“Eu simplesmente olharia para ele e sorriria. Ele está ali pela aventura”, foi assim que Karl Bushby respondeu ao EXTRA quando perguntando o que falaria ao seu Eu de 1998, quando saiu de Punta Arenas, no Chile com apenas uma missão: cruzar o mundo a pé até a Inglaterra.
Britânico se torna primeira pessoa na história a andar ao redor do mundo após caminhar por 28 anos
Nove perguntas para Karl Bushby, o homem que deu a volta ao mundo em 28 anos
Vinte e oito anos e 58 mil quilômetros depois, o ex-militar britânico finalmente chegou ao seu destino: a casa da mãe em Hull, no norte do país, nesta segunda-feira, dia 2, se tornando a primeira pessoa da história a cruzar o mundo em um caminho ininterrupto sem usar veículos motorizados, no que o romancista Frederick Forsyth chamou de “uma odisseia digna do próprio Ulisses”.
Quem é Karl Bushby?
Antes de se tornar um aventureiro, Karl Bushby, nascido no dia 30 de março de 1969 em Hull, não se destacava em muitas coisas — muito pelo contrário. Na época de escola, sofreu com o bullying, principalmente por conta da sua severa dislexia, diagnosticada aos 13 anos.
Para Bushby, os anos de colégio foram um verdadeiro “inferno”, palavras fortes para um homem que, anos depois, cruzaria uma região dominada pelas FARC de forma solitária, ou, ainda pior, se tornaria a primeira pessoa a cruzar o estreito de Bering, que une os Estados Unidos e a Rússia.
Assim que saiu da escola, ele decidiu se alistar no exército britânico, assim como seu pai, que serviu no 22º Regimento de Serviço Aéreo Especial (SAS), uma unidade de elite.
Franzino, teve dificuldades de se ajustar e ainda mais de prosperar na vida militar: foram diversas tentativas de passar para a Pegasus Company, organização de treinamento do Regimento de Paraquedistas das forças armadas britânicas — cinco, para ser exato.
Bushby na Argentina, em 1999, pouco tempo depois de começar a aventura
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Foi durante um tour em 1996 que a ideia de cruzar o mundo a pé começou a aparecer, relata Bushby em seu livro “Giant Steps”, lançado em 2005. Ele tinha recebido uma carta de seu pai sobre dois militares que vinham considerando a ideia de atravessar da América para a Rússia pelo Estreito de Bering, que fica congelado alguns meses ao ano.
“Se eu pudesse atravessar a pé esses 93 quilômetros de água congelada que separam o Alasca da Sibéria, estaria na Ásia e a caminho de casa, na Europa. Aquilo me arrepiou”, escreveu o aventureiro
“Imediatamente senti que tinha descoberto algo realmente grandioso. Era grande o suficiente, estúpido o bastante e ruim o bastante para chamar a atenção de todos. Valia a pena investir anos da minha vida nisso”.
Uma jornada digna de Ulisses
— Provavelmente, eu teria desistido há muito tempo se não fosse assim. Ser determinado não é suficiente. Em algum momento, você precisa ser quase obsessivamente delirante — afirma Bushby.
O plano era “louco” desde o início: a ideia de sair de Punta Arenas, no extremo sul do Chile, e andar até Hull, na Inglaterra não só nunca foi feito, como ele também deveria ser capaz de realizar outro feito nunca documentado na era moderna: atravessar o estreito de Bering a pé.
Por que, em sua jornada, eram apenas duas as regras que o guiavam: sem usar veículos para avançar e não voltar para casa a não ser a pé, duas regras que ele seguiu pelos últimos mais de dez mil dias.
Bushby desenhou uma rota em um mapa, anos antes de começar a expedição e, por ventura, acabou sendo essa linha, desenhada a mão, que acabou seguindo pelos próximos 28 anos, quando finalmente começou a andar no dia 1 de novembro de 1998, com seu carrinho, “A besta”, e US$ 500 no bolso.
Encontro com as FARC na selva colombiana
Bushby começou em Punta Arenas e logo se deu com seu primeiro desafio: a Patagônia, onde enfrentou sua primeira mudança de rota ao perceber que não conseguiria atravessar a região, dando uma “volta” nos Andes.
Tentando atravessar o deserto no Chile, em 1999
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Seguindo a caminhada Rodovia Pan-Americana do Chile, Bushby seguiu seu caminho por Argentina, Peru, Equador e em, 2000, após caminhar por exatos dois anos, chegou a Colômbia, seu primeiro grande desafio: as FARC, naquele ano, chegaram ao ser maior contingente, cerca de 20 mil soldados, e ele teria que atravessar por Darién, uma região, então controlada por grupos de guerrilheiros e paramilitares.
Foram dois meses de preparativos com Catalina, uma mulher que conheceu em Medellin: inúmeras entrevistas com militares, comandantes de polícia e jornalistas investigativos. Quando a época permitiu, saiu andando na missão de atravessar a região.
