rivais em campo, Colômbia e RD Congo se reconhecem na música


Colômbia e República Democrática do Congo estão distantes no mapa cerca de 10 mil quilômetros, separadas pelo território brasileiro e pelo Oceano Atlântico. A lonjura — e a logística complexa de viajar entre os países, que não têm voos diretos entre si — não impediu que os rivais na Copa do Mundo compartilhassem semelhanças numa de suas principais manifestações culturais: a música dos soukous (pronuncia-se “sukus”) congoleses e da champeta colombiana.

A influência da RD Congo na música do país latino se deu ainda na década de 1960. Conta a história que discos do gênero congolês chegaram à Colômbia levados por marinheiros que desembarcavam nos portos de Cartagena e Barranquilla.

O som dançante dos soukous — também conhecido como rumba zairense, em referência ao Zaire, nome da RD Congo entre as décadas de 1970 e 1990, durante a ditadura de Mobutu Sese Seko — começou a ser tocado nas cidades costeiras nos picós, os gigantes sistemas de som da região, móveis e coloridos para representar cada um dos picoteros, como são chamados os DJs por lá.

A competição era grande. Pesquisadores contam que era comum que os picoteros retirassem os rótulos dos discos de vinil para dificultar a identificação dos artistas. Mas havia uma outra dificuldade: o idioma. Os colombianos não entendiam o que os artistas congoleses — cantando não apenas em francês, mas também em línguas nativas como o lingala e o kikongo — falavam nas músicas. Sem conseguir traduzir, eles passaram a compor letras próprias, em espanhol, até que surgiu um gênero próprio colombiano: a champeta.

Tecladista e baterista do Rappa e membro do Afrika Gumbe, projeto de músicas em iorubá, Marcelo Lobato dá um passo atrás e lembra que a influência da RD Congo no gênero musical colombiano é fruto de uma “viagem de ida e volta”. Isso porque, diz ele, a rumba congolesa é fruto de uma contribuição direta de gêneros afro-cubanos, como o son e a rumba.

— Os colombianos desenvolveram uma versão deles, de identidade própria. Misturaram também música black, cânticos indígenas, arranjos com flautas, acordeon e até influências europeias — explica.

Tanto no soukous quanto na champeta, fazem parte do som guitarras e vozes sobrepostas, baixo bem marcado e percussão. As letras abordam principalmente histórias de amor e temas do cotidiano de bairros populares.

— São ritmos muito particulares. São como relógios suíços com swing. Tudo encaixadinho numa sincronia perfeita — elogia Lobato.

Nomes clássicos da época para conhecer a champeta são El Sayayin, Mr. Black e Louis Towers. Já do lado do soukous congolês, estão Franco Luambo, Papa Wemba, Nico Kasanda e M’bilia Bel.

Mais recentemente, em 2020, a champeta ganhou destaque internacional quando Shakira levou o gênero colombiano para o palco do Super Bowl.

Junto com um balé, ela dançou “Icha”, de Syran Mbenza com Diblo e Lokassa Ya Mbongo. Segundo o jornal El País, a música era conhecida como “El Sebastián” e ganhou fama pelo picotero Syran Mbenza, de Barranquilla, no fim dos anos 1980.

A apresentação de Shakira acabou ganhando as redes sociais e virou “desafio” de dança, o #champetachallange, que somou mais de 125 mil publicações no TikTok.

Semelhanças musicais à parte, as seleções de Colômbia e RD Congo se enfrentam hoje, em Guadalajara, no México, de olho na segunda fase da competição. Se os colombianos vêm de uma vitória na estreia sobre o Uzbequistão, por 3 a 1, os congoleses chegam embalados, em busca dos primeiros três pontos, após o celebrado empate com Portugal, em 1 a 1.

O resultado, inesperado, deu aos congoleses o primeiro ponto na história das Copas. O país já havia disputado o Mundial em 1974, com o nome de Zaire. Na ocasião, perdeu os três jogos da primeira fase e não marcou gols.



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