O celular entrou na cama, e agora ninguém transa

Antigamente, quando duas pessoas iam para a cama juntas, existia uma expectativa razoável de que alguma coisa acontecesse. Não necessariamente uma noite digna de cinema, porque a vida real tem câimbra, refluxo, cachorro latindo e alguém que deixou a luz do banheiro acesa. Mas havia, ainda sim, uma possibilidade.
Hoje, o casal se deita, apaga a luz e cada um pega o celular. Pronto. A noite romântica acaba de ganhar dois acompanhantes.
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Ela está vendo uma mulher organizar a geladeira por cores. Ele está acompanhando um homem na Indonésia construir uma piscina com um pedaço de pau. Nenhum dos dois pretende organizar a geladeira nem construir uma piscina, muito menos usando um pedaço de pau. Mesmo assim, assistem hipnotizados, enquanto a libido fica sentada na beirada da cama, esperando ser chamada.
Não será.
O celular virou o maior rival sexual da atualidade. E é um rival difícil de combater porque não ronca, não esquece aniversário e sempre oferece alguma novidade. Você olha para a pessoa com quem vive há vinte anos e já conhece até o barulho que ela faz quando vai espirrar. Depois olha para o celular e ele promete: “Você não vai acreditar no que aconteceu depois, clica só para você ver”.
A pessoa acredita e clica.
O desejo, coitado, não trabalha com esse tipo de marketing. Ele não manda notificação dizendo: “Seu parceiro está disponível por tempo limitado”. Também não aparece uma contagem regressiva na testa de ninguém: “Aproveite agora, antes que ele durma de boca aberta”.
O resultado é que muitos casais não perderam exatamente o desejo. Perderam a atenção.
Para haver intimidade, é preciso que duas pessoas estejam no mesmo lugar, de preferência ao mesmo tempo. Parece simples, mas atualmente uma pode estar na cama e, mentalmente, acompanhando uma discussão entre desconhecidos sobre a maneira correta de cortar cebola.
O outro até tenta iniciar uma aproximação:
— Amor…
— Só um minutinho.
Esse “só um minutinho” já acabou com mais noites de amor do que dor de cabeça, boleto atrasado, filho acordado e jantar indigesto reunidos.
O minuto vira vinte. Quando finalmente o celular é colocado de lado, a pessoa que tomou a iniciativa já desistiu, virou para a parede e já está sonhando com uma transa quente, com seu ator ou atriz predileto.
E ainda existe o algoritmo, essa criatura que conhece nossas fraquezas. Ele sabe exatamente o que mostrar para impedir qualquer aproximação, melhor anticoncepcional do mundo! Quando você pensa em desligar, aparece um vídeo chamado: “Dez sinais de que sua samambaia está emocionalmente abalada”.
Você nem tem samambaia, mas precisa saber, vai que no futuro tenha.
Talvez os casais modernos precisem estabelecer um novo tipo de preliminar: deixar os respectivos celulares na sala.
Será um gesto radical. No começo, os dois ficarão na cama sem saber o que fazer com as mãos. Talvez conversem. Talvez se olhem. Talvez descubram que ainda gostam um do outro e que, por baixo do pijama velho e das reclamações sobre a conta de luz, existe vida.
Não é necessário abandonar a tecnologia, fugir para o mato ou destruir o aparelho com um martelo. Basta lembrar que o celular possui botão para desligar. Seu relacionamento também possui e, não raro, silenciosamente se desliga e nem sempre é tão fácil ligá-lo novamente.
O desejo não exige iluminação especial, roupa cara ou desempenho olímpico. Às vezes, ele só precisa de alguns minutos sem interrupções, duas pessoas presentes e nenhuma delas interessada em descobrir por que a samambaia está triste.
Afinal, se alguém deve perder o sono na cama, que seja por uma razão melhor do que assistir a um desconhecido limpando tapete às duas da manhã.
Vídeo sugerido:



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