Audiência na Casa de Leis discute dados sobre o avanço do desmatamento e a preservação do Cerrado em Goiás


A Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Casa de Leis realizou na manhã desta quarta-feira, 2, na Sala das Comissões Júlio da Retífica, audiência pública em parceria com o Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento (Lapig). O Lapig é um centro de pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG), vinculado ao Instituto de Estudos Socioambientais (IESA). Fundado em 1994, ele é referência nacional e internacional no monitoramento de biomas, uso da terra, desmatamento e pastagens por meio de imagens de satélite.

O presidente da comissão, deputado Antônio Gomide (PT), abriu o evento e ressaltou a trajetória de mais de 30 anos do Lapig e a atuação do laboratório em parceria com universidades e centros de pesquisa do Brasil e do exterior. Durante a reunião, foram apresentados dados sobre o uso e a cobertura da terra no Cerrado goiano, além de informações relacionadas ao monitoramento de queimadas e do desmatamento.

Segundo o parlamentar, a audiência reforçou a importância de aproximar a produção científica do debate público, utilizando dados e pesquisas para compreender as transformações no território e subsidiar a construção de estratégias mais eficientes para a preservação e proteção do Cerrado goiano.

Desmatamento

Posteriormente a coordenadora do Lapig,  professora Elaine Barbosa  apresentou  um panorama do desmatamento no Cerrado e, especificamente, em Goiás. Segundo os dados apresentados, houve uma mudança significativa no perfil do desmatamento a partir de 2023. Enquanto a Amazônia registrou naquele ano uma redução de mais da metade no desmatamento em relação ao período anterior, o Cerrado apresentou aumento expressivo. Entre 2024 e 2025, a redução chegou a quase 43% na Amazônia, enquanto o bioma teve queda de apenas 1,2%.

Apesar da redução nos índices, Elaine alertou que o cenário ainda é crítico e exige atenção. A análise espacial dos dados mostra a permanência de grandes áreas de supressão da vegetação, principalmente no Cerrado. Em Goiás, os alertas de desmatamento apresentaram redução de 4,4%, mas a pressão sobre a vegetação nativa permanece.

No período de 2019 a 2025, foram identificados quase 272 mil hectares de vegetação desmatada em Goiás, distribuídos em aproximadamente 12 mil polígonos. Somente em 2025, foram quase 12 mil hectares desmatados em mais de 500 áreas. Os registros apresentam concentração em diferentes regiões do Estado, com destaque para municípios como Niquelândia, Minaçu, Flores de Goiás, Cristalina, Aporé, Sítio d’Abadia, Ipanerí, Porangatu, Mineiros e São João d’Aliança.

A coordenadora também chamou atenção para a situação das áreas desmatadas com e sem autorização. Do total identificado no período analisado, apenas cerca de 40 mil hectares passaram por autorização, enquanto a maior parte das áreas registradas não possuía autorização. Para Elaine, os números reforçam a necessidade de fortalecer a fiscalização ambiental e aprimorar o acompanhamento das áreas de vegetação nativa.

A apresentação também detalhou ocorrências de grandes desmatamentos registrados em diferentes anos. Em 2019, uma das áreas de maior supressão ocorreu em Damianópolis, atingindo reserva legal e unidade de conservação. Em 2020, Cavalcante registrou uma área superior a mil hectares desmatados, também com incidência sobre áreas protegidas.

Em 2021, Flores de Goiás apareceu entre os municípios com maiores registros, com parte significativa da área atingindo reserva legal. Já em 2022, Alvorada do Norte e Sítio d’Abadia tiveram ocorrências associadas à exploração pecuária.

Elaine destacou que o monitoramento permite identificar onde e em quais períodos o desmatamento ocorre com maior intensidade, contribuindo para o direcionamento das ações de fiscalização. A pesquisadora ressaltou que a redução dos índices deve ser considerada um avanço, mas não significa que o problema esteja resolvido. Para ela, o objetivo deve ser chegar ao desmatamento zero e concentrar esforços, posteriormente, na recuperação das áreas degradadas e na recomposição da vegetação do Cerrado.

 Queimadas aumentam em 2026

Ao abordar as queimadas, Elaine Barbosa explicou que, embora o fogo faça parte da dinâmica natural do Cerrado, a concentração das ocorrências em determinados períodos indica também a influência de práticas humanas, como a limpeza de pastagens e de áreas destinadas ao cultivo. Segundo os dados apresentados, os incêndios costumam se intensificar nos meses que antecedem o período de preparação para o plantio.

