visita de Flávio a Vorcaro foi para tirá-lo da delação


Segundo o pré-candidato da Missão à Presidência Renan Santos, a visita de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, do banco Master, teve por objetivo combinar que o empresário mineiro não o mencionasse em uma delação premiada.

O encontro entre Flávio e Vorcaro, no fim do ano passado, foi revelado pelo Metrópoles e depois confirmado pelo pré-candidato do PL. Nesta semana, a Polícia Federal recusou a delação de Vorcaro sob o argumento de que ele não apresentou informações novas — o financiamento ao filme Dark Horse, negociado com Flávio, foi uma das omissões.

“O que eu estou sabendo de bastidores é que a visita do Flávio ao Vorcaro (no começo de dezembro, logo antes do senador ser indicado como pré-candidato do PL à Presidência) era tratando de sair fora da delação (de Vorcaro)”, disse Renan Santos em entrevista ao Metrópoles, na tarde desta quinta-feira (21).

“Ele (Flávio) percebeu que deu problema e, aparentemente, obteve um combinado com o Vorcaro de não entregá-lo. Tanto que ele ficou seguro e saiu fazendo seu périplo junto a empresários e visitas ao mercado financeiro. E dizendo que só esteve com ele uma vez, mas não houve nada. Achou que estava seguro”, afirmou Renan Santos.

Aos 42 anos, Renan Santos é fundador e presidente do Partido Missão e um dos coordenadores do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo surgido em 2014 e que ganhou destaque por articular o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Na última pesquisa Atlas Intel, divulgada nesta terça-feira (19/5), Renan aparece em terceiro lugar, com 6,9% das intenções de voto.

Em Brasília para participar da XXVII Marcha dos Prefeitos, Renan Santos falou também sobre segurança pública, facções criminosas, pacto federativo, ajuste fiscal e a saída de pré-candidatas mulheres do MBL.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Metrópoles — Como mostramos na coluna, a campanha do senador Flávio Bolsonaro condicionou a participação dele em debates à sua ausência. O que você diria a Flávio se pudesse encontrá-lo em um debate?

Renan Santos — Eu não estou surpreso. Flávio parece me enxergar como um demônio ou alguém que vá persegui-lo. Na verdade, eu não precisaria fazer muita coisa para constranger o Flávio. Se eu tiver, em um debate, o espaço para falar sobre uma proposta e ele tiver que falar sobre o mesmo tema do outro lado, o contraste já vai machucá-lo.

Existe um problema no Flávio de contraste. Ele não consegue construir uma sentença bem feita ou apresentar uma ideia original que vá seduzir o eleitor.

Eu vou confrontá-lo. Vou falar sobre o passado dele, sobre o Adriano (da Nóbrega, ex-soldado do Bope que se tornou miliciano, morto em 2020), que estava no gabinete dele, com sua esposa e mãe empregadas lá como assessoras.

E falar agora sobre esse escândalo recente (da troca de áudios com Daniel Vorcaro), que eu acho devastador para o Flávio. E eu sei que os demais não falariam. Nem o (Romeu) Zema (pré-candidato do Novo), nem o (Ronaldo) Caiado (pré-candidato do PSD). Esses iam apenas fazer pequenas insinuações, como vêm fazendo para a imprensa.

Metrópoles — Se você trouxer a questão do áudio dele com Vorcaro, ele pode trazer a questão dos áudios da viagem sua e de Arthur do Val à Ucrânia (de 2022). O que você responderia a ele?

Renan Santos — Da nossa parte, o que houve foi o escândalo heterossexual de um áudio infeliz, mas no mínimo engraçado, do meu amigo Arthur. Em que absolutamente zero reais foram desviados, e não houve nenhum crime cometido.

Do outro lado, o áudio atesta uma relação que necessariamente é criminosa. Pouco se falou ainda, mas eu tenho certeza de que isso será aprofundado pela imprensa e pelas investigações sobre a contrapartida. Ninguém coloca cento e poucos milhões de reais adiantados em um filme B — B de “bomba”, uma porcaria de filme — sem ter algo como contrapartida.

Se eu partir dessa premissa, então o contrato da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes era apenas uma consultoria; o Guido Mantega (ex-ministro da Fazenda) foi contratado para falar de economia. É óbvio que não, e é óbvio que existe uma troca de favores.

Renan Santos (Missão)
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A lógica da compra de autoridades do Vorcaro era essa. Saberemos os detalhes dessa relação com o Flávio logo mais.

