pô, esse cara é f…’, diz Romário sobre a atual seleção brasileira


Os cabelos grisalhos, em contraste com a sobrancelha sem um fio branco, e as poucas rugas que surgem no rosto bronzeado indicam que o tempo passou. Mas, aos 60 anos, completados em janeiro, o Romário da década de 90, que encantou o Brasil e o mundo com seu talento nos gramados, ainda está ali: no jeito marrento de andar, na coragem de falar o que pensa na lata, sem filtro, mesmo em tempos estranhos de redes sociais. Com o Baixinho, não tem tempo ruim. Em entrevista exclusiva ao EXTRA, à beira da piscina de sua mansão na Barra, ele falou sobre tudo. Na primeira das três partes, a conversa é sobre futebol e seleção brasileira.

Em 1993, você foi comprado pelo Barcelona junto ao PSV por cerca de US$ 3 milhões, o que hoje daria R$ 33 milhões. Quanto acha que valeria hoje?

Já parou para pensar nisso? Respondeu tão rápido.

Não penso muito nisso, mas acompanho essas transferências absurdas de hoje em dia. E posso te afirmar: eu valeria mais de R$ 1 bilhão.

Você se considera a maior contratação do futebol brasileiro (ele trocou o Barcelona pelo Flamengo em 1995)?

Claro, porra. Quem discordar disso é um idiota, um imbecil. Fui o único jogador da história do futebol brasileiro a voltar para o país depois de ser campeão do mundo (na Copa de 1994) e eleito melhor jogador do mundo (no mesmo ano). Então, “mermão”, não tem discussão. O babaca que acha que está na razão por discordar de mim, desculpa, mas é um babaca.

Romário com a taça do mundo em 1994 — Foto: Ivo Gonzalez

Os caras não vão ficar chateados? Neymar, Paquetá…

Foda-se. Se ficarem, foda-se.

Quais as chances de o Brasil ser campeão da Copa 2026?

Poucas. Tecnicamente, vejo a seleção brasileira atrás de Argentina, Portugal, França e Espanha. Coloco até a Alemanha, pela tradição e pelo peso da camisa. Olhando apenas para o futebol apresentado, vejo o Brasil como quinto ou sexto melhor time. Mas existem dois fatores importantes: a seleção disputou todas as Copas e a camisa do Brasil tem um peso gigantesco dentro de campo. Por isso, mesmo não sendo tecnicamente brilhante, o Brasil sempre entra forte na disputa. Não é o time que eu esperava ver na Copa, mas isso vai fazer a balança se equilibrar.

E quanto o trabalho do técnico, Carlo Ancelotti, influencia nessa avaliação?

Ancelotti é muito respeitado e extremamente vencedor nos clubes por onde passou. Não tem experiência em seleção, mas, segundo os jogadores, é muito inteligente e que já entendeu a mentalidade do futebol e do jogador brasileiro. Além disso, a presença dele à beira do campo pesa. Os jogadores olham e sabem que existe ali um treinador que merece respeito. Isso ajuda bastante. Então, dentro dessa balança que mencionei, Ancelotti entra como fator positivo para a seleção.

A Copa do Mundo é uma competição em que você tem que chegar 100% em todos os sentidos. Já passei pelos dois lados. Fui em 1990, quando não estava clinicamente e fisicamente no auge, pela ruptura do ligamento do tornozelo. E fui em 1994, no auge da minha carreira. O Neymar não vai estar tão ruim como eu estava em 1990, muito menos no auge como eu estava em 1994. Mas ele tem um diferencial: ainda é muito respeitado no futebol mundial. Não sei que tipo de relação existe dentro do grupo, mas pelo que leio e ouço os jogadores falam muito bem dele, o querem na seleção. Se é realmente isso, eu levaria o Neymar. Vai fazer bem para a seleção. E se não puder jogar o tempo todo, os minutos que puder jogar… ele é diferente.

Ainda dá tempo de Vini Jr. assumir o papel de protagonista da seleção?

No futebol, a gente fala através dos números. No Real Madrid, ele é protagonista. Mas, quando veste a camisa da seleção, ele é outro Vini Jr. Vai fazer 50 jogos e não tem nem dez gols (oito em 47 partidas). Então, não dá para esperar muita coisa. Tomara que ele reverta o que vem acontecendo até agora e que, quando bote a camisa amarela, aquela porra não pese muito nele. Porque a gente está precisando dele. Mas não o vejo como um cara que vai decidir alguma coisa. Não tem um jogador que eu fale: “pô, esse cara é foda”. Tem o Vini Jr., tem o Raphinha, de quem gosto muito, e tem os jogadores que estão despontando: Endrick, Estêvão (lesionado). O Brasil só vai ganhar se o coletivo se sobressair. Senão, fodeu.

