‘O que aconteceu na minha vida foi um milagre’


Quando eu era criança, achava meu rosto bonito, meu bisavô falava isso. Ele cantava várias músicas com o meu nome, Carolina. Eu achava que ele inventava, depois descobri que existiam mesmo. Mas quando eu saía de casa, ia para a escola, sofria muito bullying, racismo, gordofobia, machismo… Em casa era diferente. Eu brincava na rua. Meu bisavô falava sobre eu crescer, estudar, ser policial, ter meu dinheiro, minhas coisas. Depois que eu o perdi, comecei a engordar muito. Cheguei a quase 200kg, foi quando operei. Antes eu atuava no palco, passava uma mensagem de que era inabalável, forte, mas essa não era minha realidade. Nunca fui escolhida por ninguém. As meninas de 15 anos tinham namoradinhos, eu não. Por eu brincar muito com os meninos, minha família pensava que eu era lésbica. Eu precisava me masculinizar também para ser respeitada e para não sofrer, para tentar não ser violentada na rua. Nunca passei maquiagem na cara. Antes da bariátrica, cheguei numa fase em que eu só vivia deitada e sentada, com dores nas costas, nas pernas. E isso começou a prejudicar meu trabalho. Eu comecei a fazer show sentada na cadeira no palco. Eu já me sentia morta. Depois que operei, em um mês perdi cerca de 15kg e ganhei uma saúde, um bem-estar, uma vontade de levantar de manhã, de ir no cinema, no shopping…. Até cinco anos atrás, eu só vestia um estilo de roupa, que era um blusão de paetê. Eu tinha essa peça de todas as cores. Não tem como eu não me sentir bonita hoje ao ver fotos de antes e de agora. Eu não tinha pescoço, eu dormia com travesseiro para ficar quase sentada para poder conseguir respirar à noite, não podia botar as roupas que eu queria, que eu gostava. Hoje já perdi uns 65kg. Minha autoestima foi lá no alto. Claro, tem muita coisa que eu ainda quero melhorar. Tirei a pele da barriga e do peito, mas ainda falta da perna e do braço.



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