técnico quer dar identidade a Portugal e construir seleção para Copa de 2030


O fim do ciclo de Roberto Martínez abrirá caminho para o início da “era Jorge Jesus” na seleção portuguesa. Com acordo para assumir o comando da equipe, o treinador de 71 anos chega com um projeto que vai além da busca por resultados imediatos: pretende criar uma identidade própria, tornar Portugal mais ofensivo e iniciar a renovação da geração que disputará a Copa do Mundo de 2030 em casa.

Jorge Jesus deverá assinar contrato com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) até 2030. O cargo representa a realização de uma ambição antiga do treinador, que nunca escondeu o desejo de comandar a seleção do país.

A mudança ocorre após a eliminação portuguesa na Copa do Mundo de 2026 e o encerramento da passagem de Roberto Martínez. O novo técnico terá como primeiro desafio implementar rapidamente suas ideias antes do início da próxima edição da Liga das Nações, em setembro.

Um dos principais objetivos será desenvolver uma maneira própria de Portugal jogar. A ausência de uma identidade reconhecida internacionalmente chegou a ser debatida durante a Copa. Bernardo Silva lamentou que, diferentemente de seleções como Espanha e Alemanha, os portugueses ainda não tenham uma característica coletiva que funcione como uma espécie de marca registrada.

Jesus pretende preencher essa lacuna. A ideia é criar o que internamente já é tratado como uma “forma portuguesa de jogar”, baseada nas características técnicas dos atletas e em uma postura mais agressiva dentro de campo.

Apesar do histórico do treinador, a seleção não deverá adotar o tradicional 4-4-2 utilizado por ele em passagens por Benfica e Sporting. O plano é manter como ponto de partida o 4-2-3-1, esquema usado com frequência nos últimos anos, mas apresentar uma versão mais ofensiva daquela vista durante o trabalho de Martínez.

A formação também é utilizada por Luís Freire na seleção portuguesa sub-21, geralmente alternada com o 4-3-3. A continuidade do modelo pode facilitar a integração dos jogadores mais jovens e ajudar na construção de uma identidade comum entre as diferentes categorias.

A intensidade deverá ser outra característica do novo ciclo. Jogadores que trabalharam com Jesus costumam destacar a forma como o treinador vive os treinos e a atenção dedicada aos movimentos coletivos. Mais do que detalhista, o português é descrito por antigos comandados como obcecado pela repetição e pela correção dos posicionamentos.

A rotina de uma seleção, porém, será diferente daquela encontrada nos clubes. Jesus terá períodos mais curtos de preparação e menos sessões de treinamento para implementar conceitos táticos antes das partidas.

Para acelerar o processo, o treinador contará com uma vantagem: quase metade dos jogadores convocados para a Copa já conhece seus métodos.

Dos 26 atletas levados ao Mundial por Roberto Martínez, 11 foram comandados por Jesus em algum momento da carreira. João Palhinha, presença frequente nas convocações, também trabalhou com o treinador. Ao todo, serão 12 jogadores capazes de ajudar na adaptação do restante do elenco.

O grupo é visto como uma base importante para a implementação das novas ideias. A familiaridade com os métodos, a intensidade dos treinamentos e as exigências táticas poderá reduzir o período de adaptação antes dos primeiros compromissos.

A estreia deverá ocorrer na Liga das Nações. Portugal terá confrontos contra País de Gales, Noruega e Dinamarca no fim de setembro, período que marcará os primeiros testes da nova comissão técnica.

Nos treinamentos, a organização defensiva deverá receber atenção especial. Embora seja conhecido pelo estilo ofensivo, Jesus costuma iniciar a construção de suas equipes pelo posicionamento sem a bola. O equilíbrio defensivo é considerado fundamental para permitir que laterais, meio-campistas e atacantes assumam mais riscos no ataque.

A importância desse setor também ajuda a explicar o desejo de contar com um ex-zagueiro de destaque na comissão técnica. Ricardo Carvalho e Pepe estão entre os nomes avaliados para integrar o novo projeto. A FPF e Jesus já discutiram a possibilidade de incluir um antigo defensor da seleção na equipe de trabalho.

Além das mudanças imediatas, o treinador terá uma missão de médio prazo: preparar Portugal para a renovação de uma geração antes da Copa de 2030, que será organizada em parceria com Espanha e Marrocos.

O desafio poderá exigir a construção de “duas seleções”. Parte da atual base ainda deverá estar em condições de disputar a Eurocopa de 2028, mas alguns jogadores poderão não chegar ao Mundial seguinte no mesmo nível.

Cristiano Ronaldo já anunciou que não disputará outra Copa. Os goleiros José Sá e Rui Silva terão, respectivamente, 37 e 36 anos em 2030. Nélson Semedo e João Cancelo chegarão aos 36, enquanto Bernardo Silva e Bruno Fernandes terão 35.

A idade não significa necessariamente que os jogadores estarão fora dos planos, mas aumenta a necessidade de preparar substitutos. A expectativa é de que alguns veteranos permaneçam importantes durante a Euro de 2028, enquanto atletas mais jovens ganham espaço gradualmente até o Mundial.

A renovação não é considerada um obstáculo para Jesus. Ao longo da carreira, o treinador deu oportunidades a jovens em diferentes clubes e ajudou no desenvolvimento de jogadores que posteriormente foram negociados por valores elevados.



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