Parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense reúne 13 municípios. Abriga algumas das maiores cidades em número de eleitores do estado, além de ser palco de disputas importantes para compreendermos as eleições deste ano. A segurança pública aparece como o principal problema para os moradores. Mas transportes, saúde e infraestrutura também tiram o sono da população.
A partir de uma análise de publicações dos principais perfis de notícias locais nas redes sociais, é notável o destaque de relatos sobre temas ligados à segurança. São citados a atuação da Força Municipal Armada em Duque de Caxias e apreensões de armas em Belford Roxo, além de crimes cometidos na região. Furtos de cabos de energia em Caxias e operações contra o tráfico em Nova Iguaçu, incluindo apreensões de drogas, preocupam os moradores. As notícias locais ainda destacam obras e programas culturais. Contudo, o tema da segurança é o de maior presença nas publicações.
A violência na região está refletida nos dados oficiais. Segundo o Panorama de Segurança Pública do Estado do Rio 2015 – 2025, feito pela Federação das Indústrias do Estado (Firjan), 57 mil pessoas foram mortas entre 2015 e 2025.
Quando olhamos para a Baixada Fluminense, a violência é expressa nos números. Em Belford Roxo, em 2025, ocorreram 1.645 roubos de rua. Em Nova Iguaçu e Duque de Caxias, os números sobem para 3.689 e 4.157 no mesmo período. No caso de crimes de letalidade violenta, Belford Roxo registrou 148 mortes. As estatísticas em Nova Iguaçu, por sua vez, indicaram 250 mortes violentas. Já em Caxias, 275 assassinatos.
Os três candidatos a governador com maiores intenções de voto, Eduardo Paes (PSD), Douglas Ruas (PL) e Anthony Garotinho (Republicanos), destacam a segurança nos planos de governo. Paes afirma que vai realizar ações conjuntas com as Forças Armadas e investigações que rastreiem o caminho do dinheiro do crime organizado. Ruas também coloca a retomada dos territórios como um dos pilares, com policiamento e monitoramento pensados de modo diferenciado para cada comunidade. A retomada de territórios dominados por facções também é proposta por Garotinho, que pretende criar um batalhão com 5 mil homens para operações de ocupação.
Costuras de apoio
A liderança de Paes nas pesquisas é um reflexo de decisões estratégicas. Na região, a aliança com a família Reis, de Duque de Caxias, expressa pela escolha de Jane Reis (MDB) como vice, foi central para estabelecer a presença dele no terceiro maior colégio eleitoral do Rio de Janeiro. Jane é irmã de Washington Reis, líder do clã familiar e ex-prefeito. Paes ainda se aliou ao grupo do ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP). Já Garotinho traz a aliança com o ex-prefeito de Belford Roxo e candidato ao Senado, Waguinho (Republicanos). Ruas tem dialogado, por enquanto, com sua base. O candidato é filho de Capitão Nelson (PL), prefeito de São Gonçalo, na Região Metropolitana.
Duque de Caxias, com 635.079 eleitores aptos em 2026, é o terceiro maior colégio eleitoral fluminense, atrás do Rio, com 4.950.429, e de São Gonçalo, 653.494. O quarto maior colégio também está na região: Nova Iguaçu, com 615.377. Outro município relevante politicamente e com expressivo eleitorado é Belford Roxo. São 346.337 votantes. Nas três cidades, 54% do eleitorado são mulheres e 46% homens.
A Baixada Fluminense tem o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) médio de 0,5316 (14,6% inferior à média do estado, 0,6224). É o pior desempenho entre as regiões (veja quadro nesta página). O índice avalia educação, saúde, emprego e renda.
Baixada Fluminense tem o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) médio de 0,5316
Editoria de Arte
Entenda as alianças políticas
As alianças políticas na Baixada Fluminense apresentam, acima de tudo, uma dinâmica em que as articulações não estão presas à disputa nacional entre o petismo e o bolsonarismo. As movimentações da política local mostram uma independência de lideranças políticas e que suas articulações são muito mais ditadas por cálculos e interesses regionais do que por embates de uma polarização nacionalizada.
Podemos notar isso na aliança do candidato do PSD ao Palácio Guanabara, o ex-prefeito Eduardo Paes, com Washington Reis (MDB). O ex-prefeito de Duque de Caxias foi secretário estadual de Transportes do governo Cláudio Castro e é aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto Paes construiu uma chapa em acordo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Washington Quaquá, prefeito petista da cidade de Maricá, na Região Metropolitana.
Os personagens da Baixada Fluminense que vemos envolvidos na disputa eleitoral não são novidade no cenário político: todos estão ligados à região de alguma forma e alinhados aos candidatos ao governo do estado, que, sejam eles mais ou menos conhecidos pela população, entendem do jogo político e têm trajetória política no Rio.
Podemos entender que a Baixada Fluminense não é apenas um território importante quanto ao número de votos, mas também uma região que concentra lideranças locais relevantes para as articulações políticas dos candidatos ao Palácio Guanabara. Cabe aos candidatos, portanto, calcular bem as suas movimentações nesse xadrez político.
O que a população quer para a região
Tuanny Goulart
Arquivo pessoal
Treze cidades, reclamações em comum que se repetem a cada eleição. Quem mora na Baixada Fluminense espera do novo governador investimentos na região.
— Melhorar segurança, saúde e transporte, além de mais investimentos em infraestrutura, drenagem, asfalto e prevenção de alagamentos. Que o novo governador cumpra o que prometer — cobra a empresária Tuanny Goulart, de 36 anos, de Nova Iguaçu.
— Na verdade, espero pouco. Mas, no fundo do coração, ainda tenho a esperança de que o governador eleito faça algo importante pensando nas necessidades de todos — diz a dona de casa Cristina do Nascimento, de 56 anos, vizinha de Tuanny.
— O maior problema é a Saúde. Muito difícil o atendimento, as pessoas ficam muito tempo numa espera que às vezes não acontece. O SisReg é injusto — reclama a aposentada Sonie Gruschke, de 64 anos, moradora em Mesquita.
*Doutoranda em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/UFRJ), sob a supervisão de Marcelo Remigio
PROJETO TAMO JUNTO: É uma parceria do EXTRA com o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em que jornalistas e pesquisadores focalizam o processo eleitoral deste ano em sete regiões do Estado do Rio de Janeiro, abordando problemas, apontando soluções e apresentando propostas dos planos de governo dos principais candidatos.
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