O que eu estou sabendo de bastidores é que a visita do Flávio ao Vorcaro (no começo de dezembro, logo antes do senador ser indicado como pré-candidato do PL à Presidência) era tratando de sair fora da delação (de Vorcaro).

Ele (Flávio) diz que foi ao Vorcaro para falar: “Nunca mais fale comigo, agora que você tem um escândalo!”. O mesmo Flávio que anda com o Valdemar (da Costa Neto, presidente do PL), com o Willer Tomaz (advogado). Mas, aparentemente, a conversa foi sobre delação. E foi tratar disso. “Me tira fora dessa”, foi o que ele foi dizer.

Metrópoles — Pode dar mais detalhes?

Renan Santos — É que aí eu teria que entregar as minhas fontes. Não sou jornalista, mas tenho que preservar as minhas fontes (…). Mas, de fato, foi isso. Ele (Flávio) percebeu que deu problema e, aparentemente, obteve um combinado com o Vorcaro de não entregá-lo.

Tanto que ele ficou seguro e saiu fazendo seu périplo junto a empresários e visitas ao mercado financeiro. E dizendo que só esteve com ele uma vez, mas não houve nada. Achou que estava seguro. Entretanto, os vazamentos acabaram quebrando a estratégia dele. Por isso ele foi pego de surpresa e acabou nem contando para o time de campanha.

Metrópoles — Vou mudar um pouco de assunto e falar de um tema que você gosta e explora na sua campanha: segurança pública. Como combater o crime organizado, que hoje já tem, inclusive, um soft power? Há filmes custeados parcialmente pelo PCC, cantores e artistas acusados de lavar dinheiro para facções.

Renan Santos — Eu já venho falando muito que vou adotar uma postura que não é apenas a que se espera de um candidato liberal ortodoxo, tradicional.

No combate ao crime organizado, nós teremos que passar por cima de determinadas liberdades, entre elas a liberdade de expressão de artistas e influenciadores que são porta-vozes de organizações criminosas (…).

Existe uma cultura de normalização do crime, de tratá-lo como uma prática menor, como uma falha de caráter ou como simples malandragem. “Foi pego.” Isso se naturalizou.

Percebemos isso sobretudo nas camadas mais baixas da população brasileira. O que têm em comum o Ronaldo e a Deolane? Eles falam com as classes C, D e E. Quando a Deolane estava fazendo reality show, houve uma campanha gigantesca a favor dela. Quando foi detida, pessoas ficaram na frente da delegacia chorando.

O que isso mostra? Que as pessoas mais humildes não aprenderam a usar esse aparelho aqui (celular) — as redes sociais tomaram a cabeça delas — e você consegue naturalizar absurdos.

Isso tem um efeito muito grave, porque naturaliza o absurdo justamente na cabeça de quem é a maior vítima do crime organizado: as classes C, D e E, quem morre na mão do crime organizado.

Para essas pessoas, isso passa a funcionar como ideologia, como modo de vida. Então eu vou precisar libertá-las, mesmo que elas sequer entendam que estão aprisionadas.

Vou ser muito duro com esses influenciadores. A gente coloca o direito penal do inimigo em funcionamento. Se for demonstrado que essa influenciadora está ligada ao crime, ela não tem direito a ter opinião pública: ela tem que ser presa. Temos que parar de dizer: “Não, ele é um artista”. Não. É um porta-voz.

Metrópoles — O que aconteceria com alguém como a Deolane no seu governo?

Renan Santos — A aplicação do direito penal do inimigo faria com que, passando um projeto nesse sentido, ela fosse enquadrada.

Se ela fazia parte da estrutura de lavagem de dinheiro, como a operação apontou, então seria enquadrada como membro dessa estrutura e partícipe de toda atividade delituosa.

Ela não teria, por exemplo, direito à progressão de pena. Uma pessoa enquadrada nesse modelo não teria mais presunção de inocência.

O Ministério Público, a Polícia Federal e os órgãos de investigação identificariam quem é claramente membro efetivo dessa estrutura — alguém envolvido economicamente, alguém flagrado com armas ou atuando diretamente.

Essa pessoa passaria a ter presunção de culpa. Se fosse encontrada na rua, poderia ser presa imediatamente, levada ao presídio sem audiência de custódia, sem possibilidade de fiança, e cumpriria penas muito duras.

O direito seria rápido e as penas, duras. É isso que o direito penal do inimigo faz com faccionado. Nós precisamos atuar dessa maneira, do pequeno ao grande traficante.

