“Todos os seres humanos têm sua própria cordilheira”, afirma Zerbino


Conhecido mundialmente como o “Milagre dos Andes”, o acidente do voo 571 da Força Aérea do Uruguai, na Cordilheira dos Andes, se tornou uma das histórias de sobrevivência mais marcantes do século XX. 

Entre os 16 sobreviventes resgatados após 72 dias isolados no frio extremo, estava o uruguaio Gustavo Carlos Zerbino Stajano. Depois do acidente, o estudante de medicina e jogador de rúgbi do Old Christians, equipe ligada ao colégio Stella Maris, seguiu com a trajetória profissional. 

Embora tenha iniciado os estudos em medicina, formou-se em administração de empresas pela Universidade da República. E, desde 1980, atua como diretor da Cibeles SA, empresa farmacêutica familiar fundada em 1975. Também presidiu a Câmara de Especialidades Farmacêuticas e Afins do Uruguai (CEFA).

No esporte, Zerbino continuou com a carreira no rúgbi, integrando a seleção uruguaia e participando dos campeonatos sul-americanos. Além disso, foi cofundador e vice-presidente da organização Rugby sem Fronteiras, criada em 2009 para promover os valores do rúgbi por meio de campanhas, eventos e conferências.

Atualmente, Gustavo Zerbino se dedica a compartilhar internacionalmente os aprendizados e reflexões sobre sobrevivência, liderança e superação adquiridos durante a experiência nos Andes. 

Hoje, ele é um dos palestrantes mais requisitados da América Latina. E no próximo dia 26 de maio, às 20 horas, Zerbino chega à Brasília para uma palestra inesquecível no Ulysses Centro de Convenções.

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Em entrevista ao Metrópoles, Zerbino conta um pouco mais sobre a história dele e como essa experiência nos Andes o moldou como pessoa. 

Zerbino, você passou 72 dias em uma situação extrema. Como toda essa experiência te impactou na forma como lida com a pressão no mundo dos negócios? 

Todos os dias, tento ser a melhor versão de mim mesmo. Em tudo o que faço, dou o meu máximo potencial físico, mental e emocional. 

No rugby, quando voltamos, tinha perdido 40 quilos e, 10 meses depois, estava jogando pelo Uruguai no Campeonato Sul-Americano de Rúgbi, em São Paulo (Brasil). Em 14 anos, ganhamos 12 campeonatos. 

Aos 22 anos, tornei-me presidente do time Old Christians. Também fui presidente da União Uruguaia de Rúgbi por 5 anos e, hoje, 20 anos depois, sou presidente de uma multinacional farmacêutica. Representamos a MSD no Uruguai, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo. 

Portanto, para mim, fazer parte de equipes de pessoas que trabalham por um objetivo comum é um grande prazer. E quando você aprende que a verdadeira liderança deve ser baseada no amor e na vocação para servir, você entende que precisa contribuir com o que for necessário.

Dessa forma, quando você é a melhor versão de si mesmo, você incentiva os outros a fazerem o mesmo.

Viajo pelo mundo há mais de 30 anos dando palestras para as maiores empresas do mundo, multinacionais, universidades e times de futebol — estive com a seleção uruguaia de futebol por 12 anos, participando de três Copas do Mundo e duas Copas América. Ganhamos a Copa América na Argentina, com 10 jogadores. E me divirto nesse processo. 

Sua história ganhou bastante destaque com o filme “A Sociedade da Neve”, na Netflix. Há algum ponto que não foi real ali na história retratada? 

Existem três filmes, 50 documentários e vários livros. Oficial sobre a nossa história, existem dois: o “Alive” (do autor inglês Piers Paul Read) e “A Sociedade da Neve” (Pablo Vierci, um dos sobreviventes). 

O livro “A Sociedade da Neve” retrata como vivemos, o que aprendemos, o que experimentamos, o que sofremos e as emoções que sentimos, sob uma perspectiva que faz com que o leitor possa se ver refletido na história. Porque não existe medidor de dor, minha dor não é maior que a sua. 

Todos os seres humanos têm sua própria cordilheira, em algum momento. Seja quando perde um ente querido ou quando perde o emprego, quando se divorcia, você vive uma cordilheira. Então, é isso que eu ensino. 

Mas, eu não dou aulas, eu compartilho o que aprendemos, e depois você pode fazer o que quiser com isso, mas funcionou para nós.

E é isso que partilho com o mundo, que hoje carece profundamente de valores e princípios, onde a razão da força é mais importante do que a força da razão. E temos de aprender a ser respeitosos.

A Sociedade de Neve era uma sociedade uruguaia, 100% democrática, republicana e respeitosa. Todas as decisões tomadas na montanha foram unânimes. Se alguém discordasse, a decisão não era tomada.

Então, o filme tem duas horas e meia de duração, vivemos 72 dias, o diretor acrescenta sua interpretação, mas está muito bem feita e reflete basicamente o que vivemos. 

“A Sociedade da Neve” concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional

Você sobrevoou a Cordilheira dos Andes depois do acidente? Como foi a experiência?

Bom, para voltar ao Uruguai, tivemos que pegar um avião. Voamos primeiro de helicóptero, o que foi terrível, porque era um helicóptero do Vietnã que não foi feito para voar tão alto, e quase caiu várias vezes. Depois, pegamos um avião.

E já estive em milhares e milhares de aviões, e voo tranquilamente, conectado ao presente, não me projeto no passado. Para mim, aviões não caem.

Não estou dizendo que gosto, porque fico sentado, comendo, dormindo e, quando desembarco, digo: “Bom, mais um voo”. Mas, existe uma tensão interna, que no momento em que aterriza, diz “se acabou a tortura”.

Depois de tudo o que passou, o que significa para você estar vivo? 

A vida é um presente maravilhoso, e eu acredito em Deus. Em um Deus bondoso que quer o melhor para todos. E sou muito afortunado, e é por isso que trabalho há 20 anos, 5 horas por semana, em prisões. 

Em programas que dão aos detentos uma segunda chance para que possam se reintegrar à sociedade por meio do trabalho e aprendendo valores de respeito jogando rúgbi.

E faço isso porque o mundo nos abandonou na cordilheira. E acredito que, se não prepararmos as pessoas que estão na prisão para viverem em nossa sociedade, amanhã elas acabarão trabalhando para o narcotráfico ou vão te encontrar com uma arma.

Acredito que a responsabilidade que temos com as pessoas que nunca tiveram oportunidade, é dar amor, disciplina e exemplos a seguir. E, por meio do rúgbi, elas internalizam esses valores. Elas se tornam parte de uma equipe e aprendem que, na vida, só precisamos nos levantar uma vez a mais do que caímos. 

Então é isso que eu faço todos os dias da minha vida: compartilhar a alegria da minha vida.

Metrópoles Talks com Gustavo Zerbino

Data: 26 de maio de 2026, às 20h
Local: Ulysses Centro de Convenções — Brasília (DF)
Ingressos: Bilheteria Digital 

 



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