Augusto Cury em sabatina: reforma do STF e taxação pesada de big techs

Um dos candidatos à Presidência que nunca tiveram cargo eletivo, o psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante) evitou ontem se classificar como de direita ou esquerda. Ele preferiu dizer que tem “mente capitalista” e “coração social”, mas acabou defendendo ideias mais alinhadas à direita na última sabatina com presidenciáveis dos jornais O Globo e Valor e da rádio CBN.
O candidato avaliou, por exemplo, que algumas penas impostas aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 foram excessivas, mas não quis se comprometer com uma anistia. Afirmou que, se for eleito presidente, vai criar uma comissão com juristas para avaliar se houve injustiça e se seria o caso de ele, na Presidência, conceder a anistia, como prometem outros candidatos. E foi mais crítico ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que ao bolsonarismo.
Perguntado sobre quem preferiria como rival num hipotético segundo turno, caso consiga saltar do bloco de candidatos com um dígito nas pesquisas diretamente ao segundo lugar, admitiu que escolheria o petista em vez do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, a quem fez uma rápida cobrança de explicações sobre sua relação com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
O médico que ficou conhecido com livros e palestras sobre desenvolvimento comportamental, localizou sua principal crítica a Lula no fato de a qualidade da educação não ter avançado significativamente sob o PT. E questionou o que vê como insistência do petista em se manter no poder.
Ao longo da conversa de uma hora e meia com o âncora da CBN Mílton Jung, os colunistas do GLOBO Malu Gaspar e Lauro Jardim e a colunista do Valor Maria Cristina Fernandes, Cury mostrou-se várias vezes orgulhoso da condição de “psiquiatra mais lido do mundo”, citando milhões de livros vendidos e títulos traduzidos em 70 países, mas rejeitou o rótulo de autoajuda.
Disse ter decidido entrar na política por acreditar que sua experiência profissional o credencia para uma negociação política em novas bases, afastada da atual polarização. Repetiu várias vezes a ideia de um “pacto político” que, se eleito, proporia inclusive aos partidos do Centrão. Admitiu o fisiologismo como um obstáculo, mas acenou para o bloco de partidos de direita classificando-o como responsável por dar equilíbrio à política brasileira, evitando que o país virasse “uma Venezuela”.
No estúdio da Redação do Globo, o escritor se disse contra a reeleição e decretou o esgotamento do presidencialismo. Cury defendeu a adoção de um modelo parlamentarista ou semipresidencialista. Numa campanha em que vários candidatos fazem críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), disse ser o único a propor uma reforma séria da Corte, com o fim do cargo vitalício e a instituição de mandatos de oito anos.
Popular nas redes sociais, o candidato do Avante também disse se preocupar com os efeitos negativos de plataformas digitais e afirmou que, num eventual governo, taxaria as big techs por trás delas de forma pesada, como se faz com o cigarro. Ao analisar os males das redes para as crianças, recomendou que os pais promovam um “jejum” aos fins de semana para evitar o vício.
Assim como outros candidatos, Cury foi mais genérico na hora de analisar a economia. Reconheceu a necessidade de ajustar as contas públicas, mas deu poucos detalhes de onde viriam cortes. Citou como primeiro passo uma auditoria em programas sociais. Admitiu privatizações, mas sem radicalismo. Na segurança, delineou uma pauta de integração de forças de segurança nos três níveis da federação, incluindo incentivos a guardas municipais.
A série de sabatinas com os presidenciáveis começou na terça-feira com Romeu Zema (Novo), seguiu nos dias seguintes com Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), e foi encerrada ontem por Cury. Todas as entrevistas foram transmitidas ao vivo pela CBN e pelas redes sociais de O Globo e Valor. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não aceitaram o convite.
Reforma do STF
Perguntado sobre como via a possibilidade de impeachment de ministros do STF, Cury disse que a medida deve ser aplicada se um integrante da Corte “comete erros”, mas logo emendou dizendo que é o único candidato com um projeto de reforma séria do colegiado.
Ele propõe uma redução do número de magistrados dos atuais 11 para 9 na cúpula do STF, com mandatos de oito anos. Afirmou que indicaria mulheres para as próximas vagas abertas e que nomes com menos de cinco anos sem filiação partidária estariam vetados. O candidato do Avante também defendeu reservar cotas específicas no STF para magistrados e advogados de carreira indicados em listas tríplices por entidades corporativas do mundo jurídico, como a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Questionado pelos entrevistadores se isso não seria entregar a Corte aos interesses corporativistas da categoria, Cury respondeu que essas associações são mais competentes que o presidente para escolher ministro para o STF, como preconiza atualmente a Constituição.
