Das histórias goianas marcantes, o acidente radiológico de Goiânia, em 1987, é o capítulo mais traumático. O Césio-137 deixa, ainda hoje, quase 40 anos depois, marcas de um evento que somou questões técnicas negligenciadas à desinformação para produzir um cenário de emergência radiológica em Goiás.
De setembro em setembro lembramos o evento “superado, jamais esquecido”, como estatui o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
A unidade científica hoje abriga os rejeitos do acidente radiológico e recebe visitantes interessados em conhecer mais sobre a ocorrência. O tema voltou à tona com a série televisiva “Emergência radioativa”, de março deste ano, baseada no acidente em Goiânia e que reavivou as discussões e memórias.
Os que sofreram as consequências da contaminação levam no corpo e nas histórias pessoais as marcas do maior acidente radiológico em área urbana do mundo. Aqueles que trabalharam na descontaminação e resolução da catástrofe trazem consigo a lembrança, os desafios e as experiências de superação que uniram diversos agentes públicos, gestores, políticos e especialistas em busca de respostas técnicas para a sociedade goiana.
Um desses personagens fundamentais é Antônio Faleiros, médico e secretário estadual de saúde à época do acidente com o Césio-137. Em conversa com a Agência Assembleia de Notícias, ele relembrou fatos e acontecimentos que marcaram a gestão estadual durante os eventos emergenciais.
Hoje longe das funções públicas, Faleiros se tornou uma das principais fontes de informação sobre o acidente radiológico de Goiânia. O ex-secretário foi, ainda, deputado estadual e federal por Goiás.
O então chefe da pasta da Saúde afirma que as primeiras informações sobre o ocorrido chegaram à Secretaria Estadual de Saúde como rumores de uma doença incomum em uma única família no Setor Aeroporto, em Goiânia.
Faleiros faz questão, ainda hoje, de rebater insinuações de que houve ocultação do acidente com o Césio-137 por ocasião do Grande Prêmio de Motovelocidade realizado em Goiânia, naquele ano. “Essa história de que insistiram para esconder, não é verdade”, declarou. Os boatos e desinformações, segundo ele, foram grandes obstáculos enfrentados pelas equipes técnicas ao longo de todo o trabalho na solução da catástrofe.
Após a notificação à Vigilância Sanitária no dia 28 de setembro, no dia seguinte, 29, foi confirmado, com o uso de detectores de radiação, que se tratava de uma emergência radiológica. Para o ex-secretário de saúde, a sensibilidade do governador Henrique Santillo, que também era médico, foi determinante para a condução dos esforços.
“Ninguém imaginava”, afirma Faleiros ao reforçar o ineditismo do ocorrido e o caráter emergencial da situação. De imediato, toda a estrutura de Governo, em especial a Secretaria de Saúde, foi disponibilizada para as ações iniciais, que envolveram o mapeamento dos pontos atingidos e das pessoas contaminadas com o Césio-137.
Antônio Faleiros lembra que foram as forças estaduais que assumiram, inicialmente, as frentes de trabalho, e que a presença de autoridades da CNEN e de outros órgãos viria apenas dias depois.
As pessoas contaminadas foram encaminhadas ao Estádio Olímpico, onde ficaram em quarentena para descontaminação e acompanhamento. As pessoas que precisaram de atendimento médico foram levadas para o Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT).
Faleiros explica que foi necessária uma ala específica para os radioacidentados, de forma a garantir a segurança dos demais pacientes do hospital. Os casos mais graves, a exemplo da menina Leide das Neves, foram encaminhados ao Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, único à época com protocolos específicos para radioacidentados, por conta da atuação junto à usina nuclear de Angra dos Reis.
Estigmas
Quando perguntado sobre os impactos sociais e econômicos, Faleiros vê os estigmas associados aos goianos à época como mais marcantes. Ele relembra um caso pessoal vivido à época por ele em Brasília quando, após uma crise de cálculos renais, precisou de um taxi para se dirigir a um hospital. Ao se identificar como secretário de Saúde de Goiás, o taxista não permitiu que ele entrasse no veículo.
A imagem e percepção a respeito de Goiás e dos goianos foi o mais marcante para o gestor público. Ele relembra uma série de ações e campanhas junto a personalidades e artistas de renome, a exemplo de Siron Franco e do jornalista Washington Novaes, em busca de melhorar essa imagem estadual.
Mas os impactos também se deram no campo econômico. Faleiros lembra que o Governo vinha de seis planos econômicos frustrados, e por isso a “economia já não ia muito bem” quando ocorreu o acidente de Goiânia. Com o Césio-137, as exportações estaduais reduziram bastante, uma vez que alguns estados não permitiam a entrada dos produtos goianos.
Comunicação
Antônio Faleiros destaca que a comunicação foi um dos eixos principais de atuação ao longo de todos os procedimentos. Em uma época em que as informações não eram de fácil acesso, posicionar-se como fonte oficial para abastecer imprensa e sociedade foi uma decisão primordial, aponta o gestor.
Ele aponta fatores críticos como a comparação ao acidente de Chernobyl, no ano anterior, e a falta de compromisso ético de alguns veículos de comunicação. A diferença nas abordagens entre mídias goianas e nacionais foi algo que chamou a atenção de Faleiros, que passou a convocar entrevistas coletivas diárias para atualizar, de forma oficial, números e dados do acidente.
Com isso, segundo o ex-secretário de Saúde, os veículos passaram a entender a seriedade do caso e, progressivamente, contribuir para superar as comunicações negativas sobre o acidente.
Em janeiro de 1988 as áreas atingidas foram declaradas como descontaminadas e passaram a integrar um monitoramento periódico, que é feito até os dias atuais pela CNEN. Para Faleiros, a experiência deixou uma lição para as comunidades civil e científica: “É preciso ter clara a fiscalização sobre esse tipo de material”. Após o acidente radiológico de Goiânia, os protocolos de cadastramento, fiscalização e vigilância sobre materiais radioativos foram atualizados em todo o país.
Reajuste de pensões
A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) aprovou, recentemente, o reajuste das pensões especiais concedidas às pessoas irradiadas ou contaminadas no acidente com o Césio-137, em Goiânia, que tramitou sob o nº 4577/26.
A alteração na Lei nº 14.226/02 atualiza os valores pagos aos beneficiários que atuaram na descontaminação da área afetada; na vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente radioativo.
As pensões especiais passam de R$ 1.908,00 para R$ 3.242,00, para os radiolesionados pelo contato direto com a substância radioativa césio-137 e para os que receberam irradiação superior a 100 RAD.
Memorial
Também foi aprovada na Alego a criação do Memorial às Vítimas do Acidente Radiológico com Césio-137, por meio do projeto de lei nº 3642/24. A iniciativa dispõe sobre a construção de um monumento memorial em forma de obelisco a ser instalado em Goiânia, preferencialmente em áreas de grande circulação, na Praça do Trabalhador ou no Setor Aeroporto (local do acidente).
O autor da propositura, deputado Karlos Cabral (PSB), explica que a ideia é simbolizar todas as vítimas a partir de um marco geográfico. O parlamentar requer, também, que um marco histórico seja instituído no dia 13 de setembro, para que, na data, sejam anualmente prestadas honras cívicas e militares perante o monumento, com a participação de representantes dos Três Poderes, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás.



