Para muitas brasileiras, aceitar um emprego longe de casa ou estudar à noite depende não apenas do valor que será gasto com transporte e do tempo de viagem, mas também dos riscos ao longo do trajeto. Segundo a pesquisa O Direito de Ir, Vir e Viver, divulgada em setembro, 39% das entrevistadas já recusaram uma oportunidade de trabalho por dificuldades de transporte e 21% desistiram de um curso ou faculdade.
O levantamento foi realizado pela Indique, em parceria com a 99 e consultoria da Think Eva, especializada em questões de gênero. De acordo com dados internos da empresa de mobilidade urbana e conveniência, mais de 60% de seus usuários são mulheres, e a pesquisa procurou conhecer melhor as dificuldades enfrentadas por esse público para circular pelas cidades. Foram ouvidas 564 brasileiras entre junho e julho de 2026, em dez capitais, incluindo o Rio de Janeiro.
Para 89% das participantes, a mobilidade urbana está diretamente ligada às oportunidades de trabalho, estudo e lazer. O levantamento também revelou a frequência do assédio: quase nove em cada dez entrevistadas relataram ter sofrido alguma situação desse tipo durante os deslocamentos. Os maiores índices foram registrados nos ônibus (68,8%) e nos percursos a pé (60,8%).
Os obstáculos no caminho
Calçadas estreitas ou malconservadas e ruas mal iluminadas complicam a vida de quem anda a pé. Nos bairros com poucas linhas de ônibus, chegar ao ponto ou voltar para casa exige longas caminhadas, às vezes por locais desertos.
Entre as entrevistadas, 54% já evitaram ou recusaram compromissos profissionais por dificuldades de deslocamento, 68% precisaram sair de casa muito antes do desejado pela falta de condução no bairro e 73% planejam horários e rotas pensando em segurança. Para evitar situações de violência, 63% delas deixam de utilizar determinados meios de transporte e 60% alteram seus trajetos.
— Estamos falando de mulheres que precisam negociar riscos o tempo inteiro para conseguir circular pela cidade — explica Amanda Abreu, cofundadora da Indique.
Para as mulheres negras, há ainda o racismo. Na pesquisa, 38% das participantes relataram tratamento diferente por causa da cor da pele em ônibus, metrôs ou trens. O mesmo percentual afirmou ter sofrido discriminação racial em aplicativos de transporte.
Levar os filhos à escola, passar no mercado, na farmácia e acompanhar familiares em consultas médicas são tarefas que muitas brasileiras precisam encaixar antes ou depois do expediente. Com tantas paradas, o percurso diário fica mais longo e frequentemente envolve diferentes meios de transporte.
Essa rotina é conhecida como mobilidade do cuidado. Entre as mães ouvidas, 43% afirmaram organizar sozinhas os trajetos relacionados às necessidades da família. Enquanto 21% relataram percursos mais longos e com mais paradas do que os homens da casa.
— O cuidado ainda é uma responsabilidade solitária. Muitas mulheres precisam organizar os próprios deslocamentos e os de seus filhos sem ajuda de um companheiro ou de outra pessoa da família — diz Amanda.
Com a pesquisa, a 99 conta ter aprofundado o conhecimento sobre a rotina e as necessidades das brasileiras para aperfeiçoar essas ferramentas e desenvolver novas soluções, com o objetivo de ajudar as mulheres a participar da vida da cidade com mais segurança.
Proteção antes, durante e depois
A 99 afirma estar atenta às preocupações das passageiras e tem ferramentas de segurança que podem ser utilizadas antes, durante e depois das corridas. Para 2026, a empresa prevê destinar R$ 145 milhões a investimentos na área de segurança, incluindo tecnologias de prevenção e suporte a usuários.
— O objetivo é oferecer ferramentas para mulheres que já precisam fazer muitos cálculos sobre a própria segurança — afirma Rayane Lima, gerente sênior de políticas de segurança da 99.
Para ter acesso a todas as soluções pensadas para as mulheres, a empresa orienta as passageiras a completar o cadastro com CPF, foto e nome conforme o documento de identidade. Com essas informações, o app identifica o perfil como feminino e passa a disponibilizar os recursos específicos.
Uma das ferramentas é a Mais Segura, funcionalidade que permite ativar, em poucos cliques, gravação de áudio, monitoramento em tempo real e compartilhamento de rota.
Outros dois destaques entre as soluções de segurança da 99 estão Pítia e Atena, ferramentas automatizadas que identificam passageiras em situação de maior vulnerabilidade, por exemplo em corridas noturnas, longas ou que se iniciam em regiões de bares, e direcionam a solicitação para motoristas parceiros e parceiras com melhores avaliações, além de enviar mensagens preventivas e dicas de comportamento ao motorista designado.
Ainda antes de entrar no carro, mais uma camada de proteção à usuária é o envio do código de verificação. O motorista só consegue iniciar a corrida depois de validá-la, confirmando, dessa forma, que o veículo é o solicitado.
Durante a viagem, o compartilhamento de rota permite que familiares ou amigos acompanhem o percurso em tempo real pelo celular. Já a gravação de áudio funciona pelo próprio aparelho e está disponível tanto para passageiras quanto para condutoras. O registro é ativado a cada corrida ou configurado para funcionar automaticamente.
A Chamada para Terceiros permite solicitar uma corrida para outra pessoa. Basta informar os dados básicos de quem fará a viagem e o motorista recebe o nome da pessoa que entrará no veículo.
— É muito comum a mulher chamar um carro para os pais, para um amigo ou para alguém que não tem o aplicativo. Precisamos saber quem está naquela viagem, inclusive para identificar as pessoas envolvidas caso aconteça algum incidente — explica Rayane.
As motoristas parceiras também contam com recursos desenvolvidos para a sua segurança. No Modo Mulher, as condutoras recebem chamadas exclusivamente de passageiras, e o Filtro de Passageiro Homem oferece a alternativa de atender apenas aqueles com avaliações elevadas na plataforma.
Além da parceria para a pesquisa, a 99 contou com a Think Eva na elaboração da Cartilha 99Mulheres. Voltado à prevenção e ao combate à violência de gênero, o documento orienta sobre direitos, canais de denúncia e rede de apoio, fortalecendo a proteção e o empoderamento feminino dentro e fora da plataforma.




