Nutrição além do prato | Portal da Alego


O que é nutrição? Pode ser o arroz e feijão com gosto de comida de vó, o bolo saindo do forno e espalhando pela casa, aquele cheiro que traz a infância de volta, ou o almoço de domingo que reúne todo mundo ao redor da mesa. A comida alimenta o corpo, mas também carrega histórias, afetos e lembranças. E é justamente por tudo o que existe por trás de um prato que a nutrição vai muito além da comida que está à mesa. Ela também é ciência, saúde, prevenção, comportamento e qualidade de vida.

É nesse lugar que entra o nutricionista: um profissional que consegue enxergar muito além do prato. É entender o que o corpo precisa, mas também compreender a rotina, os hábitos, as preferências e a relação que cada pessoa constrói com a comida. Porque se alimentar é uma experiência que envolve muito mais do que nutrientes, cuidar da alimentação também exige olhar para o indivíduo por inteiro.

É justamente esse trabalho que ganha destaque no dia 31 de agosto, quando é celebrado o Dia do Nutricionista. A data faz referência à criação da Associação Brasileira de Nutricionistas (ABN), fundada em 31 de agosto de 1949, entidade que foi precursora da atual Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN). 

Na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), as nutricionistas Maria Eduarda e Tainara Gabriela fazem parte da equipe que atua nessa área. Ao falar sobre a profissão, as duas mostram que cuidar da alimentação envolve muito mais do que montar um prato ou indicar o que deve ou não ser consumido.

A rotina possível

Uma alimentação saudável precisa fazer parte da vida real. Na rotina, Maria Eduarda prefere trabalhar com metas palpáveis. Antes de uma lista infinita de suplementos e manipulados, a proposta dela é organizar os pontos básicos da alimentação, o chamado “básico que funciona”.

“Entre eles estão: atingir a meta diária de ingestão de água, consumir de duas a três porções de frutas por dia, variar e aumentar o consumo de vegetais e priorizar alimentos in natura ou minimamente processados. Desembrulhe menos e descasque mais. Pequenos ajustes, quando sustentados com constância, podem fazer mais diferença do que uma dieta restritiva de curto prazo”, destaca.

Tainara Gabriela enfatiza que comer bem também não significa comer perfeitamente. “O que traz resultado são escolhas conscientes, feitas com frequência e que a pessoa consegue manter dentro da própria realidade. Cada pessoa tem uma rotina, uma história, necessidades, objetivos e gostos diferentes. Por isso, a alimentação precisa ser pensada de maneira individualizada. Nutrição precisa ter ciência, mas também precisa ter individualidade”, resume Tainara.

Emagrecimento não é tudo

A Nutrição ainda é frequentemente associada ao emagrecimento, mas, para Tainara Gabriela, a atuação do profissional é muito mais ampla.

“Eu acho que por muito tempo a nutrição ficou muito ligada ao emagrecimento, e ela é muito maior do que isso. A gente não precisa esperar ganhar peso, alterar um exame ou aparecer algum problema de saúde para começar a se cuidar. A alimentação faz parte da nossa saúde todos os dias. Então, procurar o nutricionista também é prevenção. É olhar para os hábitos, entender o que pode ser melhorado para ter mais qualidade de vida lá na frente”, afirma.

Segundo Tainara, a alimentação pode ajudar na prevenção de várias doenças, mas também interfere na disposição, no sono, no funcionamento do intestino e na manutenção da massa muscular. “Eu sempre gosto de reforçar que comer bem não significa comer perfeitamente. O que realmente traz resultado são escolhas conscientes feitas com frequência e que a pessoa consegue manter dentro da realidade dela”, pontua. 

A atuação do nutricionista também vai além do consultório. Segundo Maria Eduarda, a profissão pode envolver o planejamento da alimentação de empresas e hospitais, a criação de políticas públicas de alimentação para a população, a segurança alimentar de uma comunidade, o controle de doenças ligadas à alimentação, o trabalho dentro de hospitais, cuidando de pacientes internados, e o controle de qualidade da produção de alimentos.

“A nutrição é muito mais ampla do que a maioria das pessoas imagina. Normalmente ela é associada apenas ao atendimento clínico: a consulta, a prescrição de dieta, seja para melhorar a saúde ou por questões estéticas. Mas isso é só uma parte”, conta Maria Eduarda. 

Entre a ciência e a internet

O acesso à informação sobre alimentação aumentou com a internet. Para Maria Eduarda, esse cenário também contribuiu para o crescimento do que chama de “Nutricionismo”: uma visão reducionista que enxerga o alimento apenas como a soma de seus nutrientes proteína, carboidrato, gordura e calorias — e deixa de lado o contexto social, o histórico e a cultura.

