Tenente-coronel excluía contatos do celular da esposa e borrifava o próprio perfume na farda dela

A soldado Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça no mês passado, vivia um ambiente doméstico e profissional pautado pelo controle do marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, acusado pelo Ministério Público de tê-la matado. Depoimentos de familiares e colegas de farda e dados da perícia mostram que o oficial bloqueava contatos masculinos do celular da companheira e chegou a borrifar seu perfume na farda dela para “marcá-la” com o próprio cheiro.
Segundo uma colega de trabalho de Gisele, em depoimento citado na investigação, o hábito de borrifar o perfume masculino na farda da soldado antes de ela sair para o trabalho tinha por objetivo que ela exalasse o cheiro do marido durante todo o expediente, servindo como “advertência” para outros homens.
A preocupação com “outros homens” era uma constante nas conversas entre o oficial e a soldado. “Em um lugar onde tá cheio de homens querendo te comer e te xavecando o tempo todo? E vc super simpática e sorridente? Todo o mal do mundo nisso”, escreveu Neto à esposa no início de fevereiro.
Em outra discussão, Neto também dizia não admitir que Gisele seguisse ou conversasse com outros homens nas redes sociais. Registros mostram que ele chegou a abordar outros homens por aplicativos de mensagem para intimidá-los. Segundo o inquérito, Neto possuía as senhas das redes sociais da esposa e monitorava suas interações diariamente.
Um dos momentos mais constrangedores citados por diversas testemunhas ocorreu durante um café da tarde na seção em que Gisele trabalhava. Na ocasião, uma sargento de outra unidade elogiou Gisele dizendo: “Realmente você é muito bonita, bem que ele falou”. O tenente-coronel, conforme relatos, perdeu o controle, ficando “muito bravo” e passou a interrogar a sargento exigindo saber o nome do policial que teria falado sobre a beleza de sua esposa.
A militar precisou se retirar do local às pressas, enquanto Neto tentou segui-la. Ele teve que ser contido fisicamente pelas pessoas presentes no quartel. Após o episódio, Gisele solicitou que o marido não entrasse mais em sua seção de trabalho.
Testemunhas lotadas no Departamento de Suporte Administrativo do Comando Geral (DSA/CG) relataram que o tenente-coronel comparecia ao local quase todos os dias sob o pretexto de buscar a esposa ou tomar café. Nessas visitas, ele adotava posturas furtivas, como entrar “bem devagar” na seção para tentar ouvir conversas ou se escondendo atrás de pilastras para espiar o que Gisele estava fazendo.
Quando Gisele se inscrevia para a “Atividade Delegada”, o oficial se escalava no mesmo horário e local para vigiá-la, determinando que ela ficasse como “auxiliar” ou “terceiro homem” em sua própria viatura.
Paralelamente, ele a proibia a esposa de usar maquiagem, salto alto ou seus próprios perfumes fora do quartel. O tenente-coronel foi preso nesta quarta-feira, 18, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. A prisão aconteceu a pedido de uma solicitação da Corregedoria da Polícia Militar (PM) de São Paulo. A Polícia Civil encaminhou um outro pedido de prisão, cumprido no dia seguinte. O oficial esta detido no Presídio Militar Romão Gomes. Ele nega o feminicídio e sustenta a tese de que se tratou de um suicídio.
Tiro por trás
Os laudos necroscópicos e pós-exumação apontam que o tiro foi desferido com a arma encostada à têmpora direita de Gisele, de baixo para cima. Além disso, ela foi abordada por trás, com a mão esquerda do agressor apertando sua face e pescoço. A arma foi empunhada e disparada pela mão direita do atirador, segundo os exames.
Outro ponto que levantou suspeitas foi a posição da arma usada no crime. Quando os primeiros policiais chegaram ao apartamento, viram a vítima caída na sala, em frente à televisão. Em sua mão direita, a arma estava presa a um de seus dedos, o que é inusual em casos de suicídio. Em geral, o revólver se solta das mãos, segundo pessoas que conhecem esse tipo de situação. Diante das evidências, os investigadores afastaram a hipótese de suicídio.
“O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita; após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão), com limpeza/banho do autor, sendo o investigado a única pessoa com ela antes do fato e o primeiro a intervir na cena, o que robustece a autoria em seu desfavor”, diz trecho do despacho do juiz militar.
Visão do box para a sala
Além de fazer a perícia no local do crime, os policiais civis realizaram uma reprodução simulada do ocorrido no apartamento em que Gisele morava com o marido. Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi o fato de Geraldo Neto ter dito que tomava banho quando ouviu o disparo de uma arma, vindo da sala. Na sequência, ele teria visto, pelo vidro do box e pela porta do banheiro, a esposa caída.
Porém, para os peritos, a dinâmica do local impediria que Geraldo Neto tivesse tal visão. Além disso, com uso de resíduos e substâncias, eles localizaram marcas de sangue no banheiro, tanto no box quanto nas paredes e no piso.
“A reprodução simulada e a perícia (…) identificaram luminol positivo no box, paredes, piso e registros do banheiro usado pelo investigado, toalha rosa com reação positiva e bermuda jeans dele com padrão de gotejamento latente, tudo em frontal contradição com a versão de que não teve contato com o sangue nem manipulou a cena. Ainda, a reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas, com ou sem a árvore de Natal na sala, contrariando a narrativa do investigado”.
Defesa
Até o presente momento, a defesa do tenente-coronel sustenta que o caso se trata de um suicídio. No dia da prisão do oficial, advogados disseram estar “estarrecidos” . A equipe jurídica recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão. Sobre as mensagens usadas para justificar a prisão, os advogados alegam que houve descontextualização e exposição indevida de aspectos da vida privada do investigado.



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