Falar sobre saúde mental tornou-se mais natural nos últimos anos, mas transformar a conscientização em atendimento acessível e contínuo ainda é um desafio. A prevenção, a identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico e o fortalecimento dos serviços públicos estão entre as medidas necessárias para garantir assistência à população. A questão ganha destaque neste sábado, 10 de outubro, quando é celebrado o Dia Mundial da Saúde Mental.
Para o psiquiatra Rawllison Santos, a maior abertura da sociedade para discutir o tema representa um avanço, mas é preciso encontrar equilíbrio entre reconhecer o sofrimento emocional e evitar que dificuldades comuns da vida sejam automaticamente interpretadas como transtornos psiquiátricos.
“As pessoas estão mais abertas a reconhecer o sofrimento emocional e procurar ajuda. Por outro lado, ainda existe muito preconceito e, ao mesmo tempo, uma tendência a transformar dificuldades comuns da vida em diagnósticos psiquiátricos”, avalia o especialista. Para ele, é necessário evitar tanto a minimização do sofrimento de quem precisa de tratamento quanto a medicalização de experiências próprias da vida cotidiana.
Identificação precoce
Um dos desafios para a promoção da saúde mental é reconhecer quando mudanças de comportamento podem indicar a necessidade de ajuda profissional. Segundo Rawllison Santos, isolamento, irritabilidade frequente, alterações do sono, perda de interesse pelas atividades habituais e queda no rendimento escolar ou profissional merecem atenção, sobretudo quando persistem.
O psiquiatra também alerta para a importância de levar a sério manifestações relacionadas à morte ou ao suicídio. A identificação precoce, explica, pode ajudar a evitar o agravamento dos problemas e reduzir os prejuízos provocados pelo sofrimento psíquico.
Nesse processo, familiares, escolas e ambientes de trabalho podem contribuir para perceber mudanças e incentivar a busca por atendimento. A prevenção, entretanto, não se limita à observação dos sintomas: também envolve condições sociais, espaços de convivência e acesso aos serviços de saúde.
A atenção às crianças, aos adolescentes e aos jovens merece cuidado especial. Entre os fatores que têm chamado a atenção dos profissionais estão o uso excessivo de telas, a influência das redes sociais, o bullying, a pressão por resultados e as dificuldades nas relações familiares.
Santos ressalta que essas situações precisam ser observadas sem que toda dificuldade emocional ou comportamental seja tratada como doença. Para ele, a família deve participar da vida dos filhos, enquanto as escolas precisam estar preparadas para identificar mudanças de comportamento. Ao poder público, cabe também oferecer espaços de convivência, lazer e esporte, além de garantir acesso aos serviços de saúde mental.
Continuidade do cuidado
A ampliação da conscientização precisa ser acompanhada por condições efetivas de atendimento. Na avaliação do psiquiatra, uma das principais dificuldades está no acesso aos serviços e, especialmente, na continuidade do tratamento.
“Não adianta o paciente conseguir uma consulta e depois passar meses sem acompanhamento”, afirma o especialista. Ele defende o fortalecimento da atenção básica, a ampliação dos serviços especializados e uma integração mais eficiente entre as equipes de saúde.
Em Goiás, a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) reúne serviços destinados ao cuidado de pessoas em sofrimento psíquico. A estrutura contempla diferentes níveis de atenção, desde os serviços básicos até o atendimento especializado e hospitalar, conforme as necessidades de cada usuário. A existência desses serviços, porém, não elimina o desafio de assegurar que a população consiga acessá-los e mantenha o acompanhamento necessário.
Conforme avalia, a integração entre os profissionais e os serviços é fundamental para evitar interrupções no cuidado. O tratamento não deve se resumir a uma consulta pontual, mas oferecer condições para que o paciente receba acompanhamento de acordo com suas necessidades.
Leis e projetos na Alego
Na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), iniciativas relacionadas à saúde mental abordam desde a prevenção nas escolas até a atenção aos trabalhadores e a continuidade do tratamento.
A Lei estadual nº 23.443/2025, de autoria do deputado Antônio Gomide (PT), institui a Semana Estadual de Promoção da Saúde Mental nas Escolas da Rede Pública Estadual de Ensino, realizada anualmente na segunda semana de maio. A iniciativa prevê atividades voltadas ao bem-estar mental, à identificação de sinais de alerta e à divulgação de estratégias saudáveis de enfrentamento.
Outra medida é a Lei nº 24.265/2026, que dispõe sobre uma política estadual de atenção à saúde mental dos profissionais da saúde pública. A norma prevê ações de orientação, suporte psicossocial, cuidados especializados e identificação de sinais de adoecimento mental, ampliando a discussão sobre as condições de trabalho e a necessidade de prevenção.
A continuidade do tratamento também é tema de uma proposta em tramitação na Alego. O projeto de lei nº 7785/26, de autoria do deputado Dr. George Morais (MDB), versa sobre um programa para identificar e acompanhar pessoas com transtornos mentais graves que deixam de comparecer às consultas, interrompem o uso de medicamentos ou abandonam o acompanhamento terapêutico.
Sua redação, ainda a ser votada em definitivo, prevê medidas como contato com pacientes e familiares, articulação com a rede de apoio e encaminhamento para a retomada do cuidado.
As medidas refletem diferentes dimensões do desafio de promover saúde mental: prevenir o adoecimento, identificar situações de risco, oferecer suporte a grupos específicos e evitar que o atendimento seja interrompido.
Para além das campanhas
O Dia Mundial da Saúde Mental reforça a necessidade de tratar o tema como uma questão permanente de saúde pública. Campanhas de conscientização ajudam a combater o preconceito e estimulam a procura por ajuda, mas precisam estar associadas a ações concretas de prevenção e assistência.
Isso significa fortalecer a atenção básica, ampliar a capacidade dos serviços especializados, qualificar as equipes e melhorar a articulação entre os diferentes pontos da rede. Significa, ainda, considerar as particularidades de crianças, adolescentes, jovens e trabalhadores, promovendo ambientes mais acolhedores e condições para identificar precocemente situações de sofrimento.
O debate também envolve o papel do poder público na construção de políticas que articulem saúde, educação, assistência social, esporte e lazer. A atuação integrada desses setores pode contribuir para a prevenção e para a formação de uma rede de proteção mais próxima da população.
Na avaliação de Santos, o desafio é fazer com que a atenção dedicada ao tema se traduza em condições reais de cuidado. “As campanhas são importantes, mas não podemos falar tanto sobre saúde mental e continuar oferecendo tão poucas condições para que as pessoas sejam efetivamente atendidas”, conclui.
A data, portanto, vai além da conscientização: chama a atenção para a necessidade de transformar o debate em acesso, prevenção e continuidade da assistência, de modo que o cuidado com a saúde mental seja uma prioridade durante todo o ano.