Metrópoles — Se eleito presidente, você vai governar um país com Poder Judiciário e com a Constituição de 1988. Por mais que você fale em direito penal do inimigo, como compatibilizaria isso com a estrutura existente? Os juízes continuarão julgando, os ministros continuarão decidindo. Como concretizar essa ideia?

Renan Santos — Vai ser muito engraçado se o STF se opuser ao direito penal do inimigo aplicado ao crime organizado, quando o próprio STF aplicou o direito penal do inimigo contra Bolsonaro e o bolsonarismo.

Foi criado um inimigo, o bolsonarismo. A lei era rápida, o inquérito veloz e as punições, muito duras. Foi basicamente isso que aconteceu.

O próprio STF sabe que funciona. Tanto funciona que utilizou contra o inimigo deles. A diferença é que aquilo foi uma operação exótica, sem passar pelo Legislativo.

Nós formalizaríamos isso via Congresso Nacional. O Legislativo aprova e nós executamos.

Se eu fizer, por exemplo, uma operação na Rocinha ou em Santa Quitéria, no Ceará, e vier uma decisão do STF impedindo, eu, tendo passado pelo Legislativo e cumprido todo o processo legal, não vou respeitar uma decisão que considero eminentemente ilegal.

Não vou sair brigando com o STF à toa. Não vou fazer o que Bolsonaro fez, xingar ministro. Quero uma interlocução correta e educada. Dá para haver cooperação entre Executivo e Judiciário.

Mas, se tentarem interferir em uma atribuição do presidente da República, eu simplesmente não cumpriria. Sem show, sem grito. Apenas: “Não vou cumprir. Vou continuar a operação”.

Esse elemento exótico do STF não teria vez conosco.

Também precisaríamos mexer no CNJ. Há muito espaço para inovação no Judiciário, decisões liminares improvisadas, o que eu chamo de “sentença lacrada”. O Brasil deveria caminhar para algo próximo de súmula vinculante forte, como em outros países.

Metrópoles — Tem um lema da sua campanha, ou pelo menos um slogan, que é “prendeu, matou”. Ele pegou bastante. Mas eu queria saber como você lidaria com a responsabilização por uma eventual morte injusta, de uma pessoa inocente, caso isso aconteça em uma operação.

Renan Santos — O líder que estiver junto às polícias no trabalho de reocupar áreas hoje dominadas pelo crime vai ter que arcar com eventuais falhas do processo.

Eu não nego que poderá haver, eventualmente, uma operação em que uma vítima inocente morra. Nada no mundo dos homens é perfeito, e nenhuma ação policial violenta será perfeita.

Nós temos que trabalhar para ter um número mínimo — ou nenhum — de vítimas inocentes, com prevenção e previsibilidade. Mas eu não posso prometer que isso jamais acontecerá.

Dito isso, é um cenário de guerra. A inação e o medo de agir fazem pessoas morrerem todos os dias, às dezenas. Então a minha fraqueza estaria permitindo que outros morressem diariamente.

O que me resta é correr o risco para evitar essas mortes, eliminando o que tem que ser eliminado: os membros do crime organizado.

Para quem está curioso sobre o slogan: “prendeu ou matou”. Se, em uma operação, a pessoa se entrega, ela é presa. Se mantém a arma e troca tiro, não há outro caminho. Não é “prendeu e matou”; é “prendeu ou matou”.

Metrópoles — Quando a gente olha as pesquisas eleitorais, especialmente a Atlas, há um predomínio muito forte de homens jovens no seu eleitorado. Entre 16 e 24 anos, você tem números altos, enquanto entre mulheres é bem menor. Por que isso acontece?

Renan Santos — Isso acompanha um fenômeno observado em outros países. Existe uma separação crescente na geração Z: mulheres mais à esquerda e homens mais à direita.

Aconteceu com Trump, Bolsonaro e outros líderes. Tendências políticas mais inovadoras costumam ter um perfil demográfico inicial muito marcado.

Eu não acho isso necessariamente permanente. A mulher de 25 a 50 anos é muito mais passível de ser conquistada politicamente, e foi justamente onde comecei a crescer.

Meus números são muito assimétricos, e assimetrias costumam regredir à média. Não acho que eu vá perder voto masculino para equilibrar; acho que o voto feminino tende a crescer.

Também não pretendo alterar a linguagem para isso. A mulher entre 25 e 50 anos, especialmente a menos politizada, ainda não está tão exposta ao tipo de discurso que estamos fazendo.

Metrópoles — Então você acha que homens jovens, que já te apoiam, vão funcionar como agentes de convencimento?