Foram mais dois meses de caminhada, esquivando-se de terroristas, disfarçando-se de morador de rua e até de destroços flutuantes, deixando-se levar pelo rio até a cidade panamense de Boca de Cupe: conseguira sair vivo da selva colombiana.
Cercado pelas FARC, no meio da selva colombiana, em 2000
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Bushby afirma que só conseguiu sobreviver graças ao carinho das pessoas. Inclusive, quando perguntado sobre o que mais gostaria que as outras pessoas soubessem, ele contou sobre sua experiência com desconhecidos:
— O mundo é um lugar muito melhor do que você imagina. Infelizmente, acompanhando o ciclo de notícias 24 horas por dia, parece que o mundo está completamente perdido. Mas, do ponto de vista de um viajante comum, não poderia ser melhor — afirma
— No contato individual, conhecendo pessoas pelo caminho, a experiência tem sido fantástica. Conheci 99,99999% do que há de melhor na humanidade em cada país e em cada cultura —
Ao entrar no Panamá, foi preso por atravessar a fronteira fora de um posto oficial. Ficou 18 dias na prisão em Metetí por entrar no país sem visto. Mais de um ano e seis países depois, em maio de 2002, saiu do Mexico e chegou a Nogales, Arizona.
No Panamá, na região de Darién, 2001
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Em 2004, chegou a Fairbanks, no Alasca, onde precisou esperar o inverno — que traria consigo o congelamento dos rios — para continuar em direção à Rússia através do mal-dito Estreito de Bering, nunca cruzado na história moderna.
O Estreito de Bering e o aventureiro francês
Antes de chegar ao Estreito de Bering, Bushby e um novo amigo, o aventureiro franco-norte-americano Dimitri Kieffer, enfrentaram as difíceis condições até Nome. Em uma ocasião, eles chegaram a ser levados trinta quilômetros mar adentro por blocos de gelo flutuantes e precisaram ser resgatados por helicóptero.
No meio do estreito de Bering, em 2006
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Em março de 2006, Karl Bushby e Dimitri Kieffer se encontravam no “precipício” do continente americano, à sua frente, a parte asiática da Rússia.
Só nos primeiros dias, a dupla se viu arrastada oitenta quilômetros para o norte por correntes implacáveis, presa entre águas abertas e o fino e quebradiço gelo do fim do inverno.
Ventos “divinos” abriram o caminho
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Então, por ordem divina ou obra do destino, o ártico sorriu para Bushby e Kieffer: as correntes, que antes os levaram ao norte, começaram a carregá-los para o sul, o vento diminuiu e a temperatura despencou de zero para quase trinta e cinco graus negativos, conferindo solidez ao que tinha se tornado água: “Foi como ser Moisés e ver o Mar Vermelho se abrir”, disse Bushby.
Foram 14 dias e mais de 240 quilômetros até chegar na Rússia, onde foi, novamente, preso por autoridades de fronteira. Bushby enfrentou quase dois meses de incerteza e risco de deportação. Em 5 de maio de 2006, uma corte de apelação russa autorizou sua permanência e a continuidade da expedição.
Vitória: em Uelen, na Rússia, Karl e Dimitri Kieffer comemoram o feito e se tornam primeiros humanos a cruzarem o estreito de Bering a pé na história moderna
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Europa, finalmente
Na Rússia, sofreu com anos de problemas com visto e até um banimento, o que acabaria com qualquer possibilidade de continuar a expedição. Ele caminhava durante as janelas em que podia permanecer legalmente na Rússia, que duravam cerca de três meses, e precisava sair quando o período terminava, usando, como base, o Aslaca.
Ele cruzava Sibéria quando a crise financeira de 2008 explodiu, o que fez com que diversos patrocinadores deixassem a expedição. Entre aquele ano e 2010, permaneceu no México, a espera de melhores condições financeiras.
Em 2008, cruzando a Sibéria
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Em 2011, voltou à Sibéria. Em 2012, a Rússia voltou a negar seu visto.
Em vez de abandonar a expedição, Bushby iniciou uma caminhada de aproximadamente 5 mil km pelos Estados Unidos, de Los Angeles até Washington, D.C., para protestar contra a decisão e tentar pressionar o governo russo.
Ele chegou à capital americana e foi até a embaixada da Rússia.
Em 2014, andando até a embaixada russa nos Estados Unidos
Arquivo Pessoal Karl Bushby
A estratégia funcionou: em 2014, recebeu novamente autorização para entrar na Rússia e continuar a expedição.
Mongólia e China
Em 2017, Bushby chegou a Ulaanbaatar, na Mongólia.
Na Mongolia, com um de seus camelos, em 2017
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Chegou a montar uma caravana com dez camelos bactrianos para atravessar a Ásia pela antiga Rota da Seda. A expedição até começou, mas acabou fracassando após conflitos internos na equipe, e Bushby deixou a caravana para continuar sozinho.
Em 2018, entrou na China pela região de Xinjiang.