— Quem deveria escolhê-los não é o presidente, mas as próprias classes, que devem ser honradas — afirmou. — O presidente interfere demais no STF, e o STF está legislando em vez de ser o guardião da sociedade.
Em autocrítica, alegou que a defesa de eleição direta para ministro do STF que fez no passado não passou de “causa indignada” que não endossa mais.
Anistia
Augusto Cury relutou em dar uma opinião pessoal sobre e existência de crime na trama golpista que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e a depredação das sedes dos Três Poderes no 8 de janeiro de 2023.
— Não me coloque no centro dessa guerra política — pediu, para escapar da “polarização esquizofrênica”
Com a insistência dos entrevistadores, Cury disse que só decidiria por uma anistia depois de ouvir uma comissão de juristas, já que considera que os julgamentos em si não bastaram.
— Vou convidar um grupo de juristas notáveis do Brasil e de fora para ver se teve vício nos processos, se teve ou não tentativa de golpe e se houve penas desproporcionais. Na minha opinião, houve várias condenações desproporcionais, inclusive a da “Débora do Batom”
Ele se referiu ao caso de Débora Rodrigues dos Santos, presa por escrever com um batom a mensagem “Perdeu, mané” na estátua em frente à sede do STF. Ela foi condenada a 14 anos de prisão, que cumpre em caráter domiciliar, não só pelo ato de vandalismo, mas por crimes contra a democracia no contexto dos atos de 8 de Janeiro.
Visões políticas
Questionado se é de direita ou de esquerda, Cury se esquivou de assumir uma posição do espectro político. Disse que tem “mente capitalista” e “coração social”. Criticou o que considera um país “dividido, doente, polarizado”. Mas, instado a dizer quem preferiria encarar num segundo turno. Escolheu Lula em vez de Flávio Bolsonaro:
— Queria trazer uma série de números para ele, para que ele pudesse me explicar. Por que 95% dos nossos jovens não aprenderam matemática direito no ensino médio? Agora ele quer consertar a educação, mas junto com a Dilma (Rousseff) teve quase 20 anos.
Apesar de admitir ser difícil dar um salto nas intenções de voto em pouco tempo, não quis conjecturar quem apoiaria em um segundo turno entre Lula e Flávio. E voltou a Lula ao questionar a necessidade de um quarto mandato para o presidente. E usou uma frase de efeito de um de seus livros para iniciar o raciocínio:
— A vida é bela e breve como gotas de orvalho, que num instante aparecem e logo se dissipam — disse. — Será que ele não percebe que daqui a pouco vai para a solidão de um túmulo? O legado que tem que deixar não é estar acima dos outros.
No entanto, ao insistir na tese de que é preciso reduzir a polarização, contou que está escrevendo uma carta conciliadora, pedindo o fim da polarização, que será enviada a Lula e Flávio ainda no primeiro turno.
— A beleza da democracia está na divergência, não na construção de inimigos — afirmou.
Ainda na toada política, negou que esteja “em cima do muro”:
— A vida inteira eu fiz política, treinei líderes políticos, empresariais, da polícia, da magistratura. A política é a arte de construir pontes. Não estou em cima do muro. Eu saí candidato para destruir esse muro.
Em outro momento, chamado a definir Flávio, afirmou que o senador precisa explicar os áudios em que o senador pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O escritor se colocou contra o “câncer da reeleição” e favorável à implementação de um modelo parlamentarista ou semipresidencialista no país. Avaliou que, na prática, isso já existe, dado o empoderamento e autonomia do Legislativo por meio das emendas ao Orçamento. Optar pelo parlamentarismo oficializaria a mudança e imporia a um primeiro-ministro o ônus de enfrentar moções que possam lhe custar o cargo, afirmou.
— Tem que ter um primeiro-ministro chancelado pelo Congresso, que hoje já tem muito peso. Vivemos um parlamentarismo de fato, mas não de direito — afirmou. — Se tem o bônus, vamos dar o ônus. Se o primeiro-ministro for impopular e corrupto, recebe uma moção de desconfiança e cai.
Uma vez presidente, Cury disse que cortaria ministérios e fortaleceria secretarias executivas no segundo escalão. Repetiu a ideia de propor “pacto nacional” e chamaria “os melhores” para integrar o governo. Além de técnicos, disse que simpatiza com políticos como o também presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), que poderia ser um “xerife” na segurança, e o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD). Em relação ao ex-candidato à Prefeitura de São Paulo Pablo Marçal, que declarou gostar do escritor, Cury alegou que, “apesar da amizade”, nunca pensou em chamá-lo para compor o eventual governo.
