Quando se fala em amamentação, o senso comum nos leva à ideia restrita da alimentação de bebês, especialmente, os recém-nascidos. Mas o aleitamento materno é uma prática que produz efeitos positivos muito maiores, tanto no plano individual, para a mãe e para o bebê, quanto na coletividade, contribuindo, entre outras coisas, para a redução da mortalidade infantil.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o aleitamento materno reduz em 13% a mortalidade por causas evitáveis em crianças menores de 5 anos. Além disso, tem efeito protetor contra a obesidade infantil. Cada mês de amamentação materna está associado à redução de 4% no risco de desenvolvimento de excesso de peso.
A amamentação é uma estratégia tão importante para o desenvolvimento infantil que, em 1992, três organismos multinacionais, a Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (WABA), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) criaram a ação global chamada Agosto Dourado, que visa a conscientizar a sociedade sobre os benefícios do aleitamento.
A iniciativa também propõe ressaltar que o apoio à mulher que amamenta deve ser um compromisso coletivo, envolvendo familiares, profissionais de saúde, empregadores e toda a sociedade.
A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) também se uniu a esse esforço mundial, com diversas iniciativas que buscam incentivar o aleitamento materno por meio de ações institucionais e da ação individual dos parlamentares.
Um dos projetos apresentados nesse sentido, no Legislativo goiano, a criação do Programa Amamentação Sem Dor, foi aprovado e se tornou lei estadual. De iniciativa do deputado Dr. George Morais (MDB), a legislação prioriza a assistência profissional especializada em maternidades, casas de parto e hospitais públicos e privados do Estado, às mães e familiares, para apoiar, instruir e promover a conscientização acerca dos benefícios do aleitamento, de acordo com as normativas da OMS.
De acordo com a Lei n° 23.192, sancionada em janeiro de 2025, a política estadual atende, especialmente, as diretrizes de estimular a capacitação de servidores que atuam em maternidades e hospitais da rede pública estadual sobre a amamentação, incentivar a produção e divulgação de material sobre a importância do aleitamento, estimular a adoção de técnicas de amamentação que visem a prevenir ou sanar dores, doenças e demais obstáculos de ordem fisiológica que possam conduzir à interrupção da prática, e monitorar, nas maternidades e hospitais da rede pública estadual de saúde, gestantes que apresentem indicadores de risco.
O texto da proposta cita os diversos benefícios da amamentação para os bebês, como a redução da mortalidade infantil e da morbidade por diarreia e infecção respiratória, redução de alergia, redução de doenças crônicas não transmissíveis na vida adulta, melhor desenvolvimento intelectual e relacionamento interpessoal, e para as mães, proteção contra o câncer de mama, ovário e corpo uterino, proteção contra diabetes mellitus e gestacional, perda de peso e proteção contra o aparecimento de anemia no período puerperal.
Doação de leite humano
Outra iniciativa da Casa que visa a promover o aleitamento dos bebês é desenvolvida pela Procuradoria Especial da Mulher da Alego, por meio da Secretaria de Projetos Especiais, e colabora na doação de leite materno para mães, que por diversos motivos, não podem amamentar.
A secretaria realiza uma campanha permanente de doação de potes de vidro (com ou sem tampa), que são encaminhados ao Banco de Leite Humano (BLH) do Hospital Estadual da Mulher (Hemu).
Os recipientes arrecadados são levados ao BLH, onde são preparados, esterilizados e levados às mães que doam leite para o banco. O leite é armazenado da maneira adequada e, em seguida, entregue às mãezinhas cadastradas. Isso garante que os bebês que não podem ser amamentados pelas próprias mães, tenham acesso ao melhor e mais completo alimento para essa faixa etária.
Segundo a secretária de Projetos Especiais da Alego, Isadora Castro, neste Agosto Dourado a campanha ganha ainda mais importância, porque as doações para o Banco de Leite aumentaram e estão faltando potes para o armazenamento. “A única exigência é que tem que ser de vidro. De qualquer tamanho. Pode ter tampa ou não, estar sujo ou limpo, não importa, porque a higienização correta é feita lá, eles colocam a própria tampa, o importante é ter o pote, para fazer o transporte desse leite para as mães que não conseguem amamentar.”
