabela ou atacando o espaço vazio. Muita gente esquece que o futebol é muito mais amplo. Hoje, o ponta também tem funções como ir e voltar, fechar espaços. O futebol exige muita leitura, e eu respeito cada maneira de enxergar o jogo.

Onde aprendeu a desenvolver essa leitura?

Foi com o Rosario Martínez, meu primeiro treinador no profissional, no Fénix-URU, que comecei a trabalhar mais meu lado tático. Ele me colocava no meio e falava: “Volta, porque a gente tem que recompor, atacar”. Na base, eu não era muito de correr. Já jogava como ponta, só que era muito magrinho, pequeno. Depois, fui desenvolvendo mais força e fui me formando como jogador.

O que faz fora de campo para aprimorar a preparação?

Tem todo um estafe por fora. Trabalhar a mente é importante, com coach e psicólogo toda semana. Cada jogador precisa de algo específico, além de acompanhamento médico, exames de sangue, suplementação e aparelhos de recuperação, como manta de LED e bota.



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

Vanderson, do Monaco, é convocado para a seleção brasileira

O técnico Carlo Ancelotti convocou o...

Anunciados os filmes do Distrito Federal vencedores do 28º Troféu Câmara Legislativa

Anunciados os filmes do Distrito Federal vencedores...

FMI: IA pode impulsionar crescimento, mas aumentar tensões econômicas

A inteligência artificial pode elevar a produtividade europeia...

China busca conexão e cooperação entre povos por meio dos grandes rios

A China vem buscando conectar diferentes povos por...

público chega cedo para show de Emicida e Leci com orquestra

Ministério da Cultura, através da Lei...
- Advertisement -spot_img