As autoridades chinesas restringiram sua movimentação e chegaram a confiscar imagens de sua equipe. Bushby foi levado para um hotel sob vigilância e recebeu a informação de que seria levado de carro até a fronteira — o que quebraria sua regra de não usar transporte para avançar.
Em 2018, cruzando o Cazaquistão
Arquivo Pessoal Karl Bushby
A embaixada britânica interveio, e ele recebeu autorização para continuar, mas sob forte supervisão, com rota determinada pelas autoridades.
A única alternativa: nadar
Em 2019, alcançou o Uzbequistão e, posteriormente, a região próxima à fronteira entre o Turcomenistão e o Irã.
A partir dali, a rota terrestre ficou praticamente impossível.
Problemas de visto, sanções internacionais, a pandemia de Covid-19 e, posteriormente, em 2022, a guerra na Ucrânia fecharam as alternativas por Irã e Rússia.
Atravessando o mar Cáspio: no barco só para descansar
Arquivo Pessoal Karl Bushby
A solução foi radical: atravessar o mar Cáspio a nado.
Em 2024, Bushby nadou do Cazaquistão até o Azerbaijão, acompanhado da exploradora e nadadora Angela Maxwell, de dois nadadores do Azerbaijão — Anastasiya Boborikna e Abdurrahman Rustamov — e de uma equipe de apoio marítimo.
Foram 132 horas na água
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Foram 288 km, 31 dias e mais de 132 horas dentro da água. Os barcos de apoio eram usados para segurança, alimentação, descanso e sono, mas não para fazer o deslocamento da expedição.
Últimos milhares de quilômetros
Em 10 de novembro de 2024, Bushby deixou Baku, no Azerbaijão, caminhando novamente. Passou por Azerbaijão, Geórgia e Turquia. Em 25 de abril de 2025, chegou a Istambul.
Em 2025, na Turquia
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Pouco depois, conseguiu uma autorização especial para atravessar a pé a Ponte dos Mártires de 15 de julho, sobre o Bósforo. Com isso, entrou oficialmente na Europa a pé.
Depois passou por Bulgária, Romênia, Hungria, Eslováquia, Alemanha, Bélgica e França.
O Brexit criou outro problema: como cidadão britânico, Bushby estava sujeito às regras de permanência no Espaço Schengen. Por isso, precisou deixar a região e retornar temporariamente ao México para aguardar uma nova janela de permanência.
Faça neve, faça chuvam faça sol: Bushby na Turquia em 2025
Arquivo Pessoal Karl Bushby
Em junho de 2026, chegou à Bélgica e novamente precisou deixar a Europa devido ao limite de permanência.
Bushby queria atravessar inicialmente o Canal da Mancha pelo túnel que liga França e Reino Unido. A Eurotunnel, responsável pelo caminho, recusou o pedido para que ele utilizasse um túnel de serviço.
Bushby, novamente, se viu com apenas uma alternativa para completar a missão que impôs a si 28 anos atrás: nadar.
No início de setembro de 2026, Bushby anunciou que havia recebido autorização especial das autoridades francesas para fazer a travessia. Ele retomou a caminhada na Bélgica, chegou a Tournai em 18 de setembro e entrou na França em 20 de setembro.
Karl chegando em Dover, na Inglaterra, 28 anos depois de ter deixado país natal
India Whiskey Photographic
Em 1º de outubro, começou a travessia a nado e cinco dias depois, na segunda-feira, 5 de outubro de 2026, depois de 28 anos de expedição, Bushby chegou ao litoral do Reino Unido, desembarcando na região de Dover. Foi a primeira vez em 28 anos que colocou os pés em solo britânico.
Mais um mês de caminhada e ele finalmente voltou para casa da mãe, na cidade onde nasceu, em Hull: foram 28 anos, 50 mil quilômetros e uma obstinação incomparável: — O que outras pessoas podem interpretar como teimosia, eu interpreto como determinação — disse.
Karl Bushby ao chegar na Inglaterra, 28 anos depois, no dia 1 de outubro
Zach Guglin
‘O que fazer depois do impossível?’
Agora, a história de Karl, além de ser contada pelo cineasta Werner Herzog, em um documentário ainda sem nome — que deve sair ainda este ano — também será transformada em livro, escrito por ele mesmo.
Sobre o que vai fazer daqui para frente, o britânico afirma não ter certeza, mas considera diversas alternativas
— Tudo o que Karl Bushby é, aparentemente, também vai parar. Por isso, acho que vai haver aí uma pequena crise de identidade — diz — A minha outra paixão na vida é a literatura científica e o envolvimento com a ciência, se eu tivesse escolha, seria nisso que passaria o resto da minha vida focado —
Agora, no entanto, ele pretende apenas tentar se “restabelecer” no mundo, usando do “mundo que deixa para trás” — esses 28 anos de caminhada — como experiência
— Mas acho que a solução para este problema é encontrar outra missão e outra paixão, e pode ser outra missão impossível —
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Vinte e oito anos depois: a jornada de britânico que se tornou primeira pessoa a andar ao redor do mundo