Isadora sabe bem da importância dessa doação, porque ela mesma não conseguiu amamentar o filho, por causa de uma cirurgia de redução de mamas, que havia feito anos antes. No Banco de Leite ela teve apoio e orientação. Nos primeiros dias, o leite doado pela instituição foi o que alimentou o bebê. “É desesperador você procurar por esse alento e não ter como [oferecer ao bebê]. Eu sei o que é passar por isso, então, nós temos urgência do leite doado.”
A secretária explica que os potes devem ser trazidos à Procuradoria da Mulher, que fica no Palácio Maguito Vilela, no bloco A, sala 202. Ainda de acordo com Isadora, caso alguma empresa ou instituição tenha uma grande quantidade de potes, basta entrar em contato, que a procuradoria disponibiliza a busca. “Se for o caso de um restaurante, por exemplo, ou algum estabelecimento que tenha um número maior, a gente também pode buscar. Basta ligar na Procuradoria, nos números 3221 2522 ou 2533, e nós buscamos”, garantiu.
Nem sempre é fácil, mas é necessário
Muitas mulheres, especialmente as gestantes de primeira viagem, enfrentam diversas dificuldades para amamentarem seus filhos. As causas são várias, mas a pior consequência é a desistência do aleitamento.
A jornalista Yndaiá Gomes é um exemplo de mãe que passou por maus momentos para conseguir amamentar o pequeno Jorge, hoje com 2 anos e 7 meses. Pertencente ao grupo chamado pelos médicos de mães 40 +, a gestação era considerada de risco.
Segundo a jornalista, apesar da classificação, a gravidez foi tranquila, sem nenhuma intercorrência. Ela não teve nem mesmo os enjoos que são bem comuns nesse período. Junto com as preocupações rotineiras, a vida profissional, as tarefas de casa, a preparação do quarto para receber o bebê, o enxoval e, mesmo, o desconhecimento quanto à necessidade de preparação para a amamentação, Yndaiá acabou deixando o assunto em segundo plano.
O parto, realizado pela equipe do médico que a acompanhava, também foi dentro da normalidade, mas quando ela foi para o quarto, os problemas começaram. “Aí é quando a ficha cai, porque a gente acha que amamentar é só colocar o peito na boca da criança. E não é bem desse jeito, porque você não sabe amamentar e o bebê não sabe mamar, então, são os dois aprendendo ao mesmo tempo uma coisa que eles nunca fizeram na vida”, afirmou Yndaiá Gomes.
A jornalista contou que, mesmo sabendo que não é obrigação da equipe de enfermagem da maternidade ensinar sobre amamentação, ela esperava mais empatia e apoio dos profissionais que atendem as famílias em um momento tão delicado.
Segundo Yndaiá, não houve nenhuma orientação e, sem saber o que fazer, ela começou a entrar em desespero. “Eu precisava amamentar o meu filho porque era o único alimento que ele tinha… e eu não conseguia. E nisso o meu bebê começou tomando fórmula. Eu não tive o que é chamado de Golden Hour, quando o nenê é colocado no peito e amamentado logo após o nascimento”.
Mesmo assim, a jornalista não desistiu de dar o leite materno para o filho. Buscando informações a respeito, ela contratou uma profissional que faz a orientação de todo o processo: a consultora em amamentação. Mesmo com as várias técnicas ensinadas, o bebê não conseguia “pegar” o peito. “Durante a gestação, meu seio ‘planou’, ficou plano, então é como se o nenê fosse mamar uma parede, porque não tinha o bico para ele poder pegar, sugar e estimular”, contou Yndaiá.
