O celular está mudando a maneira como os brasileiros descobrem, acessam e consomem livros. Com cerca de 94 milhões de leitores digitais no país, segundo levantamento da Nielsen BookData, o smartphone se tornou uma espécie de biblioteca portátil, que reúne livros eletrônicos, audiolivros, artigos, notícias e materiais de estudo.
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A transformação amplia as possibilidades de acesso à leitura, mas também traz preocupações porque pode ter impacto sobre a aprendizagem, a concentração, a compreensão de textos e, em última análise, sobre a formação de novos leitores.
72% usam celulares para ler livros e ouvir audiobooks
Cerca de três mil pessoas, com 10 anos ou mais, foram entrevistadas pela Nielsen BookData, entre 1° e 11 de junho deste ano. Os resultados divulgados em setembro indicam que 72% dos brasileiros que leem livros digitais ou ouvem audiolivros utilizam o celular para acessar esses conteúdos.
Quando considerados outros tipos de textos, como artigos e materiais informativos, o percentual chega a 85%. A pesquisa é um retrato do comportamento da população em todas as regiões do país e classes sociais, identificando que 64% dos leitores digitais pertencem às classes C, D e E.
Para o professor Ricardo Marciano, do Mestrado em Vigilância em Saúde da Universidade Iguaçu (Unig) e doutor em História das Ciências, Lógicas e Teorias da Mente pela UFRJ, a principal mudança é positiva porque amplia as oportunidades de contato com a leitura. O dispositivo oferece mobilidade a quem já tem o hábito de ler e pode funcionar como porta de entrada para pessoas que mantinham pouco contato com os livros.
“O celular ampliou as oportunidades de descobrir, acessar e compartilhar leituras. Quem já lia ganhou mobilidade, enquanto quem tinha pouco contato com os livros pode encontrar uma porta de entrada. O aparelho facilita o encontro com o livro”, avalia o doutor.
A aproximação entre literatura e plataformas digitais já inspira iniciativas de instituições culturais em diferentes países. Em 2018, a Biblioteca Pública de Nova York lançou o projeto Insta Novels, que levou clássicos da literatura, como “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, para o formato de stories do Instagram. A proposta era disponibilizar obras literárias em um ambiente já frequentado por milhões de pessoas, aproximando a literatura dos hábitos digitais do público.
Outro exemplo vem de Singapura. Em 2023, o National Library Board, órgão responsável pelas bibliotecas do país, firmou parceria com a operadora de transporte SMRT para disponibilizar livros e revistas digitais em estações de metrô e terminais de ônibus. Por meio de códigos QR, passageiros passaram a ter acesso ao acervo digital durante seus deslocamentos.
O desafio da concentração
Se, por um lado, o celular facilita o acesso aos conteúdos, por outro, a leitura em telas exige atenção às condições em que acontece. Uma meta-análise publicada em 2018 na revista científica Educational Research Review, que reuniu 54 estudos e 171.055 participantes, identificou uma pequena vantagem média do papel sobre os dispositivos digitais na compreensão de textos. A diferença foi mais evidente em conteúdos informativos e situações de leitura com limitação de tempo.
Marciano menciona o estudo, porém, observa que isso não significa que seja impossível desenvolver uma leitura aprofundada no ambiente digital. O ponto central é a maneira como o leitor administra sua atenção.
Para ajudar nessa “blindagem” do foco, ele dá algumas dicas: “A facilidade de acessar um texto não elimina o tempo necessário para compreendê-lo. No celular, precisamos proteger a atenção, silenciando notificações, fazendo anotações e relendo trechos quando necessário. A leitura profunda continua sendo possível, desde que exista uma postura consciente diante do conteúdo”, analisa.
Acesso também exige orientação
A expansão da leitura digital também coloca em evidência a importância da orientação para encontrar obras e fontes confiáveis. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com jovens brasileiros de 15 a 17 anos, identificou que os ambientes digitais de busca são variados, mas nem sempre os caminhos para localizar obras literárias são conhecidos pelos leitores.
Na avaliação do professor da Unig, a tecnologia pode contribuir para democratizar o acesso, mas precisa estar associada a políticas de incentivo à leitura com a participação de professores e bibliotecários.
“O celular pode levar a biblioteca mais longe, mas a educação ajuda esse acesso a se transformar em hábito. É importante considerar questões como conexão, custo, acessibilidade e orientação para que as pessoas consigam encontrar conteúdos de qualidade”, afirma.
No ensino superior, essa combinação entre recursos físicos e digitais também desempenha papel importante. Na Unig, segundo Marciano, que coordena o Núcleo de Inovação e Desenvolvimento de Soluções Tecnológicas da universidade, os estudantes contam com bibliotecas presenciais, consulta on-line, acervo, bases científicas e orientação de bibliotecários, recursos que apoiam pesquisas, trabalhos acadêmicos e o aprofundamento dos conteúdos apresentados em sala de aula.
“A universidade ajuda o estudante a transformar informação em conhecimento. A biblioteca oferece um espaço de apoio para estudar, enquanto os recursos digitais ampliam as possibilidades de consulta. Com a orientação dos professores, essa combinação contribui para que o universitário selecione fontes confiáveis e desenvolva autonomia intelectual”, conclui Marciano.
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