A mensagem pelo WhatsApp chegou para Fabrício (nome fictício) antes que o cartão de débito fosse entregue em sua casa, no Humaitá, Zona Sul do Rio, no último dia 18. Alguém do banco iria ligar para “dar baixa no recebimento”. Pelo telefone, uma mulher que se apresentou como gerente da sua agência bancária sabia todos os seus dados pessoais: número de celular, nome completo, data de nascimento, endereço, CPF, nome da mãe, agência e conta. Só pedia que ele digitasse a senha e desbloqueasse o cartão pelo aplicativo da instituição financeira.
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O funcionário público de 47 anos ficou desconfiado, não fez o desbloqueio e resolveu ir ao banco atrás de mais informações. Lá, descobriu que tinha escapado, por pouco, de um golpe: estelionatários, em algum ponto do percurso, interceptam o cartão e botam um adesivo informando que o gerente vai entrar em contato. Tudo para obter a senha durante o atendimento telefônico e ter acesso à conta da vítima.
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que no Estado do Rio, apenas entre janeiro e maio deste ano foram registrados 70.340 casos de estelionato, o equivalente a uma ocorrência a cada três minutos, em média. O número representa o maior para os cinco primeiros meses do ano desde 2003, quando os dados começaram a ser divulgados, e uma alta de 13% em relação ao mesmo período do ano passado.
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Os três maiores índices de criminalidade no estado são, nesta ordem, furtos, estelionatos e roubos. Dez anos atrás, a proporção entre os furtos e roubos e os estelionatos era de cinco para um, aproximadamente. Ou seja, para cada golpe havia cinco registros de furto ou de roubo. Hoje, são quase duas ocorrências de estelionato para cada roubo, e os casos de furto e golpe estão quase empatados.
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Para Fabrício, ficou a lição: é preciso tomar cuidado.
— Era tudo muito crível, com muitas informações. Se eu tivesse desbloqueado o cartão, talvez conseguissem cloná-lo ou fazer compras on-line. Muito cuidado: vale sempre ir à agência ou ter um gerente de confiança — conclui ele.
Quando Lúcia (nome fictício), uma moradora de 62 anos da Região Serrana do Rio, atendeu o telefone, no início de maio, achou que a chamada era do escritório de advocacia que a representava num processo de indenização. Foi transferida para um setor que seria o de liberação do dinheiro. No entanto, era um golpe: induzida pelos criminosos, compartilhou a tela com o suposto atendente e acabou fazendo transferências e empréstimos. No fim, teve um prejuízo de mais de R$ 100 mil.
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Idosos estão entre as principais vítimas dos estelionatários. Dados do ISP de 2024, os últimos disponíveis, mostram que quase 36 mil pessoas com mais de 60 anos foram alvo de golpes naquele ano no estado.
Em abril deste ano, uma mudança no Código Penal acabou com a exigência de representação da vítima no estelionato — antes, a pessoa tinha um prazo para ir à polícia e dizer que queria processar o criminoso.
— Essa necessidade de representação acabava contribuindo para a impunidade, porque muitas vezes a vítima não sabia que precisava disso. O prazo passava e o autor ficava impune — explica a a advogada criminalista Carolina Heringer.
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