A consultora em amamentação então indicou que a jornalista comprasse uma bombinha para tirar o leite. Foi com esse equipamento que ela conseguiu, com muita dificuldade, começar a tirar o leite do peito e dar para o bebê.
Yndaiá lembrou que a primeira vez que desceu um líquido do peito, não foi leite, mas sangue, que ela descartou e continuou tentando, até que conseguiu bombear os primeiros 5 ml de leite materno. “Parece nada, mas para quem estava tentando, foi uma grande vitória.”
Com ajuda qualificada e muita persistência, Yndaiá conseguiu, finalmente, amamentar o filho. Não foi o ideal, mas foi a forma possível para a família. Como o bebê já estava acostumado com a fórmula, as mamadas no peito eram intercaladas com a mamadeira. E foi assim até os 8 meses, quando o próprio Jorge não quis mais o peito.
O processo doloroso pelo qual passou para conseguir amamentar o filho mostrou a Yndaiá que o aleitamento materno não é uma prática simples. “Eu podia ter desistido, aliás eu fui estimulada a desistir, porque eu não precisava passar por isso, mas eu queria dar essa oportunidade para o meu filho”, resumiu a jornalista.
Incentivo na rede pública
As dificuldades relatadas por Yndaiá para o aleitamento materno estão entres os principais motivos que levam as mães a deixarem de amamentar. Segundo a gerente de Atenção Primária da Superintendência de Políticas e Atenção Integral à Saúde da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) Amanda Faria, entre os principais desafios, além das dificuldades na pega correta do bebê, estão dor e fissuras mamárias, insegurança, retorno precoce ao trabalho, ausência de rede de apoio familiar e social e, muitas vezes, a influência de informações equivocadas sobre a produção de leite.
O incentivo à amamentação faz parte da assistência materno-infantil desenvolvida pela SES-GO, especialmente por meio da Rede Nascer em Goiás. De acordo com a gerente de Atenção Primária, Amanda Faria, as maternidades da rede estadual desenvolvem ações como orientação às gestantes, incentivo ao contato pele a pele e à primeira mamada ainda na primeira hora de vida, apoio à pega e ao posicionamento correto do bebê, além do acompanhamento das puérperas durante a internação.
“Após a alta, a continuidade desse cuidado é realizada pelas equipes da Atenção Primária à Saúde, garantindo acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança e suporte às famílias. O Estado também estimula a qualificação permanente dos profissionais para fortalecer as boas práticas de atenção ao parto, nascimento e aleitamento materno”, detalha Amanda Faria.
A gerente de Atenção aos Ciclos de Vida da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS), Kelcy Anne Santana, acrescenta ainda o cansaço e a sobrecarga no período pós-parto como mais obstáculos para que a mãe consiga amamentar.
Segundo Kelcy, na rede municipal a política adotada é de pleno incentivo ao aleitamento. “Esses desafios podem ser superados quando a mulher recebe acolhimento, orientação qualificada e acompanhamento contínuo por profissionais capacitados desde o pré-natal até o puerpério. “Esses atendimentos nós disponibilizamos nos bancos de leites e postos de coletas nas nossas maternidades municipais”, informa.
Ela explica que as maternidades municipais, onde são realizados cerca de mil partos por mês, desenvolvem ações baseadas nas recomendações do Ministério da Saúde e da OMS, promovendo o contato pele a pele logo após o nascimento, o início precoce da amamentação ainda na primeira hora de vida, o alojamento conjunto e o apoio contínuo às mães durante toda a internação.
As equipes multiprofissionais ainda realizam orientações individuais, observam a mamada, corrigem dificuldades relacionadas à pega e ao posicionamento do bebê e oferecem suporte às mães que apresentam intercorrências. Além disso, a atenção primária à saúde dá continuidade ao cuidado por meio das Unidades Básicas de Saúde, acompanhando mãe e bebê após a alta hospitalar.