Raphinha em entrevista ao ex-jogador e hoje senador Romário — Foto: Reprodução
Raphinha em entrevista ao ex-jogador e hoje senador Romário — Foto: Reprodução

O Brasil não tem centroavante titular. Quem escolheria?

Boa pergunta. Endrick voltou a marcar e é um moleque muito esforçado, que sabe fazer gol, se coloca bem. Talvez seja ele hoje. Mas a Copa é só daqui a um mês (começa em 11 de junho).

Alguém da seleção atual teria vaga no time titular de 1994?

E se o Neymar for convocado?

Neymar teria. Colocaria ele no lugar do Raí. Mais do que justo. Daria a 10 para ele.

Como você se posiciona no ranking de todos os tempos do futebol brasileiro?

Estou no top 3. Pelé, Garrincha… E eu e o Ronaldo estamos juntos ali.

Romário e Ronaldo Fenômeno eram dupla de ataque na seleção brasileira de 1997 — Foto: Julio César Guimarães / Agência O Globo
Romário e Ronaldo Fenômeno eram dupla de ataque na seleção brasileira de 1997 — Foto: Julio César Guimarães / Agência O Globo

Ronaldo depois do Garrincha? Você sempre fala muito do Ronaldo nas entrevistas.

Falo pra caramba, mas jogo mais que ele. E Garrincha era foda. Acho que nem precisa falar do Pelé. Tira o Pelé. Bota assim: Garrincha, Romário e Ronaldo.

Na frente do Ronaldo então?

O Romário era mais completo que o Ronaldo, fez mais gol do que o Ronaldo e acredito que, nos clubes em que jogou, se saiu melhor.

Tá entre os cinco: Garrincha, Romário, Ronaldo, Zico e Ronaldinho Gaúcho.

No par ou ímpar: Romário ou Maradona?

Você já foi mais marrento…

Estou humilde. Messi, depois que ganhou o Mundial, passou a um patamar maior.

Eu me coloco na frente do Cristiano Ronaldo.

Quem foram seu melhor e seu pior técnico?

Melhor, Johan Cruyff. Quando ele mandava o jogador fazer determinado lance, ele ia lá e fazia. E tudo que ele foi como jogador trouxe para dentro de campo como treinador. Todo esse futebol moderno que você vê, do Guardiola por exemplo, é escola do Cruyff. E o Gilson Nunes é um idiota e o pior de todos, porque, quando fui cortado do Mundial de Juniores, em 1985, ele não procurou saber da verdade, nem teve culhão e personalidade de vir me cortar. Mandou recado pelos outros. E dentro de campo também não ajudava muito.

E o melhor e o pior parceiro de ataque?

Melhor parceiro de todos os tempos foi Bebeto. Tive vários ruins, é foda lembrar. Mas eles entendiam: “já que sou uma merda, só dar a bola pra ele que ele faz o gol”.

Romário e Bebeto na Copa de 1994 — Foto: Cezar Loureiro/Arquivo
Romário e Bebeto na Copa de 1994 — Foto: Cezar Loureiro/Arquivo

Ainda tem algum desafeto no futebol?

Não falo mais com Ricardo Teixeira, Del Nero. Com o falecido Zagallo eu também não falava. Eu e Pelé tivemos uma fase em que não nos falávamos, mas ainda em vida consegui falar com ele. Tive problemas com Vanderlei Luxemburgo e Zico, mas foram já resolvidos. Com o Edmundo não falo até hoje. É isso. Ninguém é perfeito.

Zagallo e Romário — Foto: divulgação
Zagallo e Romário — Foto: divulgação

Tem vontade de reconstruir a relação com alguém?

Que eu não consegui, só o Edmundo. Por mim, sem problema nenhum. Principalmente se ele puder vir na RomárioTV para aumentar nossa audiência. É sempre bom. Ia dar uns likes (risos).

Romário e Edmundo colecionaram momentos marcantes juntos durante suas respectivas carreiras — Foto: Cezar Loureiro / Agência O GLOBO
Romário e Edmundo colecionaram momentos marcantes juntos durante suas respectivas carreiras — Foto: Cezar Loureiro / Agência O GLOBO



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