Renan Santos — Sim. Pessoas altamente engajadas tendem a convencer as menos engajadas.

Pesquisas online captam isso melhor porque medem um eleitor que está participando do debate político, não apenas alguém respondendo em uma rodoviária ou na rua.

O homem jovem altamente engajado tende a funcionar como early adopter político. Ele influencia outras faixas etárias e outros grupos.

A gente já vê isso acontecendo: comecei muito forte entre 16 e 24 anos e agora já cresço entre 25 e 35. O processo tende a se espalhar.

Metrópoles — Vamos falar de mulheres no MBL. Houve a saída de mulheres jovens ligadas ao movimento, como Glenda e Clara. O que aconteceu?

Renan Santos — No caso da Glenda, ela percebeu que não estava compatível com o nosso sistema de valores internos, e foi melhor para ambos os lados seguir caminhos diferentes.

A Clara não estava em condições psicológicas de suportar a pressão. Sofreu cancelamento, precisava do apoio familiar e decidiu se afastar para se preservar.

A política é muito mais dura para mulheres. O nível de assédio, exposição e ataques é desproporcional.

Às vezes é assédio em DM, às vezes ex-namorado querendo fazer exposed, gente espalhando mentiras ou humilhações públicas. Algumas pessoas não aguentam.

A gente tenta construir uma estrutura de proteção, mas a pressão é muito alta.

Metrópoles — Há críticas de que existe uma cultura tóxica para mulheres dentro do movimento. O que você responde?

Renan Santos — A política é tóxica para mulheres em geral, não apenas no nosso movimento.

Nós temos um ambiente muito competitivo e um sistema forte de autodefesa. O problema é que a exposição política feminina costuma vir acompanhada de ataques muito mais agressivos.

Tem casos de montagem pornográfica, humilhação pública, perseguição. Isso acontece em um nível muito diferente do que acontece com homens.

Quem entra na política, especialmente mulheres, precisa de uma preparação emocional muito grande para lidar com isso.

Metrópoles — Vamos imaginar o seguinte cenário: dia 26 de outubro, o resultado do segundo turno é anunciado e você é eleito presidente. Quais seriam as primeiras medidas do seu governo?

Renan Santos — Eu chamaria o Kim Kataguiri, conversaria com as bancadas eleitas e começaria imediatamente a preparar a aprovação da PEC da Transição.

Eu preciso começar o governo com a questão fiscal endereçada e criar as bases legislativas para enfrentar o crime organizado.

Tentaria fazer tudo o que fosse possível para que a legislatura atual aprovasse essa transição, incluindo a PEC fiscal, que já está protocolada, e os fundamentos legais da nossa ação contra o crime organizado.

Paralelamente, eu precisaria criar um ambiente favorável à entrada de dólares no Brasil, mostrando que a trajetória da dívida pública está sendo corrigida.

Se você aprova uma PEC que economiza trilhões ao longo dos anos, a expectativa melhora, os juros podem cair e se cria um clima positivo para a economia.

Eu não perderia tempo comemorando. Ficaria trabalhando no plano. Se eu ganhasse, minha reação seria: “Agora precisamos executar”.

Metrópoles — Quando você fala em trilhões de economia fiscal, do que exatamente estamos falando? O que envolveria esse ajuste?

Renan Santos — Começa por uma nova reforma da Previdência.

Passa também por um tema polêmico: desindexar reajustes de aposentadorias e do BPC do salário mínimo, vinculando-os à inflação. Se um governo quiser dar ganho real, que faça isso por decisão política, mas não de maneira automática.

Também passa pela desvinculação de gastos obrigatórios de saúde e educação. Há municípios onde a dinâmica demográfica mudou e a rigidez orçamentária deixou de fazer sentido.

É preciso rever renúncias fiscais e mexer em privilégios do alto funcionalismo.

Se um pacote amplo como esse for aprovado, você resolve a questão fiscal por décadas e transforma o Brasil em um país mais previsível.

Metrópoles — Tem algum órgão público que você extinguiria?

Renan Santos — Eu já falei muito em extinguir o Incra, embora hoje pense mais em reformular sua função.

Não sou contra a reforma agrária, mas os assentamentos têm produtividade muito baixa. Muitas vezes, você está apenas produzindo pobreza rural.

Nossa ideia seria fazer uma auditoria dos assentamentos e exigir produtividade mínima. Quem recebe terra precisa produzir.

Você não pode criticar o latifúndio improdutivo e criar minifúndio improdutivo.

Metrópoles — Você falava mais no passado sobre uma nova Constituinte. Tenho notado que fala menos disso. Ainda acredita nessa ideia?