Em 2025, Goiás registrou mais de 80 mil hectares de áreas queimadas. Já em 2026, até setembro, o número apresentava aumento de 24% em relação ao mesmo período do ano anterior. A pesquisadora destacou especialmente o crescimento registrado nos meses de maio e junho. Em junho de 2025, foram aproximadamente 20 mil hectares atingidos pelo fogo, enquanto, em junho de 2026, o número chegou perto de 35 mil hectares.

Cavalcante liderou o ranking dos municípios goianos com maior área queimada em 2025, seguido por Niquelândia, Ponte Alta do Bom Jesus, Mineiros, Padre Bernardo, Colinas do Sul, São João d’Aliança, Formosa, Gameleira de Goiás e Mambaí. A concentração das ocorrências na região Nordeste de Goiás, segundo Elaine, coincide com áreas que também apresentam elevados índices de desmatamento.

A análise mostrou ainda que as formações florestais do Cerrado estão entre as áreas mais atingidas pelas queimadas, seguidas pelas formações savânicas. Também foram identificados focos em áreas de pastagem, agricultura, silvicultura e formações campestres. A pesquisadora chamou atenção para o impacto das queimadas sobre a vegetação nativa e para a perda de biomassa provocada pela intensidade do fogo.

De acordo com a análise de severidade apresentada, parte significativa das áreas atingidas registrou níveis elevados de intensidade das queimadas. Esse cenário pode comprometer a capacidade de regeneração natural da vegetação e contribuir para o processo de degradação do Cerrado goiano.

Elaine ressaltou que a repetição das queimadas e a elevada intensidade do fogo vêm alterando gradualmente a cobertura vegetal em algumas regiões. Como exemplo, citou áreas próximas ao trajeto entre Goiânia e Anápolis, onde, segundo sua observação, a vegetação tem se tornado progressivamente mais rala ao longo dos anos em razão da recorrência e da intensidade das queimadas.

Proteção

Na parte final da apresentação, Elaine Barbosa destacou a importância das unidades de conservação de proteção integral e dos parques estaduais como instrumentos para preservar o Cerrado. Segundo os dados apresentados, Goiás possui cerca de 13 parques que, somados, representam menos de 0,4% do território estadual. A pesquisadora chamou atenção para a dimensão reduzida dessas áreas diante da extensão do Estado e para a ocorrência de pressões ambientais dentro e no entorno de unidades que deveriam estar protegidas.

Elaine também apresentou o trabalho de elaboração do Atlas de Remanescentes da Vegetação do Estado de Goiás, iniciativa considerada pioneira pelo Lapig. O projeto busca identificar quais fitofisionomias do Cerrado ainda permanecem no território goiano e onde estão localizadas, utilizando uma escala de alta definição. A ferramenta deverá contribuir para ações de fiscalização, licenciamento ambiental, planejamento territorial e monitoramento da vegetação nativa.

Outra iniciativa apresentada foi a coleção dos biomas brasileiros, desenvolvida com apoio da Rede MapBiomas e da Assembleia Legislativa. O material reúne informações sobre elementos naturais e territoriais, como relevo, geologia, geomorfologia, ocupação do território, povos tradicionais, clima e recursos hídricos, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre os diferentes biomas.

A coordenadora também destacou ações de educação ambiental realizadas em escolas, parques, feiras e outros espaços públicos. As atividades apresentam à população como as geotecnologias podem contribuir para compreender o território e apoiar a preservação do Cerrado.

Entre os projetos citados está ainda o Atlas Digital do Caminho de Cora, que reúne informações ambientais, territoriais e de uso e cobertura da terra ao longo do percurso que atravessa municípios do Cerrado goiano. A proposta é utilizar a ferramenta como instrumento pedagógico e turístico, aproximando a população do patrimônio natural e estimulando o conhecimento sobre as áreas de preservação.

Ao concluir a apresentação, Elaine Barbosa reforçou que o mapeamento do Cerrado é fundamental, mas que a produção de dados precisa resultar em ações concretas. As informações produzidas pelo Lapig podem subsidiar políticas públicas, fortalecer a fiscalização, orientar o planejamento territorial e apoiar iniciativas de conservação e educação ambiental em Goiás.



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