Palmeiras, cedros e jequitibás: o passado revelado por árvores nas ruas e florestas

Ele tem quase 30 metros de altura, vive perfumado, guarda segredos e, ainda assim, passa despercebido. Sejam grupos numerosos de turistas, famílias ou frequentadores assíduos do Parque Nacional da Tijuca (PNT), pouca gente olha para cima para perceber sua grandiosidade. Mas o cedro-rosa de um século e meio de idade figura entre as árvores que contam histórias na cidade do Rio de Janeiro.
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Árvores costumam encantar pela beleza de suas flores. Caso da palmeira talipot (Corypha umbraculifera) do Aterro do Flamengo que, em novembro passado, virou atração ao florescer pela primeira vez em 60 anos. Introduzida pelo paisagista Burle Marx, a talipot é originária da Ásia e floresce uma única vez para, então, morrer. Mas, mesmo sem um enredo melodramático para chamar de seu, o cedro-rosa (Cedrela odorata), nativo do Brasil, mostra que nem só de flores se faz o encanto de uma árvore.
Diminutas e esbranquiçadas, as flores nem de longe são o que torna o cedro-rosa do PNT especial. Tampouco o perfume de sua madeira, que motivou seu nome científico, derivado de odor, em latim. Ou ainda sua localização, numa trilha que carrega histórias da religiosidade dos escravizados que ali estiveram.
Registro do tempo. O cedro-rosa de 135 anos no Parque Nacional da Tijuca
Márcia Foletto
Estudos de Gabriel Sales, do Departamento de Biologia da PUC-Rio, revelam que alguns cedros do PNT, como o da Trilha da Cachoeira das Almas, são como livros de registros do clima do passado, com informações relevantes para planejar a adaptação da cidade em tempo de mudança climática.
— Essas árvores são documentos vivos para o entendimento da floresta e do clima — destaca Sales, primeiro autor do estudo “Uncovering the First Reforestation Project in the 19th-Century Brazilian Atlantic Rainforest: Insights from Wood Anatomy and Historical Analysis” (“Revelando o primeiro projeto de reflorestamento na Mata Atlântica brasileira do século XIX: contribuições da anatomia da madeira e da análise histórica”, em tradução livre), publicado este ano, na revista científica Journal of Geoscience and Environment Protection.
Anéis de crescimento
O cedro das Almas tem 159 anos — os anéis de crescimento de seu tronco podem ser analisados por meio de pequenas amostras. O padrão de cada anel é como um registro das variações do clima. Vizinho dele, situado na Trilha do Midosi, está outro cedro, de 135 anos, possivelmente do segundo replantio da floresta.
— A cronologia dos anéis de crescimento é um indicador da variabilidade climática histórica. Os anéis registram, de forma anual e contínua, a resposta às condições ambientais — explica Sales.
Ele estima que o cedro das Almas provavelmente está entre as árvores do primeiro reflorestamento do Maciço da Tijuca, liderado pelo major Manoel Gomes Archer (1821-1907). Cafeicultor (o título de major era honorífico), Archer comandou o plantio do núcleo da floresta atual.
Já estudos do geógrafo Rogério Ribeiro de Oliveira, professor do mestrado profissional em Ciência da Sustentabilidade da PUC-Rio e conhecedor da história natural das florestas cariocas, têm como narradores o jacatirão (Miconia cinnamomifolia), o guapuruvu (Schizolobium parahyba) e a carrapeta (Guarea guidonia).
“Arranha-céu verde”. O conjunto de paus-reis na Candelária (à esquerda), ao lado da Presidente Vargas, no Centro: espécie nativa da Mata Atlântica chega a quase 40 metros e pode viver até cem anos
Márcia Foletto
Essas árvores são relativamente altas (cerca de 20 metros de altura) e longevas (chegam aos 200 anos). E contam sobre populações de lavradores pobres, carvoeiros e quilombolas que habitaram o Maciço da Pedra Branca, na Zona Oeste, há mais de 150 anos.
