Antigamente, para trair alguém era necessário esforço.
A pessoa precisava sair de casa, inventar uma reunião, encontrar um lugar discreto e decorar uma quantidade perigosa de mentiras. Era praticamente um segundo emprego, sem salário, férias ou vale-transporte sem falar que um segundo emprego se fazia necessário, se a traição virasse segunda família.
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Hoje, basta responder a um story com um foguinho.
Pronto. Está inaugurada a chamada microtraição digital: pequenas interações que, isoladamente, parecem inocentes, mas reunidas formam um condomínio inteiro de segundas intenções.
O problema começa porque ninguém sabe exatamente onde termina a simpatia e começa a safadeza.
Curtir uma fotografia é traição?
Depende.
Se a fotografia mostra a pessoa recebendo um diploma, talvez seja apenas educação. Se mostra a pessoa de toalha, diante do espelho, acompanhada da frase “dia de renovar as energias”, provavelmente ninguém está interessado na formação cultural dela.
Existem emojis que também merecem investigação. Um polegar significa “vi”. Um coração pode ser carinho. Mas três foguinhos, uma berinjela e aquela carinha mordendo o lábio já constituem uma reunião com pauta definida.
O acusado sempre tem explicação:
– Foi só um emoji.
Sim. E a aliança também é só um pedaço de metal. Experimente deixá-la em casa antes de sair e veja como os objetos ganham significado rapidamente.
A microtraição é perfeita para quem deseja fazer coisa errada sem assumir nem para si mesmo. A pessoa não beija, não marca encontro e talvez nunca encoste fisicamente na outra. Apenas mantém uma pequena plantação de possibilidades.
Um elogio aqui, uma mensagem apagada ali, uma conversa depois da meia-noite e a tradicional pergunta: – Você ainda está acordado (a)?
Não. O outro responde dormindo, possuída pelo espírito do Wi-Fi.
Também existe a categoria dos que seguem desconhecidos atraentes com dedicação científica. O perfil da pessoa parece um catálogo: modelos, influenciadores, professores de academia e criaturas que aparentemente passam o dia inteiro de roupa de banho, mesmo morando a quatrocentos quilômetros da praia.
Quando o parceiro pergunta, a resposta vem pronta:
– Eu sigo pelo conteúdo.
Naturalmente. O conteúdo está de costas, usando fio dental e explicando a importância de beber água.
Outra modalidade moderna é manter o ex em banho-maria digital. Não conversa todos os dias, não encontra, não assume interesse. Mas acompanha tudo, reage ocasionalmente e manda “parabéns” às 00h01 para demonstrar que continua ocupando um pequeno apartamento emocional naquela vida.
Se o relacionamento atual fracassar, o ex já estará descongelando.
Existe ainda o arquivo secreto de conversas. O celular permanece virado para baixo, protegido por senha, reconhecimento facial e talvez um guarda armado. Se o parceiro se aproxima, a tela some com a velocidade de um documento confidencial do governo.
– O que você estava vendo?
– Nada.
Esse “nada” costuma ter nome, fotografia e excelente iluminação no banheiro.
É claro que toda pessoa tem direito à privacidade. Estar em um relacionamento não significa entregar o celular para perícia diariamente. O problema não é possuir senha. É agir como se o aparelho contivesse a localização de uma arma nuclear quando alguém pergunta quem mandou mensagem.
A fronteira da traição não é igual para todos. Alguns casais não se importam com curtidas, elogios ou amizades com ex-parceiros. Outros consideram certas interações uma quebra séria de confiança. O que casal nenhum tem o hábito de fazer, é o acordo prévio. Vale o que? Nesse acordo cabe até mesmo uma relação aberta, se ambos concordam. Traição não existe, quando há acordo. O importante é conversar antes que a investigação comece.
Porque, quando duas pessoas não combinam os limites, uma acredita que está apenas sendo sociável enquanto a outra já montou uma comissão parlamentar de inquérito no sofá.
Talvez exista uma pergunta simples para identificar a microtraição: você faria a mesma coisa se seu parceiro estivesse olhando?
Se a resposta for “sim”, provavelmente não há problema.
Se for “sim, mas eu explicaria antes”, acendeu a luz amarela.
Se for “depende de quão rápido consigo apagar”, o relacionamento já precisa chamar a assistência técnica.
A tecnologia não inventou a falta de lealdade. Apenas tornou possível praticá-la de pijama, sem sair da cama e usando figurinhas animadas.
No amor moderno, a terceira pessoa nem sempre deixa perfume na roupa.
Às vezes, deixa apenas uma notificação:
“Fulano (a) curtiu sua foto .”
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