PM que buscava filho ouve relato cruel sobre ocultação do corpo

As lágrimas molharam o rosto do sargento Francisco (nome fictício) quando ele ouviu, de um morador da Cidade de Deus, na Zona Sudoeste do Rio, um relato cruel. O policial militar, que, conforme o EXTRA mostrou em reportagens publicadas na semana passada, iniciou em fevereiro uma luta para tentar encontrar o corpo do filho, foi informado que bandidos do Comando Vermelho (CV) mataram Breno Barbosa Diniz, de 24 anos, e o jogaram em um local conhecido como Sítio, cheio de porcos famintos. Dias depois, os ossos do jovem teriam sido incinerados.
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— Não tem mais corpo. O que busco agora é justiça — afirmou Francisco, que, mesmo assim, disse ainda ter a esperança de encontrar uma parte dos restos mortais de Breno — Só queria algo para um enterro digno. E que os criminosos que fizeram isso com ele respondam perante a lei. Eu não concordo com a vida que meu filho levava. Se eu soubesse, teria feito o possível e o impossível para tirá-lo do crime. Ele errou e deve ria ter pagado na Justiça, mas isso lhe foi tirado. Para muitos, era só um criminoso; para mim, era meu filho.
Captura de tela de celular: “Eu já pedi pra sair”, disse rapaz
Reprodução
Prejuízos e ameaças
Investigações apontaram que Breno era gerente de uma boca de fumo no conjunto habitacional chamado de AP (referência a “apartamentos”), na Cidade de Deus. Relatos dão conta de que o jovem foi morto por comparsas, com os quais começou a se desentender por conta de uma dívida: tinha de repassar R$ 29 mil à quadrilha, valor referente ao prejuízo causado por uma apreensão de drogas pelo Batalhão de Operação Especiais (Bope) da PM.
Trocas de mensagens obtidas pelo EXTRA junto a uma fonte revelam que Breno, que escondia suas atividades criminosas da família (seus parentes acreditavam que ele ganhava a vida em um ferro-velho), pagou a dívida e, com isso, esperava sair do tráfico. No entanto, o CV lhe impôs uma outra: ele teria de repassar R$ 5.400 para a facção devido à evaporação de um grande volume de lança perfume que estava acondicionado em um galão.
Em 25 de novembro do ano passado, Breno disse a um comparsa que estava sendo ameaçado por Coringão, chefe do tráfico na região, por querer deixar o crime. O jovem reclamou de o obrigarem a assumir uma segunda dívida, relacionada ao lança-perfume perdido. Seu interlocutor, então, afirmou: “É pra tu não sair mesmo, mano”.
Chefe fez cobrança
Por meio de mensagens, Breno era pressionado pelos chefes do tráfico a pagar as dívidas. Em um áudio, ele comentou a cobrança de R$ 29 mil, que conseguiu quitar: “Chefe tava com papo de que ia me pegar. Fez eu pagar mó malotão que era pra tá no meu bolso”. Em uma outra conversa, o filho de Francisco foi coagido.
“Coé, chapa? O dinheiro do lança, já viu isso, já?”, perguntou um dos chefes do tráfico na Cidade de Deus em relação à droga que evaporou. Breno pediu ajuda a um comparsa para vender uma moto e tentou um empréstimo. “Tenho aqui mil reais só, tenho que pagar R$ 5.400”, disse ele, em um áudio. O rapaz também demonstrou descontentamento com a cobrança, afirmando que ajudou muito o CV e, ainda assim, vinha sendo ameaçado:
“(Um dos chefes do tráfico) Falou que vai vir na minha direção. Tô cheio de ódio”. O jovem desapareceu em 19 de fevereiro, dias após ser fotografado, sorrindo, com um fuzil. Foi visto pela última vez quando participava de uma confraternização e recebeu um chamado para comparecer ao local conhecido como Embala, onde drogas são preparadas para venda. Ele teria ido ao local para acertar a dívida de R$ 5.400, mas acabou morto pelos comparsas. O pai acredita que Breno foi “descartado” após quitar o valor.
*Estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga



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