O que aconteceu com o pescador que sobreviveu a 438 dias à deriva em oceano?

José Salvador Alvarenga detém um recorde mundial que não gostaria de ter obtido: ele é a pessoa que sobreviveu mais tempo à deriva num barco pequeno na História. Após zarpar de Costa Azul, no México, para o que deveria ser uma viagem rotineira de dois dias de pesca de tubarão com seu aprendiz, Ezequiel Córdoba, em novembro de 2012, ele ficou à deriva pelo Pacífico durante impressionantes 438 dias, numa jornada de 10,7 mil quilômetros.
Ao ser resgatado no meio do oceano, José, bastante debilitado, acreditou se tratar de uma miragem. Ele foi levado a Majuro, capital das Ilhas Marshall. Tom Armbruster, então embaixador dos EUA nas Ilhas Marshall, foi uma das primeiras pessoas a falar com ele após sua terrível provação.
“Ele parecia alguém que havia passado muito tempo isolado na natureza”, conta Tom, hoje consultor internacional, ao “Metro”, de sua casa em Ithaca (estado de Nova York, EUA). “Ele se movia com dificuldade e parecia inchado. Certamente não estava extremamente magro”, completou.
Após tanto tempo à deriva, era de se esperar que José estivesse esquálido. Mas ele não estava. Como isso foi possível? O salvadorenho encontrou várias maneiras engenhosas de sobreviver no mar, após o motor falhar e o pequeno barco ser arrastado para alto-mar, na direção oeste, fora do alcance de qualquer ajuda da guarda costeira.
Pequeno barco em que José Salvador Alvarenga passou 438 dias à deriva no Pacífico
AFP
“Era quase como um barco a remo glorificado. Tinha 25 pés [cerca de 7,6 metros] de comprimento. Uma embarcação muito simples, do tipo usado em águas costeiras. Não era, de forma alguma, um barco oceânico. Era algo muito básico”, explica Tom.
Unhas viraram ‘alimento’
O desespero começou a tomar conta de José e de Ezequiel. O dono do barco começou a comer as próprias unhas.
“Estava com tanta fome que fui engolindo todos os pedacinhos”, relatou ele ao jornalista Jonathan Franklin, autor do livro “438 Dias”, que narra a provação no Pacífico.
José Salvador Alvarenga foi resgatado após passar 438 dias à deriva no Pacífico
Reprodução
Sobreviver exigiu ousadia e estratégias nunca pensadas por ele: José pescava águas-vivas do mar com as próprias mãos e as engolia inteiras. Chegou até a fantasiar sobre comer o dedo mínimo da mão esquerda, decidindo que era o menos importante. Ele e Ezequiel bebiam a própria urina e lambiam o interior do barco em uma busca desesperada por gotas de água que tivessem passado despercebidas. De vez em quando, um saco de lixo passava flutuando e os homens examinavam o conteúdo. Certa vez, encontraram um pedaço de chiclete já mastigado, que dividiram entre si. Mais tarde, José mastigou uma tábua de madeira até transformá-la em uma pasta e tentou comê-la. Depois de algum tempo — ele não sabe precisar quanto exatamente — José ficou sozinho, já que seu aprendiz acabou morrendo. O corpo de Ezequiel foi jogado ao mar, conforme relatou José. Os meses seguintes transcorreram em um ciclo de caça, desespero e alucinações.
‘Pensou em se oferecer a tubarões’
“Ele nos contou como capturava tartarugas e peixes, e como atraía pássaros para dentro do barco para depois capturá-los. Ele bebia o sangue das aves e as mantinha vivas até precisar delas”, diz Tom. “Ele falava em considerar o suicídio e até em se oferecer aos tubarões. Foram dias muito sombrios para ele, mas, como pescador, ele simplesmente seguiu em frente, um dia de cada vez”, recorda o ex-diplomata.
Salvadorenho José Salvador Alvarenga ao ser resgatado após passar 438 dias à deriva no Pacífico
AFP
Ao ser resgatado, José em nada lembrava o pescador imberbe que zarpara de Costa Azul. Caminhava com lentidão incomum para um homem de 36 anos. Estava fraco, infestado de parasitas — provavelmente contraídos ao comer aves cruas e beber sangue de tartaruga — e seu corpo desnutrido estava inchado devido à retenção de líquidos.
O que aconteceu com José?
A readaptação à terra firme, obviamente, não foi fácil. Ele não conseguia ficar perto de água por um tempo e, após a alegria inicial de reencontrar a filha, tornou-se uma pessoa calada. O salvadorenho precisava de companhia constante, mas não queria conversar, e acordava frequentemente com pesadelos.
Após o lançamento de “438 Dias”, a família de Ezequiel entrou com uma ação judicial de US$ 1 milhão, alegando canibalismo e difamação. Eles estavam convencidos de que José havia comido o corpo do aprendiz morto. No entanto, a acusação acabou sendo retirada depois que especialistas não encontraram indícios de crime e Salvador passou no teste do detector de mentiras.
Roselia Diaz, mãe de Ezequiel, que morreu no barco de José Salvador Alvarenga
AFP
Desde então, José tem se mantido longe dos holofotes. Tom não sabe o que ele está fazendo agora.
“Provavelmente está vivendo de volta em El Salvador ou ganhando a vida no México, junto com a família”, cogita o americano.
“Ele é um dos maiores sobreviventes do mundo. Um homem extraordinariamente engenhoso e de caráter imenso. Saí de lá pensando que tinha acabado de testemunhar uma das maiores histórias de sobrevivência de todos os tempos”, finaliza Tom.



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