Abra bem a boca, inspire profundamente, depois expire rapidamente e feche a boca. Ah! Esse é um dos rituais mais antigos do reino animal.
Sim, do reino animal. O que significa que os animais de estimação também bocejam. Algo que você certamente já viu se tem gatos ou cães em casa. Mas isso não é tudo. A maioria dos animais com coluna vertebral faz isso: aves, crocodilos, tartarugas… Até mesmo os peixes! Além disso, descobriu-se recentemente que os peixes contagiam-se com os bocejos.
E essa é uma das características mais notáveis desse fenômeno: seu contágio. Mas acontece que nós, seres humanos, não apenas bocejamos ao ver alguém bocejar. Simplesmente ler sobre bocejos ou pensar neles já pode provocá-los. A questão então é: por que eles “pegam” com tanta facilidade?
Abrindo a boca com os primeiros bocejos
O verbo “bocejar” deriva do latim oscitāre, que significa abrir a boca (o gesto mais característico). Uma vez a boca aberta, o bocejo avança com a inevitabilidade de um espirro. Ou seja, quando começa, não dá para parar.
No desenvolvimento humano, surge no terceiro trimestre de gestação. Chamamos a isso de bocejo espontâneo e ele persiste após o nascimento. Depois, à medida que crescemos, a frequência e os gatilhos aumentam. E surge o outro tipo de bocejo: por contágio.
Mas acontece algo curioso: não é possível contagiar uma criança menor de 5 anos (aproximadamente). Da mesma forma, ler ou ouvir uma história sobre bocejos também não surte efeito antes dos 6 anos. Isso se deve ao fato de que as duas capacidades cognitivas mais importantes para compreender outros seres amadurecem mais tarde: estamos falando da empatia e da cognição social.
Um sinal para facilitar a sobrevivência
De fato, a neurociência aponta que os bocejos estão ligados à empatia (compreender os sentimentos e emoções de outra pessoa) e à cognição social (inferir seus pensamentos e intenções), pois sincronizam o comportamento dos grupos. Ou seja, chegaram até os dias de hoje porque comunicam sem a necessidade de palavras uma mensagem quase universal. Mas qual?
Trata-se de uma mensagem relacionada a estados desagradáveis: sonolência, tédio, fome e estresse.
Especialmente, o bocejo serviria como um aviso para facilitar a sobrevivência. Ou seja, ao observar uma pessoa abrir a boca, instintivamente você intui que ela está passando por um desses estados, o que ativa em você um sinal automático para aumentar a vigilância. Além disso, sua disseminação permitiria sincronizar uma vigilância mais intensa em todo o grupo, melhorando assim a preparação coletiva contra ameaças externas.
Também foram apresentadas outras explicações para os bocejos: resfriar o cérebro, reequilibrar os gases pulmonares ou equalizar a pressão auditiva. Mas não há consenso entre a comunidade científica. E, devido ao seu efeito contagioso, esse comportamento não pode ser explicado recorrendo exclusivamente a funções fisiológicas. Por isso, a hipótese comunicativa é, por enquanto, a mais aceita.
Do ponto de vista de quem deve receber esses avisos, descobriu-se que o contágio fica alterado em pessoas com transtornos que afetam a empatia e a cognição social, como o autismo e a esquizofrenia. Por outro lado, as pessoas mais empáticas são mais suscetíveis ao contágio.
Esses resultados indicam que o contágio depende de se ter boas habilidades sociais. Habilidades nas quais participam células muito especiais do cérebro: os neurônios-espelho.
Mecanismos cerebrais do contágio
Os neurônios-espelho são ativados simplesmente quando observamos alguém realizando alguma ação. É como se seus movimentos fossem recriados em nosso cérebro (como se fosse um espelho onde se refletem), mesmo que não os realizemos fisicamente. Esses neurônios desempenham um papel fundamental para compreender ou imitar as ações de outras pessoas.
Ao ver um rosto bocejando, os neurônios-espelho de uma área do cérebro chamada giro frontal inferior entram em ação. E não são só elas: técnicas de neuroimagem identificaram outras regiões cerebrais mais especificamente relacionadas ao contágio do bocejo. Elas são o cíngulo posterior, o sulco temporal superior e o córtex pré-frontal ventromedial, todas relacionadas à empatia e ao comportamento social.
Para fechar a boca
Em suma, o bocejo é uma forma ancestral de comunicação não verbal, uma maneira de dizer “fique alerta, pois eu não consigo agora”. E seu contágio serviria para transmitir essa mensagem ao restante dos membros de um grupo. Além disso, não se deve esquecer que ele está presente em uma infinidade de animais, o que corrobora a enorme antiguidade desse ritual.
Um detalhe final, caso você tenha se perguntado: os bocejos também podem ser contagiosos entre espécies. Você pode conferir por conta própria e tentar “contagiar” seu gato, seu cachorro ou seu crocodilo. Ou ser contagiado pelos bocejos deles. A empatia também atua com outros animais porque o ser humano nunca deixou de ser um deles.
*Jorge Romero-Castillo é Profesor de Psicobiología e investigador em Neurociencia Cognitiva, Universidad de Málaga
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons . Leia o artigo original.
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