Segurança
Segundo Cury, o Brasil precisa de um “pacto nacional” na área da segurança. Ele prometeu integrar as forças policiais do país por meio de um programa chamado “Fato” (Força de Alerta Total). A medida mais ousada, contudo, envolve a criação de uma força chamada “Foco”, que teria caráter municipal.
O Foco seria uma espécie de Guarda Municipal, mas com coordenação nacional e se valendo de servidores dos municípios brasileiros. Ele estima o montante de profissionais em 400 mil, valendo-se de 5% da força de trabalho das cidades, mas deu poucos detalhes de como funcionariam a captação e o treinamento desses novos policiais.
— Pior do que o crime organizado é o Estado desorganizado. Precisamos encorpar, treinar e valorizar a Polícia Federal — disse ainda o presidenciável. — Temos que integrar todas as polícias. Ter reconhecimento facial, material genético, um sistema de informações para que todas as polícias possam estar de fato integradas e dar respostas muito mais rápidas.
Nessa linha, mostrou-se a favor da PEC da Segurança, proposta de emenda constitucional que está prestes a ser votada no Senado, para dar mais poder à União nessa área. Também se disse contrário a armar a população e simpático às câmeras nas fardas policiais, em um dos poucos momentos de inclinação mais à esquerda.
— Se você tem um país responsável, integrado, inteligente, não vai precisar disponibilizar armas para a população. Claro que em situações de maior vulnerabilidade, como na área agrícola, pode ser diferente — apontou. — Sou a favor das câmeras. Porque se 2% (dos policiais) cometem crime, eles têm que ir à Justiça. Mas 98% dos policiais são honestos e colocam a vida em risco. A câmera funciona até para protegê-los.
Redes sociais e big techs
O psiquiatra classificou como perigoso o uso excessivo das redes sociais, às quais atribuiu alterações no comportamento, “no ciclo da dopamina”. Segundo ele, plataformas digitais podem provocar dependência entre crianças e adolescentes e aumentar quadros de ansiedade e irritabilidade. Apesar das críticas, afirmou que não defende derrubar as plataformas, mas sim taxá-las pesadamente, como se faz com os cigarros.
— Temos que taxar em níveis como se fosse cigarro. Se gera dependência, vamos colocar uma taxação altíssima — afirmou. — Faço um pedido aos pais: o ideal nos fins de semana é fazer jejum digital. Milhões de jovens são órfãos de pais e ficam nos celulares, é um problema de saúde pública. Se soubesse a dor que tenho de ver um adolescente se automutilando… A síndrome comparativa nas redes sociais é cruel.
Sobre o caso recente de uma jovem que se matou após ser exposta a conteúdo impróprio em um grupo do Discord, afirmou:
— Não sou a favor de banir o Discord. Sou a favor de, se provar que qualquer adolescente atentou contra a própria vida ou se automutilou, (a plataforma) pagar milhões de dólares.
Olhando para a câmera, ele chegou a dar uma mensagem direta ao dono da Meta, gigante americana dona de redes como Facebook e Instagram:
— Mark Zuckerberg, eu vou levar você para um tribunal internacional, você e todos os líderes, porque afetou a saúde mental das crianças e adolescentes no mundo todo — afirmou.
Cury disse que não pretende taxar ou restringir a atuação de criadores de conteúdo e até defendeu que integrantes do poder público, como integrantes do Itamaraty, usem as redes para “vender o Brasil” no exterior.
Economia
O candidato do Avante repetiu várias vezes que é um defensor da meritocracia e defendeu crédito para incentivar pequenos empreendedores.
Assim como a maioria dos candidatos, Cury reforçou a necessidade de um ajuste fiscal, mas de forma genérica. Disse que é preciso fazer uma auditoria para saber onde pode haver cortes, repetiu que pretende taxar mais as big techs e bets e refutou a ideia de aumentar impostos:
— Não, pelo amor de Deus. Já arrecadamos demais.
Gastar menos do que arrecada, apontou, é fundamental para criar um ambiente favorável à queda da Selic, a taxa básica de juros. E citou medidas “simbólicas” que têm peso pequeno no Orçamento, como a economia com cartão corporativo e com energia nos palácios, e reforçou que é preciso mudar a lógica das emendas parlamentares:
— Não podem ser aleatórias, têm de ter indicadores de eficiência. Se você faz isso, otimiza processos.
Ao se comparar com alguns rivais, considerou a posição de “privatizar tudo” de Romeu Zema (Novo) muito radical. Quer privatizar algumas “estatais ineficientes”, mas com mais cuidado.



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