Pátios lotados, vendas em queda e juros altos desafiam mercado de carros seminovos

Pátios cheios de veículos, movimento fraco nas lojas e dificuldade para fechar negócios. Esse é o cenário enfrentado pelo mercado de carros seminovos, pressionado pelos juros elevados e pela crescente oferta de modelos elétricos chineses no Brasil. Vendedores relatam que o segmento atravessa um dos momentos mais difíceis da última década, sobretudo para veículos acima de R$ 100 mil.
A consultora de vendas Heloísa Rodrigues, de 66 anos, afirma que nunca viu uma concorrência tão intensa. Para ela, os elétricos alteraram a lógica do mercado.
— O momento das vendas está difícil principalmente porque os carros elétricos entram com preços muito baixos. Os SUV são muito procurados, é o carro da moda né, mas são veículos que estão acima de R$ 100 mil, o que dificulta a venda — explica a consultora.
Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica que o mercado de automóveis funciona em cadeia. Como as montadoras estão baixando preços de carros 0km, os usados são automaticamente impactados:
— Com a proposta de valor dos chineses, que são carros novos com muita tecnologia embarcada e com garantia alongada, todo o mercado se reposicionou para baixo. E isso também trouxe uma depreciação mais aguda para os veículos usados, diferentemente do que acontecia há três anos — explica Heloísa.
Preço de venda x Tabela Fipe
Editoria de arte
Reflexo nas lojas
Nas lojas, o reflexo é imediato. Veículos permanecem mais tempo nos estoques, o giro diminui e os descontos se tornam cada vez mais frequentes. Há 11 anos no setor, o vendedor Thyago Damázio afirma que a mudança na dinâmica das vendas foi drástica.
— Antigamente eu vendia sete ou oito carros em um sábado. Hoje, se vender essa quantidade em um mês, agradeço a Deus. Trabalho como vendedor há 11 anos, e o mercado nunca esteve tão ruim — diz.
Ele relata que tem um Volkswagen T-Cross 2026, com apenas 600 quilômetros rodados, estacionado no pátio há dois meses. Damázio afirma que na percepção dele, os carros até R$ 80 mil tem boa saída, acima dessa faixa, as vendas travam.
Marcelo Pinheiro, do Boulevard Shopping Car: lojista passou a reduzir os preços dos veículos, com descontos de até R$ 12 mil
Marcelo Theobald /Agência O Globo
A dificuldade também é percebida por Marcelo Pinheiro, proprietário da Lumar Automóveis, no Boulevard Shopping Car, em Vila Isabel. Para evitar que os veículos permaneçam parados por muito tempo, ele passou a reduzir os preços dos veículos, com descontos de até R$ 12 mil.
— Tenho um Corolla Cross, um Nissan Kicks e um HR-V parados há cerca de quatro meses. Eu diminui os valores e mesmo assim não aparece comprador. Se surgir uma proposta abaixo do anunciado, eu vou aceitar — afirma.
Sérgio Machado, com os irmãos Plínio (de óculos) e Alvino, numa loja da Intendente Magalhães: escolha por veículo mais em conta
Marcelo Theobald / Agência O Globo
Enquanto os modelos de maior valor acumulam poeira nos pátios, os veículos mais acessíveis seguem encontrando compradores. Foi justamente o preço que levou o servidor público Sérgio Machado, de 66 anos, à Avenida Intendente Magalhães, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Depois de ter o carro furtado há cerca de um mês, ele percorreu lojas em diferentes regiões da capital até encontrar um seminovo que coubesse no orçamento.
— Passei a manhã procurando em Campo Grande, mas encontrei aqui o carro que eu queria. Hoje um zero-quilômetro está fora da minha realidade. O seminovo acabou sendo a única alternativa.
Dificuldade de vender reduz empregos
O baixo movimento também começa a produzir efeitos sobre o emprego. Durante a visita da reportagem à Intendente Magalhães, era possível encontrar lojas com poucos vendedores atendendo e até estabelecimentos fechados. Em uma delas, o gerente Ivan Sousa, de 44 anos, afirma que a retração das vendas já obrigou a empresa a reduzir o quadro de funcionários.
— Não tem como manter uma estrutura se os carros não vendem. O vendedor precisa comercializar pelo menos dois veículos por mês para ter uma renda mínima, e muitas vezes nem isso está conseguindo — relata.
Ivan Sousa, gerente de loja na Intendente Magalhães: retração nas vendas já obrigou empresa a reduzir quadro de funcionários
Marcelo Theobald / Agência O Globo
Thyago Damázio também acrescenta que o impacto da queda das vendas é sentido diretamente na comissão dos vendedores. Com as vendas em baixa, as comissões caem em efeito cascata. O vendedor conta que já chegou a receber R$ 14 mil de salário com a comissão, hoje em dia, faz menos da metade.
Move Brasil inclui carros seminovos
O governo federal ampliou, nesta quinta-feira, as regras da linha de financiamento do programa Move Brasil voltada para motoristas de aplicativos e taxistas. A partir de agora, além de veículos novos, também poderão ser financiados automóveis seminovos de até R$ 150 mil, desde que tenham sido fabricados a partir de 2024.
— Quando você inclui o seminovo, que é mais barato, a aprovação de crédito fica mais fácil. Com um carro de menor valor, a renda do consumidor consegue chegar a uma parcela mais baixa, e o comprometimento do orçamento também é menor — avalia J.R. Caporal CEO da Auto Avaliar e Megadealer.
A nova regra contempla veículos elétricos e híbridos flex seminovos produzidos a partir de 2024. A mudança foi incluída na medida provisória (MP) que trata da renegociação de dívidas rurais, publicada pelo governo na quarta-feira.
As condições de financiamento variam de acordo com o gênero do beneficiário. Para mulheres, a taxa de juros é de 0,91% ao mês, o equivalente a 11,5% ao ano. Já para homens, os juros são de 0,99% ao mês, ou 12,6% ao ano.
O financiamento poderá ser pago em até 72 meses (seis anos) e prevê carência de até seis meses para o início das parcelas.



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