Situação em Goiás
Segundo Amanda Faria, assim como ocorre no restante do país, Goiás apresenta avanços importantes, mas ainda enfrenta desafios para alcançar as metas recomendadas pela OMS. “Embora haja um aumento gradual da conscientização sobre a importância da amamentação, ainda observamos interrupção precoce em parte dos casos, o que reforça a necessidade de fortalecer as ações de promoção e apoio ao aleitamento materno em toda a rede de atenção à saúde”, analisa a gerente de Atenção Primária da SES-GO.
Amanda reforça que a recomendação é que o aleitamento materno seja exclusivo até os seis meses de vida e complementado, juntamente com outros alimentos saudáveis, até os dois anos ou mais. Isso porque a amamentação é uma das intervenções mais eficazes para promover a saúde da criança e da mãe, sendo o leite materno um alimento completo, que fornece todos os nutrientes necessários para os primeiros seis meses de vida, além de anticorpos para o bebê.
“A longo prazo, [a amamentação] está associada à redução do risco de obesidade, diabetes e outras doenças crônicas. Para a mulher, a amamentação reduz o risco de hemorragia pós-parto e diminui a chance de desenvolver câncer de mama e de ovário. Além dos benefícios físicos, fortalece o vínculo afetivo entre mãe e bebê e favorece o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança”, explica Amanda Faria.
Preparação deve começar na gestação
Para que as dificuldades na amamentação sejam minimizadas, o ideal é que a preparação comece ainda no pré-natal. Segundo Amanda Faria, as gestantes, especialmente as que estão esperando o primeiro filho, devem buscar conhecer os benefícios da amamentação, aprender sobre a pega correta do bebê e compreender que o aleitamento é um processo de aprendizado.
“Também é fundamental envolver o parceiro, familiares e a rede de apoio, pois o incentivo e o acolhimento fazem diferença para o sucesso da amamentação. Nos primeiros dias após o parto, sempre que surgirem dificuldades, a orientação é procurar imediatamente a equipe de saúde para receber apoio especializado”, frisou Amanda Faria.
“É importante que a gestante participe das atividades educativas promovidas pelas unidades de saúde, grupos de gestantes, converse com profissionais capacitados e envolva sua rede de apoio, pois o incentivo da família faz grande diferença para o sucesso da amamentação. Também é fundamental compreender que dificuldades iniciais podem acontecer e que isso não significa incapacidade de amamentar”, reitera a gerente de Atenção aos Ciclos de Vida da SMS, Kelcy Anne Santana.
Por fim, as gestoras deixam um recado para as mães e todo o círculo que as rodeiam. A gerente da Secretaria de Estado da Saúde, Amanda Faria, lembra que amamentar não depende apenas da vontade da mãe, mas que é necessário oferecer informação qualificada, acolhimento e condições para que ela consiga manter esse cuidado.
“Investir na amamentação significa investir na saúde das crianças, na saúde das mulheres e no futuro da sociedade. Cada família apoiada representa um começo de vida mais saudável, com impactos positivos que se estendem por toda a vida”, conclui Amanda Faria.
Já a gestora da SMS destaca que é natural que surjam dúvidas e dificuldades, principalmente no início da amamentação, mas que o mais importante é procurar ajuda o quanto antes. Segundo ela, as equipes das maternidades e das UBS estão preparadas para orientar, acolher e apoiar a mãe durante esse processo.
“Amamentar é um aprendizado construído entre mãe e bebê. Com informação, acolhimento, paciência e apoio, a maioria das dificuldades pode ser superada. Cada gota de leite materno representa proteção, carinho, saúde e um investimento no futuro da criança. Amamentar é um ato de amor, mas também uma importante estratégia de promoção da saúde pública”, orienta Kelcy Anne.
Com a autoridade de quem passou por muitas dificuldades para conseguir amamentar o filho, Yndaiá Gomes deixou um conselho para todas as mães, as que amamentam e as que não puderam amamentar: “A amamentação é única, não tem uma fórmula matemática que sirva para todas. E a mãe que, por algum motivo, não conseguiu amamentar, não é menos mãe por isso”.




