Tiroteio na Avenida Brasil: unidade da PM responsável pelo patrulhamento das vias expressas tem déficit de 301 policiais

Uma perseguição policial na noite da última terça-feira transformou a Avenida Brasil, a principal via expressa do Rio, em cenário de guerra. Cinco pessoas morreram — entre elas quatro suspeitos e um cabo da Polícia Militar. O confronto começou após equipes do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) tentarem abordar um grupo que, segundo a corporação, se deslocava para realizar uma invasão a uma área dominada por uma facção rival. O episódio expôs, mais uma vez, como a avenida se consolidou como um corredor estratégico para o deslocamento de criminosos, expondo a população com frequência a confrontos armados. Documentos obtidos pelo EXTRA mostram que justamente o BPVE, responsável pelo patrulhamento das vias expressas da capital, enfrenta dificuldades para manter seu efetivo. De acordo com um documento interno da corporação, a unidade opera com um déficit de 301 policiais militares em relação ao quantitativo previsto.
Outros documentos internos ainda mostram que outros batalhões emprestam efetivo ao BPVE, como forma de dribar o déficit na unidade. Levantamento do Instituto Fogo Cruzado aponta que, entre 1º de janeiro e 29 de julho deste ano, foram registrados 20 tiroteios no perímetro da via, nove deles durante operações policiais. Ao todo, 22 pessoas foram baleadas e 12 delas morreram. Entre as vítimas, há dois agentes de segurança mortos e outros dois feridos. Embora o total de ocorrências em 2026 seja menor que o do mesmo período de 2025 — quando houve 29 tiroteios —, a Avenida Brasil segue como a via expressa com maior concentração de episódios de violência na cidade.
Os confrontos têm impacto direto na rotina da cidade. Levantamento feito pelo EXTRA com base nos alertas divulgados pelo Centro de Operações e Resiliência (COR) mostra que a via foi interditada pelo menos 17 vezes este ano em razão de tiroteios ou outros episódios de violência. Os bloqueios ocorreram em trechos como Maré, Bonsucesso, Guadalupe, Penha, Benfica, Manguinhos, Costa Barros, Brás de Pina e no acesso à Vila Kennedy, provocando reflexos no trânsito por diferentes regiões da cidade.
20 km pela via expressa
A tentativa de abordagem ao veículo anteontem aconteceu às 22h30, em Guadalupe, após equipes do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) receberem informações de inteligência sobre a movimentação do grupo em dois carros. De acordo com a PM, eles não obedeceram à ordem de parada e foi iniciada a perseguição, que se estendeu por 20 quilômetros. Agentes pediram reforço, e foi montado um cerco com apoio de policiais do Batalhão de Choque que integram a Operação Interceptação, montada justamente para manter monitoramento contínuo da região, devido às disputas territoriais entre grupos criminosos. O carro onde estavam seis bandidos bateu na mureta de um canteiro na altura de Ramos, e os suspeitos que estavam em outro veículo conseguiram fugir.
Neste momento, houve intensa troca de tiros, deixando motoristas que trafegavam pela Brasil em meio ao fogo cruzado. Os seis bandidos que estavam no carro foram baleados: quatro morreram e dois ficaram feridos.
Atingido na cabeça
No confronto, o PM Fernando Plácido Roberto Rocha, de 38 anos, foi ferido com um tiro na cabeça e socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Atingido por um disparo no rosto e outro no ombro, o agente Charles Batista dos Santos, de 45 anos, passou por cirurgia e permanece em estado gravíssimo. Já o motorista Vitor Alberto Sá de Souza, de 47 anos, passava pela região quando foi alcançado por três disparos (um no ombro e dois no dorso) efetuados pelos criminosos durante a fuga, na altura da Penha.
Na manhã de ontem, sentada em um ponto de ônibus na altura de Ramos, a autônoma Joselina Santos, de 60 anos, contou que teme ser a próxima vítima.
— É uma insegurança geral, mas um dos meus maiores medos é estar sentada aqui e, de repente, me ver em meio ao fogo cruzado entre bandidos ou entre criminosos e a polícia. Isso aqui é cercado de comunidades; então, a qualquer momento, pode vir uma pessoa atirando de dentro do carro, como aconteceu na noite passada— disse ela.
Em nota, a Polícia Militar informou que a distribuição do efetivo operacional “é realizada de forma técnica e estratégica, considerando critérios como a análise dos indicadores de criminalidade, as demandas operacionais, o fluxo de pessoas, eventos, características territoriais e as necessidades específicas de cada região do estado.” A corporação também disse que “a análise do efetivo não pode se limitar ao quantitativo formalmente previsto para cada batalhão, devendo considerar o emprego conjunto das diversas modalidades de policiamento disponíveis”.
Veja a nota completa:
“A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar esclarece que a distribuição do efetivo operacional é realizada de forma técnica e estratégica, considerando critérios como a análise dos indicadores de criminalidade, as demandas operacionais, o fluxo de pessoas, eventos, características territoriais e as necessidades específicas de cada região do estado.
Nesse contexto, unidades como o Batalhão Tático de Motociclistas (BTM) e o Rondas Especiais e Controle de Multidões (RECOM) atuam de forma integrada com os batalhões de área, reforçando o policiamento ostensivo realizado nas vias de responsabilidade do Batalhão de Vias Expressas (BPVE), ampliando a presença policial. Assim, a análise do efetivo não pode se limitar ao quantitativo formalmente previsto para cada batalhão, devendo considerar o emprego conjunto das diversas modalidades de policiamento disponíveis.
A Polícia Militar segue realizando o emprego do seu efetivo de maneira dinâmica, buscando otimizar os recursos disponíveis para atender às demandas da população e garantir maior eficiência na prestação do serviço de segurança pública.”



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