Oliveira e seus colegas têm descoberto aglomerados dessas árvores em lugares como a Pedra da Rosilha e as serras da Nogueira e do Macaco, em Jacarepaguá. Essas espécies são nativas da Mata Atlântica, mas suas sementes só germinam em clareiras e áreas abertas, como locais de carvoarias e roças abandonadas. Elas formam bosques de 20 ou mais árvores, pois geralmente só uma espécie domina. Segundo o pesquisador, os adensamentos sinalizam a existência de alguma utilização anterior da floresta, como carvoarias ou roçados.
— Essas três espécies contam uma história que de outra forma não seria conhecida. Pois, falamos de pessoas pobres, com uma história apenas oral. Não tinham documentos. A floresta se tornou o registro histórico e a disposição das árvores forma um mapa sobre o uso da terra há 200 anos. Quando olhar um aglomerado desses, veja ali um capítulo da história da cidade — ressalta o pesquisador.
Mais de três século
Sales frisa que as árvores do Rio ainda têm muitas histórias para contar. Uma delas, à espera de ser datada cientificamente e com idade estimada em pelo menos 300 anos, é um jequitibá (Cariniana legalis) situado na Rua Marquês de São Vicente.
—Ele pode chegar a 400 anos, um período histórico sobre o qual se sabe quase nada sobre o clima. É um sobrevivente da época em que a Mata Atlântica formava um oceano de árvores. Testemunhou mudanças no tempo dos homens e da natureza — diz Sales.
Tombada em 1987, a árvore fica no terreno da PUC-RJ, na Casa dos Jesuítas, onde funciona hoje a Sede Jequitibá do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Outro jequitibá que se destaca é o localizado na Avenida Edson Passos, próximo ao número 4.272 e declarado imune ao corte.
— Os jequitibás são os gigantes da Mata Atlântica, e não sabemos como essa sobreviveu. Mas ainda está por aqui, testemunha de séculos de história — afirma Sales.
A cidade tem ainda numerosas árvores de valor histórico, como os conjuntos do Aterro do Flamengo, do Jardim Botânico e do Passeio Público, primeiro parque público das Américas, inaugurado no século XVIII.
Neste, destaca-se uma árvore exótica, uma amendoeira (Terminalia catappa) secular, de mais de 30 metros de altura e uma das maiores árvores da cidade, diz o engenheiro florestal da Fundação Parques e Jardins Claudio Alexandre Santana. A amendoeira fica quase em frente à Rua das Marrecas e é uma das marcas da colonização portuguesa.
— Certamente essa é uma das árvores mais antigas do Rio, é colossal, uma amendoeira de sete copas, uma das poucas da espécie que nunca foi muito alterada. Uma raridade. E está num parque, um lugar ideal para a espécie, que não é apropriada para a arborização urbana e cujo plantio em ruas está proibido desde 1994 — diz Santana.
Gigantes no Centro
O engenheiro florestal Luiz Octávio Pedreira, diretor regional da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, observa que menos conhecido é o conjunto de paus-reis situado na Avenida Presidente Vargas, nas proximidades da Candelária. O pau-rei (Pterygota brasiliensis) é uma espécie nativa monumental da Mata Atlântica e pode viver mais de um século.
— Essas árvores chegam a quase 40 metros de altura e são muito antigas, talvez do início do século XX. Mas não se sabe muito sobre elas, uma pena — diz Pedreira, que inclui ainda entre as árvores notáveis o conjunto de figueiras da Rua Santa Luzia que, segundo ele, são as primeiras árvores oriundas de projetos de arborização urbana do município.
As figueiras da espécie Ficus religiosa foram plantadas, em 1873, pelo botânico Francisco Freire Alemão, no que é tido como um dos primeiros plantios em vias públicas do Brasil. Porém, a figueira-religiosa, que também embeleza, por exemplo, a Avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon, não é nativa. É originária da Índia e, onde reza a tradição, a espécie sob cuja copa Buda atingiu a iluminação.
— Seja nas florestas, nos parques ou nas ruas e jardins, o Rio de Janeiro está cheio de árvores de valor histórico e muitas ainda não são devidamente reconhecidas — enfatiza Gabriel Sales.



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