Renan Santos — O jornalista atento é sempre perigoso, porque realmente reduzi essa fala.

Não dá para fazer tudo em um primeiro mandato. Se eu quiser executar as reformas que estou propondo, não consigo fazer isso junto de uma Constituinte.

Passei a enxergar isso como tema de um eventual segundo mandato. Primeiro, eu preciso acumular força política, implementar reformas e mostrar direção.

A tese continua existindo, eu continuo defendendo, mas não é algo que eu conseguiria entregar no primeiro mandato.

Metrópoles — Você viajou recentemente pelo Brasil, esteve no Maranhão e falou sobre situações de pobreza extrema. O que aprendeu nessas viagens?

Renan Santos — Aprendi que parte da classe política brasileira normalizou o absurdo.

Você encontra lugares onde esgoto a céu aberto, lixo, crime organizado e degradação urbana deixaram de ser percebidos como problema pela política local.

Em muitas regiões, existe uma aceitação do absurdo — tanto por parte do político quanto da população — porque aquilo virou cotidiano.

Isso me reforçou uma convicção: o grande inimigo é o sistema de incentivos da política brasileira, especialmente o centrão e a forma como o pacto federativo distribui poder.

Quando você mostra a uma população que aquilo não é normal e que é possível viver melhor, você muda a lógica política.

Inclusive, algo que começou a acontecer foi eu apontar problemas publicamente e, no dia seguinte, prefeito correr para resolver.

Metrópoles — E como prefeitos reagiram a esse discurso?

Renan Santos — Melhor do que eu imaginava.

Falei em metas de desempenho, punição para má gestão e até extinção de municípios inviáveis, mas também falei em premiar bons gestores.

A reação foi surpreendentemente positiva, porque muitos prefeitos se sentem subordinados ao sistema político atual e querem mais autonomia.

Metrópoles — Você acha que o pacto federativo brasileiro tem solução?

Renan Santos — Tem solução. A dificuldade é fazê-la passar.

A solução passa por concentrar mais poder no Executivo e fazer com que lugares mal administrados percebam que têm um problema.

Quando uma pessoa entende que não é normal viver ao lado de lixão, esgoto a céu aberto ou violência cotidiana, ela começa uma revolução política. Ela passa a perceber que aquilo não é inevitável.

Uma coisa interessante que começou a acontecer foi eu apontar um problema e, no dia seguinte, prefeito correr para resolver. Você cria um novo sistema de valores e uma pressão social por melhora.

O Executivo nacional precisa interferir nessa realidade local, elevar o padrão de gestão e punir o político que não entrega resultado.

Você pega uma cidade organizada e percebe imediatamente a diferença. Não é razoável naturalizar que outras localidades permaneçam em situação degradante.

Metrópoles — Isso exigiria, por exemplo, mudar a representação dos estados no Congresso?

Renan Santos — Essa é uma discussão importante, mas eu acho difícil começar por cima.

Se eu mexesse diretamente no modelo de representação, isso certamente teria efeito, mas não me parece viável politicamente de imediato.

Minha visão hoje é trabalhar de baixo para cima, fortalecendo prefeitos e alterando o sistema de incentivos.

Eu disse isso na Marcha dos Prefeitos: hoje muitos prefeitos funcionam quase como subordinados de deputados. O poder precisa voltar para quem administra a cidade.

Se você muda esse equilíbrio, muda também a pressão política sobre deputados e, no médio prazo, altera o jogo.

Metrópoles — Para encerrar: por que o eleitor brasileiro deveria escolher Renan Santos para governar o país a partir de 2027, e não Lula, Flávio Bolsonaro ou Joaquim Barbosa?

Renan Santos — De maneira simples: eu consigo explicar como vejo o Brasil daqui a 30 anos e como chegar lá.

Se você perguntar ao Lula como ele imagina o país nesse horizonte, eu acho que ele não consegue responder. Se perguntar ao Flávio, ele não apresenta um projeto de país.

Eu consigo descrever um caminho de transformação, e isso inspira as pessoas a olhar além da disputa ideológica imediata.

O Brasil pode ser muito mais do que carnaval e futebol. Pode ser um país industrialmente relevante, estratégico em um novo ciclo econômico global.

Nós temos recursos, posição geopolítica e potencial. O que falta é desenho de futuro.

E eu acho que sou o único candidato fazendo esse tipo de discussão de maneira estruturada. Talvez isso explique por que tanta gente jovem se identifica com a candidatura.



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