Socorro ao BRB esbarra em resistência dos bancos do FGC e pode demorar 


Grandes instituições foram surpreendidas pelo acordo articulado no STF; operação ainda enfrenta entraves técnicos e políticos

O plano articulado entre o governo federal, o Governo do Distrito Federal e o STF para viabilizar um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ao BRB está longe de ter execução rápida. Embora a negociação tenha avançado nos bastidores e ganhado respaldo político, os principais bancos privados que deverão sustentar a operação foram surpreendidos pela proposta ao tomarem conhecimento dela pela imprensa.

A avaliação entre integrantes do sistema financeiro é de que, mesmo com eventual aval político firmado em audiência de conciliação no Supremo, a estruturação prática do empréstimo exigirá tempo. Isso porque cada instituição financeira possui regras próprias de governança e aprovação de risco, além de inexistir precedente para uma operação desse tipo envolvendo garantias vinculadas a repasses federais para estados e municípios.

O modelo discutido prevê que o FGC conceda o empréstimo diretamente ao governo do Distrito Federal. Em seguida, um grupo de grandes bancos — as chamadas instituições S1 — ofereceria garantias bancárias para respaldar a operação. Como contrapartida, seriam usados como garantia recursos do FPE e do FPM destinados ao DF.

Nos bastidores, a percepção é de que o desenho encontrado tenta equilibrar interesses políticos e fiscais. O governo federal evita um socorro explícito ao banco estatal brasiliense e afasta a necessidade de garantia direta do Tesouro Nacional, o que abriria precedente delicado para futuras operações semelhantes.

Ao mesmo tempo, o acordo dá novo fôlego ao BRB, que enfrenta pressão crescente desde a revelação das perdas associadas à compra de carteiras de crédito ligadas ao banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O presidente do banco, Nelson Antônio de Souza, deverá iniciar uma nova rodada de conversas com executivos da Faria Lima a partir desta sexta-feira (29), numa tentativa de convencer as instituições financeiras a aderirem ao modelo de financiamento.

Enquanto isso, o cronograma inicialmente prometido pelo banco já começa a ruir. O prazo de 29 de maio, estabelecido para a integralização do aumento de capital destinado a cobrir o rombo, não deverá ser cumprido.

Em comunicado divulgado nesta quarta-feira (27), o BRB informou ter aprovado ajustes no processo de capitalização para permitir homologações parciais dos aportes, de maneira gradual, até o limite de R$ 8,8 bilhões. Na prática, a mudança funciona como uma tentativa de ganhar tempo enquanto as negociações políticas e financeiras seguem indefinidas.

Internamente, dirigentes do banco avaliam que o atraso não deverá provocar consequências imediatas. Isso porque o próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já indicou que o prazo mais relevante é o legal — encerrado em março — e não a data estipulada pelo banco para divulgação de seu balanço.

A crise do BRB também acabou expondo o desconforto político em torno do caso. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou assumir protagonismo direto na operação e recusou encontro com a governadora do Distrito Federal, Celina Leão. Coube ao ministro do STF Luiz Fux intermediar os parâmetros da solução negociada.

No Ministério da Fazenda, a leitura é de que o arranjo evita impacto fiscal imediato e preserva o discurso de responsabilidade nas contas públicas. Ainda assim, a operação permanece cercada de incertezas técnicas, jurídicas e políticas — e longe de uma conclusão definitiva.



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