‘Walking tours’ ganham adeptos entre turistas e moradores que buscam conhecer diferentes facetas do Rio

Imagine conhecer o Rio através de suas lendas urbanas, como as histórias de lugares assombrados que, a despeito de qualquer fantasia, revelam detalhes de crenças e hábitos locais. Ou percorrer marcos da herança africana no país e pôr os pés onde floresceu a resistência negra e nasceu o samba. E que tal visitar cenários de clássicos da literatura brasileira ou sentir a aura de ruas por onde circularam personalidades icônicas? Pois é assim que muito turista — e morador também — tem decidido desbravar a cidade, de encantos mil para além dos famosos cartões-postais. E detalhe: todos esses trajetos são feitos a pé, num dos variados roteiros de walking tour que apresentam ao mundo outras facetas cariocas.
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O conceito de passeio que nasceu na Alemanha, em 2004, e desembarcou no Brasil no começo da década passada só cresce em número de adeptos. Os mais buscados costumam ser os que exploram a arquitetura histórica e os monumentos. Organizado pela Be Free Walking Tour, só o roteiro que passa pelo Theatro Municipal e pelo Convento de Santo Antônio, vai à Escadaria Selarón, faz uma parada na Confeitaria Colombo e finaliza na Praça Quinze, no Centro do Rio, atraiu 15.700 turistas no ano passado.
— A pé, conhecemos melhor a cidade, por estarmos no nível da calçada, analisando tudo do ponto de vista do observador — avalia a funcionária pública Jacqueline Nascimento, de 44 anos, moradora do Mato Grosso do Sul que participou de um desses passeios no último dia 14.
Circuito da Herança Africana, criada pelo guia Cosme Felippsen, passa por locais onde floresceu a resistência negra e nasceu o samba, como a Pedra do Sal e a Gamboa
Divulgação
Da feijoada ao nhoque
Há opções de itinerários para todos os gostos, idades e saberes a serem adquiridos. Os da Be Free que exploram o bairro de Santa Teresa e o Circuito da Herança Africana, na região da Gamboa, reuniram, juntos, quase 3.500 pessoas em 2025. Este último é organizado também pelo guia Cosme Felippsen e tem próxima edição, com contribuição voluntária, marcada para 9 de maio. O caminho não poderia ser mais simbólico: começa no projeto Tramas do Porto, na Rua Sacadura Cabral, às 10h30, inclui o Largo de São Francisco da Prainha, os Jardins Suspensos do Valongo e o Cais do Valongo, e termina no começo da tarde ao som do samba e ao sabor da feijoada servida no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab).
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O guia é criador ainda do Rolé dos Favelados — passeios guiados por comunidades como Rocinha e Salgueiro. Hoje, a andança é pelo Morro da Providência, considerada a favela mais antiga do Brasil e onde Cosme nasceu. Entre as atrações, há a visita ao único terreiro de candomblé ativo da Pequena África e ao Bar da Jura, no alto do morro, com direito a degustar o famoso nhoque preparado pela dona do estabelecimento.
— Uma das coisas que os turistas mais gostam é conhecer a cidade de maneira livre. Querem ir aos pontos turísticos e, ao mesmo tempo, ter uma orientação para entender a importância histórica, geográfica e ecológica daquele lugar. É isso que os walking tours agregam: uma imersão espontânea nos espaços públicos, um aspecto vital para se conhecer uma cidade como ela é — afirma Alexandre Oliveira, country manager da Civitatis Brasil, plataforma onde é possível reservar passeios como os da Be Free Walking Tour.
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Tanto agências quanto guias independentes oferecem os serviços, alguns deles divididos conforme o idioma — normalmente português, inglês e espanhol. E parte das rotas é gratuita, com contribuição livre dos visitantes.
Os roteiros
Editoria Arte
Entre os passeios organizados pela guia de turismo e historiadora Amanda Carvalho, um dos mais curiosos é o das Lendas Urbanas, no qual ela viaja por histórias que povoam o imaginário do carioca. O tour vai a locais como o Arco do Teles, na Praça Quinze, que seria assombrado pelo fantasma de Bárbara dos Prazeres, uma bela portuguesa que, na velhice, bebia sangue de crianças como feitiçaria para recuperar a beleza e juventude, segundo a lenda. O próximo passeio está agendado para o domingo que vem, com reservas pelo Sympla.
Malandragem
A guia faz ainda outros roteiros temáticos: o das Igrejas Históricas, como o Mosteiro de São Bento, tem próxima saída no dia 9 de maio (a R$ 44, já inclusas as taxas); e o tour literário Machado de Assis no Rio, inspirado no romance “Quincas Borba”, está marcado para 16 de maio (a R$ 60,50). Os dois estão com inscrições abertas pelo Sympla.
Passeios contemplam todos os gostos, idades e saberes
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Já a professora Samantha Lobo, conhecida por organizar tours guiados pelos cemitérios da cidade, resolveu revisitar a trajetória de João Francisco dos Santos, o Madame Satã, no ano em que sua morte completou meio século. A caminhada, programada para 9 de maio (R$ 40), parte da Praça Tiradentes e visita pontos da Lapa, onde o personagem viveu e circulou, como as ruas da Lapa, Joaquim Silva e das Marrecas. A ideia é resgatar episódios marcantes da sua história entre a malandragem, os palcos e os confrontos com a polícia, contextualizando sua importância na formação da identidade cultural da cidade.
— Madame Satã é uma daquelas personagens que mais parecem lendas do que seres reais — afirma Samantha sobre a lendária figura da boemia e do movimento LGBTQIAP+ carioca, morto em 1976.



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