Em meio a disputa entre milícia e CV, Rio das Pedras tem nova madrugada de tiroteio; 12 linhas de ônibus são afetadas

A madrugada desta sexta-feira marca o segundo dia seguido de tiroteios em Rio das Pedras, na Zona Sudoeste do Rio. Berço da milícia, a comunidade está sob disputa territorial entre os paramilitares e o Comando Vermelho (CV). Por conta da insegurança, 12 linhas de ônibus que passam pela Avenida Engenheiro Souza Filho tiveram seus itinerários alterados nesta manhã. O 18º BPM (Jacarepaguá) intensificou o policiamento e atua para estabilizar a região, informa a Polícia Militar.
Veículos que passavam por Rio das Pedras nas primeiras horas da manhã acabaram ficando presos na altura do condomínio Jardim Clarice por pelo menos uma hora. Os relatos são de que a Engenheiro Souza Filho tenha ficado interditada durante o período. Na véspera, um coletivo foi usado como barricada por lá. Os 12 serviços de ônibus impactados nesta manhã são os seguintes:
343 (Jardim Oceânico—Candelária)
SP343 (Rio das Pedras—Candelária)
550 (Cidade de Deus—Gávea)
555 (Rio das Pedras—Gávea)
557 (Rio das Pedras—Copacabana)
861 (Rio das Pedras—Curicica)
862 (Rio das Pedras—Barra da Tijuca)
863 (Rio das Pedras—Barra da Tijuca)
878 (Tanque—Barra da Tijuca)
SV878 (Tanque—Barra da Tijuca)
880 (Rio das Pedras—Terminal Alvorada)
961 (Rio das Pedras—Recreio)
Unidades de saúde e escola fechadas
Além do trânsito, a situação também impacta na saúde e na educação. De acordo com a Secretaria municipal de Saúde, cinco unidades de atenção primária instaladas na região suspenderam o funcionamento e avaliam a possibilidade de abertura nas próximas horas. Já outras duas unidades mantiveram o atendimento, suspendendo apenas atividades externas, como visitas domiciliares.
A Secretaria estadual de Educação informa que uma escola estadual na região também precisou ser fechada.
Mudança de lado: milicianos x CV
A Polícia Civil investiga a informação de que um grupo de nove milicianos de Rio das Pedras teria trocado de lado e passado a integrar o Comando Vermelho (CV). O ato de quinta-feira, em que milicianos teriam ordenado que a chave de um ônibus fosse recolhida e o coletivo usado como barricada, teria como objetivo atrair a polícia para o local e evitar um ataque do CV. Lixeiras também foram usadas para bloquear a Engenheiro Souza Filho.
Nesta semana, agentes da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) encontraram um cemitério clandestino em área de mata na comunidade, na localidade conhecida como Sertão, próxima à divisa com o bairro do Anil. Escondido pela vegetação, foi identificado um poço concretado com cerca de 20 metros de profundidade, onde corpos eram descartados, coberto por uma tampa que, para ser removida, exigiu o esforço de oito homens.
Área conflagrada
As investidas do CV para tomar o controle de Rio das Pedras ocorrem há pelo menos dois anos. Na área do Itanhangá e de Jacarepaguá, o grupo criminoso já conseguiu dominar territórios próximos, como Tijuquinha, Morro do Banco, Muzema, Anil e Gardênia Azul, ocupados anteriormente por milicianos. A insistência do Comando Vermelho em tomar a favela pode ser explicada pelos números.
Rio das Pedras tem 55 mil habitantes, de acordo o Censo 2022, do IBGE. Segundo estimativas feitas por policiais, a milícia arrecada cerca de R$ 2 milhões mensais com a exploração de negócios ilegais na comunidade. Entre outras transações estão a venda de sinais clandestinos de internet e de TV a cabo e a cobrança de taxas de segurança.
Ainda segundo a polícia, a ordem para invadir territórios ocupados por bandos rivais, como é o caso de Rio das Pedras, foi dada por Edgard Alves de Andrade, o Doca. Com 44 mandados de prisão expedidos pela Justiça, o criminoso é um dos integrantes da cúpula do CV.
Um dos encarregados de comandar essa expansão territorial é Carlos da Costa Neves, o Gardenal. Já Juan Breno Malta Rodrigues, o BMW, é apontado como um dos homens de guerra do bando. Contra Gardenal há 17 mandados de prisão expedidos pela Justiça, enquanto BMW é alvo de 16 ordens de prisão, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Ao lado das comunidades da Muzema e da Gardênia Azul, Rio da Pedras foi incluída pelo governo estadual em um plano de reocupação territorial enviado ao Superior Tribunal Federal (STF). As ações ainda não têm data exata para ocorrer, mas estavam previstas começar ainda em 2026.



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