“Para mim, nutrição vai muito além de nutrientes e calorias. Falar da nutrição envolve prazer, cultura, memória afetiva e história. E não, não é possível falar em alimentação saudável sem falar de tudo isso.”

A nutricionista destaca que não é possível separar a comida dos significados que ela carrega.“Não estamos comendo o carboidrato, a proteína. Comer não é só uma equação bioquímica. Quando reduzimos a alimentação a números, perdemos justamente o que faz da comida algo humano”, frisa.

Tainara também chama atenção para o volume de informações disponíveis nas redes sociais. Segundo ela, é preciso cuidado diante de recomendações que apresentam regras universais para a alimentação.

“Eu acho que o primeiro cuidado é entender que o que funciona para uma pessoa não necessariamente funciona para outra. Hoje a gente abre as redes sociais e encontra alguém dizendo o que comer, o que cortar, qual alimento engorda, qual emagrece… e isso acaba confundindo muito”, destaca.

Para Tainara, não existe uma alimentação única que funcione para todas as pessoas. Cada um tem sua rotina, sua história, suas necessidades, seus objetivos e seus gostos.“Então, quando a promessa é muito rápida, muito radical ou parece servir para todo mundo, já é um bom motivo para ter cuidado. Nutrição precisa ter ciência, mas também precisa ter individualidade”. 

Entre a culpa e o equilíbrio

A relação com a comida também pode ser marcada pela culpa. Para Maria Eduarda, o comportamento humano é extremamente complexo e, quando se fala da relação de culpa com a comida, muitas vezes é preciso um acompanhamento multidisciplinar.

Segundo a nutricionista, a busca por padrões de estética é um dos grandes contribuintes para essa culpa. Ela também chama atenção para a dicotomia entre o chamado “alimento bom” e “alimento ruim”.

“Só que, na prática, nenhum alimento, isoladamente, tem o poder de engordar ou de emagrecer. O que existe é o contexto: quanto, quando, com que frequência, dentro de que rotina”, explica Maria Eduarda.

A nutricionista observa ainda que, quando a pessoa passa a rotular os alimentos dessa forma, pode entrar em um ciclo de restrição e compensação. Na avaliação de Maria Eduarda, a pessoa pode comer de forma descontrolada aquilo que considera “proibido” e, em seguida, tentar compensar, seja restringindo ou se punindo de alguma forma.

Para ela, esse ciclo pode se repetir sem que a pessoa consiga chegar a um equilíbrio de verdade. Por isso, o caminho não é criar mais uma lista de “pode” e “não pode”, mas compreender que os alimentos podem fazer parte de uma alimentação equilibrada, dependendo do contexto.

Quando a alimentação muda uma história

É nessa relação entre alimentação, escolhas e hábitos que a história de Ana Machado se encaixa. Corretora de imóveis, ela descobriu aos 38 anos que precisava mudar alguns hábitos depois de receber alterações importantes nos exames.

Até então, Ana conta que nunca tinha parado para pensar na alimentação como parte da própria saúde.“Quando recebi os resultados dos exames, entendi que era sobre cuidar de mim e ter mais qualidade de vida”, disse.

A mudança começou aos poucos. Com acompanhamento profissional, Ana passou a organizar melhor as refeições, aumentar o consumo de alimentos naturais e prestar mais atenção à rotina. O processo também mudou a forma como ela enxergava a comida.“Eu passei muitos anos pensando que precisava fazer dieta. Hoje eu penso que preciso me alimentar. Parece uma diferença pequena, mas para mim mudou tudo”.

Depois de alguns meses, os novos hábitos passaram a fazer parte da rotina, e a alimentação deixou de ser encarada como uma obrigação. Com o nascimento do filho, essa atenção aumentou ainda mais. Ana queria proporcionar à criança, desde os primeiros anos de vida, uma relação saudável com a comida e bons hábitos alimentares.

Para isso, contou que estudou sobre introdução alimentar e contratou uma nutricionista infantil para acompanhá-la durante esse processo.

Para Ana, quando a alimentação saudável é incentivada desde cedo, ela tende a se tornar um hábito natural ao longo da vida. “Minha comida afetiva é McDonald’s e cocada; a do meu filho é brócolis e morangos”, afirma.

Um cuidado construído todos os dias

A preocupação de Ana com a alimentação do filho mostra que os hábitos também podem ser construídos desde os primeiros anos de vida. Se para ela a mudança começou depois de um alerta nos exames, para a criança o cuidado veio antes mesmo de qualquer problema.

Para Tainara Gabriela, esse olhar não precisa ser acompanhado de perfeição ou culpa. “Eu diria para as pessoas olharem para a alimentação com um pouco mais de carinho e menos cobrança. Não precisa esperar alguma coisa dar errado para começar a se cuidar. No final, o que a gente busca é viver bem e aproveitar ao máximo a vida”, finaliza.



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