Preso em operação no Complexo de Israel usava bandeira do país no colete a prova de balas

Um dos presos durante a operação da Polícia Militar em Vigário Geral e Parada de Lucas, na manhã desta nesta segunda-feira, usava um colete com uma bandeira de Israel. O símbolo aparece incorporado ao uniforme tático do criminoso e faz parte da identidade adotada pelo grupo que domina o chamado Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio. A referência, no entanto, não indica qualquer vínculo do traficante ou da facção com o Estado de Israel.
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Complexo de Israel: PM faz operação em Vigário Geral e Parada de Lucas, em mais uma ofensiva; ação mira intolerância religiosa
A adoção de símbolos relacionados ao país integra a simbologia criada pelo tráfico local e está associada à atuação do Terceiro Comando Puro (TCP), sob o comando de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, hoje no topo da lista de criminosos mais procurados pela polícia fluminense.
A referência também está inserida no conjunto de práticas religiosas e de intolerância atribuídas ao grupo, alvo da operação de hoje, que mobilizou mais de 200 policiais e teve como um dos objetivos combater a perseguição a praticantes de religiões de matriz africana, outros segmentos cristãos e outras minorias religiosas.
Quatro suspeitos foram presos numa região de mata e dois fuzis, apreendidos.
Segundo o major Maicon Pereira, porta-voz da PM, além do combate à intolerância religiosa, o objetivo da operação é impedir confrontos de bandidos do Complexo de Israel com quadrilhas das comunidades de Dourados, Tinta, Quitungo e Complexo da Penha, colocando roda a população em risco.
— Essa é a segunda fase de uma ação iniciada na sexta-feira, quando a Polícia Militar atuou na Cidade Alta, onde mais de nove veículos foram recuperados e mais de dez toneladas de barricadas foram removidas — disse o oficial.
De acordo com ele, o ataque contra os caminhões foi feito por bandidos de Acari, comunidade também dominada pelo TCP.
Fé e fuzil
Peixão foi batizado por um pastor de uma igreja evangélica no início dos anos 2000, com toda a cúpula do TCP, em Parada de Lucas. Na época, ele ainda era do segundo escalão da quadrilha. Só em 2016, ele se tornou chefe. Quatro anos depois, o bandido decidiu dar o nome de Complexo de Israel ao território sob seu controle. Pela região, há bandeiras de Israel. Até mesmo o nome da comunidade Vila Santa Edwiges foi mudado para Cinco Bocas.
Muro com o desenho da Cruz de Davi, em Parada de Lucas
Christina Vital
Peixão ainda espalha pelos muros das comunidades que invade símbolos bíblicos e frases como “Jesus é o dono desse lugar”. Com 79 anotações em sua Ficha de Antecedentes Criminais, mas sem nunca ter pisado numa prisão, o bandido também ostenta seu poder no alto de uma caixa d’água, onde instalou uma grande Estrela de Davi — símbolo de proteção para os israelenses — iluminada. A estrutura em néon pode ser vista até da Linha Vermelha.
Os soldados do tráfico já adotaram até um uniforme, idêntico ao fardamento do Exército de Israel, na cor verde-oliva. Recentemente, foram conquistadas as comunidades da Tinta e Dourados, em Cordovil. Fora da capital, ele dá as ordens em pelo menos três outras localidades da Baixada Fluminense: Parque Paulista e Massapê, em Duque de Caxias, e Buraco do Boi, em Nova Iguaçu.
‘Um traficante evangélico’
Peixão se autodeclara “traficante evangélico”. O criminoso usa a religião para justificar ações como seu ímpeto de ampliar territórios. Ele conta que, em 2016, teve uma visão, na qual precisava “libertar o povo da Alta”, referência ao conjunto habitacional da Cidade Alta, em Cordovil. O local é formado por 64 prédios de cinco andares, entregues em 1969 a moradores da Praia do Pinto, no Leblon, na Zona Sul, favela destruída por um incêndio. A suposta visão foi a senha para a quadrilha de Peixão invadir a área.
Pesquisadores ouvidos pelo blog Segredo do Crime explicam que algumas igrejas evangélicas acreditam que sonhos e visões são formas de Deus enviar suas mensagens. Peixão estaria apregoando, portanto, que o domínio daquela região da Zona Norte é um projeto dele, sob as bênçãos do divino.
Por estratégia ou não, o fato de haver uma maioria evangélica nas favelas faz com que o chefe do tráfico do Complexo de Israel consiga convencer alguns moradores de que, apesar de suas atividades criminosas, compartilha a mesma fé cristã. A exceção são aqueles que cruzaram seu caminho, afirmam os pesquisadores ouvidos pelo GLOBO.
— Não tem como fazer justiça. Quem mora em favelas dominadas por ele (Peixão) não tem direito de ir e vir, nem direito de enterrar quem se ama — lamentou o parente de um desaparecido numa das favelas do Complexo de Israel.
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